segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Ao fundo da folhagem


Os olhos
ao fundo da folhagem
a serem poalha luminosa.

A estrada
há muito tempo longa
muito longe lenta.

As vozes
a solidão das vozes
ecos de oposição
nos pensamentos.

O tempo
sempre o tempo
a poder ser traço
ou instante
imagem esparsa do voo de um pássaro.

Brígida Luz
26.10.15

domingo, 25 de outubro de 2015

E eu não sei do tempo que passou


Devo ter sido isso. Uma parte de mim
como quem acontece a medo
entre o que se diz e o que se queria fazer.
Escrevo o desassossego dos espaços cheios
como se me fossem um lugar natural
em que as coisas deixam de ser sempre as mesmas
entretantos ou sopros no vazio.
E poder dizer que dos meus olhos
saem caminhos. Construir
pontes com as palavras que faltam.
Hoje choveu
a água atravessou a luz
e eu não sei do tempo que passou.

Brígida Luz
25.10.15

sábado, 17 de outubro de 2015

A anteceder o naufrágio

Deixar que os gestos do sol me poisem sobre o rosto
a desenharem os contornos dos pensamentos.
Desprevenidos
em repouso
como se os dedos entranhados de eternidade
pudessem transpor a lonjura do olhar
ou habituar-se, serenos, à voz do derradeiro sono.
A aceitação do tempo parado. Ou de uma
luz sem nome
a anteceder o naufrágio.

Brígida Luz
17.10.15

domingo, 11 de outubro de 2015

Como se uma haste de vento...

Mesmo na sombra
as palavras permitem-me alguma luz pela vidraça.
Inundam a folha
escorrem-me pelas raízes
estendem-me como seiva nos sulcos da terra
iludem os silêncios da tarde que esmorece.

Como se houvesse traçado o dia
todo ele
de céu limpo e sabedoria
e eu como um rio a fluir
lento lento

e me bastasse uma haste de vento
para explicar a chuva miúda no interior do meu tempo. 


Brígida Luz
11.10.15

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Por dentro do encantamento das memórias

A sombra presa à solidão da árvore
tão vazia
tão despida de folhas.

A terra adormecida a entrar-me nos ossos.

Mas as palavras voam
vibram nos dedos quando o silêncio me dói.

E um dia hei de dizer-te da luz definitiva
que habita o coração do poema.
O lugar exato
onde o tempo ajusta brisas e searas
e o poente adormece
sob a tranquila respiração dos silêncios.

Hei de dizer-te das ruas
que atravessam horas serenas
por dentro do encantamento das memórias.

Brígida Luz
01.10.15