sábado, 30 de junho de 2012

Sombra


Os dedos
rasos de utopia
colam-se a devaneios
fantasia
que me desliza na pele
e arrasta pegadas do tempo
em nós desarticulados
de certezas que jazem no chão
inertes.
Ri-se de mim
a indiferença dos relógios
lenta anestesia
do sopro que me corre nas veias.

De que vento gelado me tornei matéria
na desmemória dos incrédulos?

Não sei os deuses nem o céu
esmaga-me a terra
onde me procuro entre as cinzas dos medos
embrião de um ventre renascido
fogo
água
palavra
chão que seria
se nunca tivesse sido.

Em lugar algum me encontro.
Sou a sombra
no voo de um pássaro.

Brígida Luz
01.07.10

Descaminhos

Pisa desnuda a calçada muda
quebra o compasso nos olhares famintos
encontros vendidos em palavras sem voz
caminhos ausentes
tormentos de vidas sumidas
no hálito quente e sabor a fel
de pele suada em noites escondidas. 
A chuva miúda lava o negro silêncio
de um cansaço que já não importa
perdeu-se no reflexo da sombra.
São despojos sem dono
cama desfeita em morada incerta
mentiras de ontem
doce fantasia de sonhar o talvez de um dia...

Brígida Luz
20.06.10

Tela de Silêncios

Mergulho as mãos nos silêncios do tempo
e em palavras não ditas
reinvento o sentido invisível dos dias
que me olham nos olhos deformados
sem lágrimas de alma aquecida
nem manhãs de sonhos acordados.

Os instantes já não voltam a ser meus
calaram-se nas vozes de outros
afasto-me da minha pele
ao som trémulo de violinos mudos.

Chegou sem aviso a noite escura
uivos da Lua
gélidos momentos
tombados na tela translúcida de sobrepostas figuras
vermelha loucura de aniquilar o vazio
de um olhar desgrenhado.

Brígida Luz
19.06.10

Andrajos

Colho os frutos do chão
a carne já está oca
e sob o sangue do sol
levo-os à boca

e no rio que em mim corre
deserdado e desnudo
mato as dores e a fome
beijo o céu e a terra
em andrajos de fogo
e de selva

e entre os meus leitos submersos
enterro sem mapa
o meu gesto
de ser pássaro.

Brígida Luz
27.05.10

Tília

Não trago comigo mais do que
o gesto inábil de artesã de nenúfares.

Exilada pelo silêncio das sombras
colho o sussurro dos ventos
como quem burila o primeiro diálogo das neblinas.

Ao tempo nada mais cabe do que
passar.
Sem nada esperar de definitivo e
como quem intenta um tempo de prodígios
enterro as minhas mãos
para decifrar o lugar exacto onde a terra segura as águas
e a luz que invento me anuncia as nascentes dos oceanos.

Nada mais me cabe do que
cuidar
como a quem nada mais pertence do que
podar a ramagem da tília que plantei ao rés da casa
e adubar os meus fascínios neste chão.

Brígida Luz
23.05.10

Palavras cor de mar


A estiagem transparente adormece-me
indolente
a vontade cor-de-mar.
Por mim passam rios de areia
com sabor a maresia
e num inconstante movimento
a espuma
mais forte do que o tempo
atira
para longe e para perto
horizontes
sobrepostos nos recortes do pensamento.
Do silêncio nasce a pedra
que a onda vem afagar
em beijos de algas e sol
que acendem o azul sem vento
e molham as palavras
que voam
salgadas
no meu olhar.

Brígida Luz
21.05.10

Queria Dar-te o Tempo


Queria dar-te o tempo
de ergueres
nas tuas mãos ardentes
a colheita
da verdade que plantaste
na cor pujante
das papoilas sem algemas.

Queria dar-te o tempo
de sorveres o luar da noite
e com ele alicerçares
o teu sonho
em construção.

Queria dar-te o tempo
de uma montanha vencida
cumprida
sem desnorte ou dilação.

Queria dar-te o tempo
em que a luz é limpa e quente
e indizível
e o sol habita a tua essência
eternamente.

Brígida Luz
12.05.10

Mãe

Mãe,
ontem não fui ao cemitério,
nem há muitos anteontem.
Não sei como dizer-te desta lágrima
que me embacia o olhar
e se fixa na garganta,
num nó
que não me deixa falar.
É-me difícil encarar-te.
Sei agora avaliar
o quanto te fiz sofrer,
mas não há como retroceder.
Tanta verborreia que eu podia ter evitado...
Mas tu sabias
que eu não conseguia fazer amizades,
como ainda hoje o sabes,
porque eu só precisava
que tu fosses a minha melhor amiga,
como o és ainda hoje.
Sabes que,
às vezes,
escrevo os meus desabafos
e sonho que faço poesia,
mas também sabes
que eras só tu quem me ouvia.
Não há como voltar atrás,
vou respirando sozinha.
Bebo a chuva
em que secam as palavras,
afago as ausências
na tela que reveste o coração.
Sei que estás aqui bem pertinho de mim.
Vamos silenciar as lembranças,
acho que nem te vou pedir perdão.
Basta que fiques assim,
que me dês o teu ombro,
o teu regaço
e que guardes nas tuas a minha mão.
Até sempre, Mãe.


Brígida Luz
03.05.10

Verniz

O dia não abraçou
a efeméride
o aniversário dispensou aquele tudo-nada
e guardou o coração na mudez
do corpo.

A luz desprendeu-se do rosto
esqueceu-se de decifrar a sintaxe
castigou a morfologia
das palavras.

Betumaram-se as fendas
as manchas foram isoladas
o chão replantado.

Já não há penalização para a dor.

Brígida Luz
02.05.10

Tecendo Fios de Lodo

Entre os silêncios de pedra
tatuados nas paredes,
nascem ecos redondos
germinados no meu corpo,
estéreis amontoados de sílabas,
feitiço de um sopro do tempo.

Ouço a respiração da noite,
o zunido da lua
difusa no ar
sem as carícias do vento.

A neblina fecha o horizonte,
acorrenta o rumor do mundo.

E os silêncios cerram o círculo
e os ecos agonizantes tecem os fios de lodo
e a voz alucinada não pára de dobar.

Brígida Luz
26.04.10

Acho que Depois não Conseguia Voltar

Aqui espera-me um silêncio
que me arde
no olhar do tempo parado
ao fim do dia.
Estou sozinha e crua
sou palavra nua dentro dos meus versos de água
que cortam a confusa solidão
povoada de fantasmas
que nascem
e morrem
sem saída
entre as raízes dos meus dedos.
Estremeço à voz que ressoa
do meu pacto
com o corpo verde do meu chão
folhas e flores
rua
ramo de um céu aberto
rosto da minha parte pura
pele imprescindível do meu universo.
Acho que depois não conseguia voltar.

Brígida Luz
09.04.10

Um silêncio verde



Hoje é dia
de um silêncio
verde
percorrer as nossas veias.
Rodo a bússola
sob a luz a dissolver-se
no tempo
a garça branca
diz-me
que a manhã regressou.
A clareira azul
ainda indecisa
desce ao teu encontro
faz-me levitar.
Crescemos
sobre as fronteiras das sombras,
soltos dos instantes contados grão a grão.
Respiro o som
líquido
da minha verdade tranquila
e o meu nome
é paz.

Brígida Luz
04.04.10

Baú

Há o tempo do encontro
esta mão-cheia de terra
em que me faço e completo.
Há a embriaguez
do amor
bebido em promessas de vento.
Há o sonho
alada música
em que o gesto se desprende.
Há um lugar nas palavras
para um sol
que não dá frutos.
Há uma tela de lembranças
aromas recuperados
cor a cor
traço a traço.
Há um grito
rouco
lento
e o silêncio não entende.

Brígida Luz
30.03.10

Lua Cheia de Saudade


Deixo que o poema sobrevoe a saudade
ressuscito o teu rosto
do tempo
que desistiu de passar.

A meus pés
um abismo de lugares vazios
onde eu sento as sombras
dos sonhos que chamam
pela esperança
pelas luas
pelas dunas
em que a noite se deitou
e se tornou fios de luz
dentro de nós.

Brígida Luz
03.03.10

Improbabilidades


Podia lembrar e esquecer
a casa cheia de noite,
a respiração turva das palavras,
se aprendesse a semear campos pontilhados de sonhos,
nascidos na claridade dos dias.

Podia entender-me
nos gestos que sussurram a minha imagem
nos rios em que me deito,
se não me atravessassem  silêncios irrepetíveis
do tempo inexistente,
no tudo que é o instante.

Queria até beber dos teus improváveis rituais,
se me estendesses um regaço de águas mansas
em preguiçosa avenida de aloendros e garças reais.

Brígida Luz
21.01.10

Nos meus Olhos um Oceano


Entre as gotas do tempo
submerso em verdades inexoráveis,
esfumam-se tardias sombras,
inadiáveis,
esventrando-me presságios de esperanças e colheitas.
As minhas mãos,
cheias de tudo e de nada,
interrogam o silêncio transparente
dos xilofones dos ventos,
suspensos da pequena rede
que baloiça mansamente,
agarrada ao céu das emoções.

Cegaram-me os fios de luz
de oceanos nascidos dentro dos olhos,
na lonjura fugidia
que o voo raso dos dias
esqueceu vazios
no cais.

Brígida Luz
17.01.10

Ciclos

As idades dissiparam-se em silêncios
dentro das molduras que sorriem
na prateleira
da lareira.
Limpo na cinza acumulada
a descrença no recomeço dos ciclos
e sopro o tempo
em espirais de vultos imortais.

Brígida Luz
02.01.10

Viajar Entre Versos


Passo
e vou deixando
ecos de mim em todos os espelhos.
Ficam olhares presos nos tempos,
a pele colada a relógios
que perdem a noção do espaço
e do movimento certo
e começam a rodar no sentido inverso.
Desvendo-me toda,
célula por célula,
entrego a minha essência a quem quiser lê-la.
Sabendo quem sou
e para onde vou,
suspendo-me em versos em que lavo a alma,
em busca do êxtase,
ou tão simplesmente, de uma doce calma.

Regresso,
quase sempre entre sentires desencontrados,
etérea, mendiga,
sedenta, isso sim, de uma mão amiga
dispersa,
esbatida em reflexos desfocados.

Brígida Luz
31.12.09

Vertigem



Vem, amigo
preciso de ti

sente a vertigem
das estradas de outono
da vinha virgem
dos milheirais


ergue-me de mares de tempestade
sonha-me memórias de poentes


vem comigo
tenho medo de mim.


Brígida Luz
12.11.89