sexta-feira, 28 de junho de 2013

A aposta



Este gesto de estender os ramos
e afundá-los nas palavras. De, em versos, esculpir
entendimentos e recomeços,
de mil vezes apostar na pedra
e persistir mil vezes, sob
os escombros em queda.


Este gesto de sair do tempo,
ou esvaziar espelhos previsíveis. De invocar
imagens antigas, à superfície
dos lábios
e grafitar manhãs em sons de pássaros,
para te oferecer.


Brígida Luz

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Luz




Escrever a luz que eu
sou em cada flor
em cada pedra


ou gota de água.

Ou na quietude
da magnólia
a sussurrar-me p’ra dentro
um aroma branco
acetinado


serenado de entendimentos.

Eu poderia ser
essa magnólia
esta manhã. Porque esta manhã
não há vento
nem nuvens


e é verde-luz
o silêncio
esculpido nos ramos das árvores.


Brígida Luz

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Da habitabilidade dos corpos



Acredito que a palavra existe,
para lá da imobilidade do olhar,
nos momentos em que a tua voz desliza,
branda e quente, a entranhar-se
na sede das mãos. Ouço-a
e acorda-me o tempo, por baixo da pele,
num amálgama de cinzas luminosas.
Diria que, nos teus dias
de esquecimento, transportas somente
uma parte de ti e que nas veias
te cresce ainda
a árvore das boas memórias.  Porque
a carne segue raízes de sangue
e de lágrimas
e a luz brota de dentro, a refazer os corpos
em espaços habitáveis, ou a moldar
o gesto informe do silêncio.

Brígida Luz

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Intermitências



Anoitece
a folha onde escrevo,
sustentáculo de dias de água
e primaveras dissimuladas,
vazios ambíguos, preenchidos
por hipóteses
ou intuição.
Talvez um espaço,
num tempo de permeio,
antes do agasalho da memória. Quando a voz,
ainda rouca,
oscila entre a aproximação
do olhar
e o silêncio do gesto entrelaçado
da palavra.
Indistinta, no voo indecifrável
das imagens,
demoro o corpo na ramagem
liquefeita
e fico à espera. Hei de recolher a manhã
nas minhas mãos.

Brígida Luz

sábado, 8 de junho de 2013

Urgência




Esta manhã é uma claridade cinzenta. Talvez por isso
sejam cinzentas
ou mesmo invisíveis
as sílabas que sobram
da ausência da voz.


Nos olhos
um insondável cenário de argila
a urgência de um afago do tempo
com o sabor transparente das palavras.


Tudo quanto resta
são ecos exaustos das águas estáticas
de um mar desarticulado
onde reúnes a travessia do mundo
nessa densidade dispersa no centro de ti.


Mas p’ra lá das margens do corpo
existe ainda algum sol
entre o pousio das marés.


Na libertação do silêncio
quando as memórias tocarem as coisas simples
em que tu e eu éramos apenas nós os dois.


Brígida Luz

domingo, 2 de junho de 2013

A linguagem do sol




Nunca soube onde guardar o silêncio
que surge numa tarde vagarosa
em que o sol tem tantas palavras para dizer.


Palavras que entreabrem a janela da tarde
e deixam que o tempo atravesse a rua de água doce
onde os rostos se debruçam
e as vozes pronunciam os nomes
em que as memórias persistem.


Pouco sei das palavras do sol. Pouco sei.

Entrego as minhas mãos ao silêncio da tarde
inclinada sobre a folha em branco.


Olho-me agora no verde das árvores
num esforço vertical
para me reconhecer.


Pouco sei das palavras do sol. Pouco sei.

Brígida Luz

sábado, 1 de junho de 2013

Se eu chegar tarde à primavera



Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica a luz que resta
do inverno que dói
nas fendas da pele,


ou do vento
que geme ladainhas inexatas.


Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica
a chama da manhã no exílio dos pássaros,


ou então o silêncio profundo
da fusão das almas, na mortalidade
do tempo breve em que germina a sede
inútil e imprecisa, que antecede
o verão que há de chegar.


Brígida Luz