quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Philip Glass


A memória das árvores

Todos os meus dias regresso
ao arvoredo onde guardo as tuas mãos.

O tempo suspende-me os olhos
nos nomes que se esfumam perto
da linha noturna do entorpecimento
dos ossos

quando o sangue quer atravessar
todas as sílabas
de todas as palavras límpidas

e clarear a serenidade das vozes.

E a vastidão deste silêncio azul parece
estender os braços
à força mobilizadora das águas.

Não fora esta lonjura por dentro
das veias
e eu diria que

como se fossem um ínfimo
grão de pó

por entre os dedos me rolariam todas as pedras
atravessadas por sombras e imagens indecifráveis.

Brígida Luz
15.08.17

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Os rostos das palavras



Atropelo-me
no asfalto das palavras doridas
que colidem
sem nexo
à procura da minha lucidez.
Palavras em ruínas
a sobreviver na nitidez
da sépia
a transportar em si
cada aresta da vida
cada pedra arremessada da montanha
em busca de uma trajetória de luz.

Palavras sem voz
a caminhar em círculos
com rostos lá dentro
sonhos
emoção
histórias carregadas de pontos de interrogação.

Palavras que são essência
a procurar o tempo de olhar as gaivotas
a abraçar o vento
a inventar pássaros nas sombras do mar
e deixar o silêncio voar.

Brígida Luz
13.03.12