terça-feira, 31 de julho de 2012

Na meia-voz das palavras



Venho de um tempo feito de longes
de um tempo insuficiente
suspenso no outro lado do mundo
entre raízes de mitos submersos
e a agonia do poente
preso às lágrimas dos versos.

Olhares opacos movem-se atrás de muros
segredados
o chão abre-se em fendas
escorrega sob os meus pés
agarrados ao vento.

Mas os meus dedos calam suavemente a solidão dos ciprestes
guardam docemente os retratos
rasgados no adormecer do sol
e recontam as histórias
que o silêncio das árvores faz descer dos ramos dourados
e sonhar aromas de violetas
na meia-voz das palavras.

Brígida Luz

sábado, 28 de julho de 2012

Miragem



Foi como se o teu sorriso trouxesse nos lábios
os sonhos da lua
instantes quentes de uma verdade
que tens para me contar

não sei o que fazer com esta vontade
que me é estranha
mapeada de pontos de interrogação

invento uma tela em branco
em que teço os passos leves
de uma aragem de loucura
num tempo
que não é meu nem teu

quisera eu de horas ser escultora
sorver o momento
libertá-lo da sua temporal sujeição

penduro no meu chão
a porta entreaberta
fecho à chave o teu nome
e despeço-me
só desta vez... mais uma vez.

Brígida Luz

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ruído de fundo




sentamo-nos  à volta da mesa
as vozes caídas ao longo do corpo

como se o corpo se tivesse esquecido
dos (a)braços

os olhos a mastigarem o silêncio

sobram palavras vazias
como ruído de fundo

à procura dos dias
em que nos pertencemos

e dos lugares
em que nos desencontrámos.

Brígida Luz

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A dança da luz



Talvez habite um rio
onde sei de cor a utopia das pedras
ungidas de silêncio. Talvez celebre
o encontro quando depurar
de falas turvas as horas
perdidas entre nítidas veias de lodo.

A sombra espera que a voz
dos sinais desvende
o brilho das palavras.

Talvez nesse dia inscreva no ventre da terra
os fios de luz que
um por um
dançarão os caminhos
e reinventarão o sol nas raízes da casa.

Brígida Luz

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Brev(e)idade



longe
as manhãs de lava

a brisa quente

o riso azul
ágil

a duna em concha
lábios de pele

o corpo
leve
(s)em sobressalto

noites de mel

da lua
a chama
a verde claridade

da breve idade

o tempo

espuma

ave

[ frágil ]


Brígida Luz

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Lá, onde os navios se abrigam




É-me nas mãos o horizonte
a janela aberta nas manhãs
que o céu reparte
a paisagem a despertar
sob um rio de estrelas
a ave a pousar no tempo
da flor
que se liberta.
É-me nas mãos cada palavra
cada sílaba guardada
na solidão das pálpebras
onde os navios se abrigam
na seda azul de um poente
e se afogam
na voz de mel dos teus olhos
em luas de silêncio
a arder
sobre o teu mar.

Brígida Luz

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Esboço



Nas mãos
só os ventos repetidos
e um céu de pensamentos
filtrado pelas cortinas.
No chão
o sol da manhã
gasto
e o foco em quadros mudos
dispostos em queda.
Os passos
repisados
enquanto espero
e o tempo nem repara.
Nos olhos
o apelo líquido de um silêncio
curvado sobre a mesa
à procura de uma árvore
carregada de sonhos
dentro de um ramo a envelhecer.

Brígida Luz

sábado, 14 de julho de 2012

Verde-água



Habito paredes nuas
nos corredores da memória. Sou
neblina
sílaba vagarosa
aguarela de pássaros
e vinha-virgem
véu de buganvílias
debaixo deste alpendre
onde o tempo pára. Descalça
parto por entre o emaranhado das folhas
transponho a doce luz aberta nas sombras. Nítida
a crescente harmonia do silêncio. Abrigo-me
no azul esvoaçante. Desperto
leito
rio
pedra
espuma.
E lá
no verde-água distante
onde moram as gaivotas
clareia o poema
em círculos de céu
e de vento.

Chamam por nós.

Brígida Luz

sexta-feira, 13 de julho de 2012

River Flows in You

O silêncio de uns olhos que já foram o mar



Nas minhas mãos
poisam pássaros impossíveis
nos meus dedos a voz de afetos
esmagados por ecos atolados em lodo

[sou um tempo a dormir num leito de cardos]

Nos meus ombros
o peso de passos nus por caminhos invisíveis
onde enterraste os escombros
da pele que me segurava  a casa.

Cada dia é um rio interminável

[entalado entre os cansaços das marés]

que morre no silêncio amargo de uns olhos
que já foram o mar.

Brígida Luz

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Uma Cidade ao Fundo do Tempo

Habita-me uma cidade
escondida no fundo do tempo
com ruas de solidão vencida
e a melodia dos búzios
que o mar trazia.

A dor não gemia
e as árvores sentavam-se a meu lado
e abrigavam a vida com as palavras
que tinham no coração
com tempo
porque o tempo não existia.

Havia sombra
e silêncio
e sofrimento
o inverno já tinha nascido
o vento soprava
e eu apanhava a folhagem que tombava no chão
e com ela escrevia
as cartas do amor que sentia.

Agora estou aqui
a suspirar silêncios
porque emudeci
e não quero mais
do que uma cidade escondida
que não me esqueça e me habite
para sempre
ao fundo do tempo.

Brígida Luz

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Interlúdio



O frio
entranhado debaixo da pele
a crispação gutural
sob o peso das pálpebras
a vigília
presa ao gesto antigo.

O rio
por dentro da lágrima
o tempo
no interior da nuvem
a erosão das pedras
onde encosto a face

[metade de mim
raio de luz]

no interlúdio das horas.

O tempo
poemas
nos meus olhos
o medo
nos espelhos
onde os pássaros
procuram o meu nome
e o céu morre
como se voasse
rasgado pelas folhas
das memórias.

Brígida Luz

sábado, 7 de julho de 2012

Útero

Há um lugar indizível
onde recolho os traços
das primeiras águas


onde o tempo errante
reúne em mim as sílabas
que me vestem
na cumplicidade de imprecisas vozes


numa claridade onírica
que se dissolve
nas insubornável transparência
do espelho.


Há num lugar invisível
a eternidade de um útero
o genético apelo da profundeza da terra
o calor inteiro da protetora vigília
quando o frio me rasga as veias


e não passa
e não passa…


Brígida Luz

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A casa


Aqui ainda não é a casa
dizes-me
e o silêncio a permanecer
depois dos teus olhos líquidos
sem mácula. Há uma brisa transparente
de promessa
nos teus lábios
vestidos de raízes
e de ecos
a tentar dissolver a névoa
breve
da paisagem. Há um mar a nascer
na tua pele
uma vastidão de azul
a desnudar o tempo verde
que dança no teu peito
sem pressa
como as borboletas.

Brígida Luz

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Lucidez

Branca silhueta ao fundo
das palavras
é a opressa incerteza
da minha lucidez
quando esta por mim passa

pedra
muda
avessa.

Nenhum manto
nem um rio
nem toque de lábios
embrião de espelhos.

Densa superfície de mar
álgida sílaba
cicatriz.

Brígida Luz
31.01.11

terça-feira, 3 de julho de 2012

Ensina-me um Mar...

Se um dia me vires caída
sob a minha sombra
pergunta à vida
onde escondeu as pedras polidas
que não me deu. Nelas me deitei
regato e em manhãs
de pássaros voei um tempo
que nunca foi meu.

Rasguei no vento passos doridos
e às vezes dói-me
o frio dos rios
em poeiras da alma que o silêncio soprou.

Se um dia me vires caída
sob a minha sombra
acende luas no meu olhar
e nos teus olhos de água
ensina-me a vastidão de um mar
em que das pedras me perca
sem que me perca de mim.

Brígida Luz
23.01.11

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Lágrima

Saber como abraçar o teu silêncio.

Recolher nos meus dedos a lágrima onde gritas
a imobilidade da bússola
e refratas a névoa e a brevidade do tempo.

Afugentar as sombras
transformar em fogo a mágoa translúcida
de um sol poente.

Resgatar-te da escuridão 
da opacidade dos medos 
sussurrar-te gotas de orvalho
na serenidade de uma primavera intemporal.

Transportar na liberdade do vento
a luz
e o alento
na transparência do gesto
a da emoção.

Saber como te não respirar.

Brígida Luz
09.01.11

O Rio

E havia a luz em que chegavas e eras
uma nuvem azul dentro dos meus olhos.
Entravas devagar, trazias melodias no rosto
e iluminavas o meu peito.
E a tua voz levava-me a voar.

E havia a casa onde se abrigavam
as tardes vestidas de melros
e de um amarelo intenso de margaridas.

E havia os matizes de maio onde semeámos
promessas de luar e a tua voz
era a minha voz
no silêncio das palavras.

E havia o rio. E lá no fundo
o lodo espesso
onde parou a nossa canção.

Brígida Luz
05.01.11

A Claridade do Tempo

Vem, enterra as palavras na terra
deita-te no silêncio das pedras do rio.
O pôr do sol é quase um lugar
dentro do mar.

Ouçamos a luz do dia, caminhemos juntos
entre as sombras da montanha.
Eu afastarei as escarpas, os ramos quebrados,
a escuridão do vale.

Apaga a noite por dentro.

Ao nosso lado os sonhos sorriem
seguem, seguros, o mapa dos relógios
a linha verde do luar.

Que venham as neblinas de outono
e os gemidos do vento.

A claridade do tempo
ensina-nos a respirar.

Brígida Luz
03.01.11