domingo, 21 de abril de 2013

No sono das horas



Hoje, quero entender o ondular das tuas palavras,
sussurros impalpáveis da noite,
longa e indistinta,
em que abrigas o cântico da tua solidão.


Permaneço aqui, porque procuro
o entendimento,
por dentro do olhar do que não dizemos
e atravesso os limites da espessa cicatriz,
a projetar no verso o equilíbrio da luz.


Hoje, quero entender na crispação do teu rosto
os traços imprecisos da tua esmaecida liberdade,
a enganar a lágrima que te rasga na pele
as raízes da alma.


Hoje, vou ficando. Dissolvendo o tempo
em sílabas de lucidez,
de onde todos os meus passos regressam.


Brígida Luz

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Na obliquidade da noite



O silêncio poisa
confuso
no sobressalto
das aves. Ouço-lhe os gemidos
escuros e frios
entranhados na chuva
e no vento.


Demora-se
na obliquidade da noite
como se tivesse medo
de se render
por detrás da incerteza das palavras.


Desafia os espaços vazios
que os meus olhos projetam
nas paredes da sala


ou as sombras
que o meu corpo vai deixando
na melancolia do tempo.


Dentro de mim
o silêncio. Não sei se na íntima palidez do horizonte
ou no choro dormente
de um significado primordial
a deslizar-me por entre os dedos.


Brígida Luz

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sopro



Há um cansaço líquido a pesar
nos ramos das árvores. De dentro dos muros
uma voz de ave acena segredos
guardados nas pontas dos dedos.


Não sei se foi um sopro
pressentido por mero acaso
ou erro humano.


Talvez um vazio profundo
a passear rumores noturnos
ou apenas a vontade de estender
as mãos para além do corpo.


Ou um silêncio sem rosto
paradoxo de sílabas baloiçando memórias
a escrever o presente
num calendário qualquer.


Brígida Luz