sexta-feira, 29 de março de 2013

Hoje, somos um


Segues agora por dentro de um sonho de cal
a deslizar-te na pele, como a luz de uma
manhã de bem-me-queres
que fosse só tua.


Atravessa-te um tempo quase maduro
nascido de minúsculas flores que fixas,
uma a uma, num chão de palavras d’água,
murmúrios de silêncio e solidão.


Às vezes, somos dois, em olhares
de monossílabos ou cortantes arestas
de um plano desfocado onde enquadras
as lembranças.


Hoje, somos um, na infindável repetição
do take one de um filme rasgado pelo guião
em pedaços mil,
ou no retorno a um dimensão temporal
circular e inquebrável.


Brígida Luz

domingo, 24 de março de 2013

Da redefinição da luz


Divido-me entre ruas de esquecimento e portas
entreabertas ao voo peregrino
de aves tardias. Entre o nada e o nada.


Existe ainda dentro de mim
a verde geografia da palavra
a iludir o pousio das horas?
Ainda existe?


Poderia ser hoje o dia em que o tempo
se suspendesse na memória generosa
de um campo de trigo.


Preciso de um fio de letras, para decifrar o silêncio
de raízes soltas. Talvez a última tentativa
para a redefinição da luz.


Brígida Luz

sexta-feira, 15 de março de 2013

Chove



Às vezes deixo-me nascer,
por entre os pingos da chuva
e, sonâmbula,
sair estrada fora,
no choro solitário
da contagem decrescente do tempo.


Todo o corpo me dói e ainda não sei
como diluir os ecos das primeiras águas.


Ergo castelos de areia,
com as páginas de um livro em branco,
parecem abrir-se matizes de girassóis,
hinos a rasgarem o vento
e são dos meus olhos
as nuvens que habitam o deserto.


Transformo em coração de tília
um mar desalinhado
e saboreio o toque aveludado
da primeira floração de março,
nos degraus de um tempo a acontecer
muito longe daqui.


Brígida Luz

domingo, 10 de março de 2013

Por entre nomes eternos


O rumor das palavras a subsistir
nos pedaços do meu corpo circunscrito
à fala da terra. E o silêncio.
Tão fluido o silêncio desarrumado
entre elas
_as palavras_
sem que eu consiga ancorar uma réstia
de luz em fuga.


Por entre nomes eternos
escorrem texturas de ausência
um vento incandescente a soprar cheiros
e afetos
a linguagem do lume a esgotar-se
na lareira.


O rumor das palavras a reconstruir
o gesto
o recorte dos ramos nas memórias
roubadas ao tempo
como se o olhar fosse um sussurro breve
a deslizar por entre os dedos
na urgência de fazer ressoar em mim
a fragmentação dos cardos indecifráveis.


Brígida Luz

NA PELE DA TARDE OUTONAL*

quando se escreve
o silêncio faz doer as pontas dos dedos
e a cor dos olhos das mães
são as mesmas cores da terra em que nascemos e por isso choramos
quando nos lembramos de que estamos sós


sendo assim
quando o mais fácil arde dentro do corpo


a volúpia dos poetas
e o coração dos mesmos


somos nós que inevitavelmente procuramos
as sensações de conforto de outros tempos outonais


Rogério Cão


* outras palavras, noutros lugares

domingo, 3 de março de 2013

Na pele da tarde


A rua é agora uma canção
incendiada de memórias
uma alma a sangrar desassossegos
uma voz a despir o cansaço
das esperas.


De pedra em pedra levam os braços
a chama
erguem a lua cheia
de pássaros a procurarem o sul.


É tão difícil voar de árvore
em árvore na transição
dos ciclos
sair de dentro do corpo
na urgência de ser gesto ou movimento
gota de chuva
terra lavrada
e nada mais colher
do que um silêncio
a desfazer-se nas mãos.


Brígida Luz