sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Lua cheia

Apagar a história. Uma narrativa
de ruas vazias a atravessarem o mundo
dias suspensos

espalhados por entre as pedras
da rua.

Encontrar-te à distância de um abraço
e ficarmos a olhar o último horizonte

até perdermos o tempo de vista.

Entranhar no silêncio a claridade
da noite. Lua mansa. Lua cheia.

Adormecer no rumor da luz as escarpas
da memória.

Brígida Luz
25.12.15

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O que me falta

Dupliquei a luz,
acendi todas as velas.

Não me perguntem o que tenho.

Éramos tantos,

já fomos tantos...
Faltam-me rostos,

rostos com alma.

Faltam-me mãos,

as mãos que amassavam e me deslumbravam.
Faltam-me braços,

os braços que me afagavam
e me adormeciam.

Faltam-me os olhos

que me agarravam e me seguiam,
olhos que me reconheciam

única
entre tanta gente.

Não me perguntem o que tenho.

Perguntem-me

antes

o que me falta.


Brígida Luz

domingo, 20 de dezembro de 2015

Oito luas

Oito luas. O tempo a crescer
no silêncio das águas. O amor
a ser rio que pulsa debaixo da pele
e se transforma em janelas
onde penso ver um rosto. A luz
a atravessar as palmas
das mãos nos contornos do teu ventre.
Oito luas. Um perfil de
azul
nas raízes do teu corpo
a dança das marés
na metamorfose dos nomes.

Brígida Luz
20.12.15

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Íntima afirmação do olhar

Como se o tempo tivesse parado
no interior do silêncio. Um coração a que as mãos
se agarram
quando as palavras demoram em ruas
de memórias límpidas.
Ao longe
a lua a prometer marés calmas
ou uma doce canção adormecida em dias
de árvore submetida à inclinação do vento.
Abraçar o que cabe dentro de mim
atravessar a névoa que ilude
os lábios
vislumbrar a mutabilidade das coisas
imutáveis
íntima afirmação do olhar.

Brígida Luz
08.12.15

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

As vozes

Aqui, onde os declives se desvendam
e os dedos se estendem em réstias de luz
para dentro da terra,

[ em desassossego de vozes e sementes ]

e os teus olhos me aquietam na solidão
dos rios que gemem

sob as águas paradas,

aqui me reconheço sede, a soletrar as aves
que envelhecem,

ponteiros mortos de um tempo
atravessado de luz tardia, em que os horizontes

se confundem e se habita pela metade
os nomes dos dias,

na orla de tudo

[ ou de nada ]

onde a viagem irreversível se inicia.

Brígida Luz