quarta-feira, 31 de julho de 2013

Enquanto não voltares



Despeço-me de ti e fico
a ver-te, ao longe, quando partes.
Misturam-se as paredes de betão
e esbatem nos meus olhos
a plena nitidez dos movimentos.
Aceno laivos de saudade liquefeita
em sílabas vagarosas
e sopro-te um sorriso

[ simbiose de raízes e imagens afastadas ]

que flutuará no poema
enquanto não voltares.

Brígida Luz

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Retrovisor


Ajeito o espelho e deixo
que o tempo se desdobre em paisagens e destinos
até onde o olhar me sobra.

Dilui-se na lonjura o arvoredo
e é quase vã a esperança de encontrar
a margem da planura
onde
por esta altura
profundo e quente o silêncio cantaria.

Subtraio ao chão que piso o pensamento
e neste viajar entre espaços imprecisos
e pedaços de incertezas peregrinas
deslizo os dedos pela luz das madrugadas
ou memórias rendilhadas de charneca e neblinas.

Ajeito o espelho. O gesto é vagaroso e delicado
a consertar as horas
peça a peça
a descalçar o tempo
que recomeça.

E é neste pó de verão que
hoje
eu prossigo o meu percurso.

Brígida Luz

domingo, 28 de julho de 2013

Abandono


Hoje, cai uma chuva
miudinha.

Uma murrinha
teimosa e lenta.

E eu imagino
que poderia passar,
incólume,

[como quem foge a penosa imobilidade]

entre os silêncios
desta poalha

insensível e
cinzenta…

Tão visível
é a minha

invisibilidade.

Brígida Luz


sábado, 20 de julho de 2013

Monólogo



O branco da noite
a entornar-se na folha.
A projetar nas paredes
fagulhas da memória,
sombras exaustas,
tentativas de reler sentidos em crenças interrompidas.

Ardem-me nos olhos os lugares
onde as árvores sobrevivem.

Cola-se ao interior das mãos
um refúgio da solidão,
uma história de conchas improváveis.

E a página desdobra-se,
lentamente,
sobre nostalgias adormecidas
e diálogos que suspendi em frestas de esquecimentos
ou no descampado dos dias.

Volto-me então para a luz secreta
de um tempo que dorme no calendário do meu corpo
e engano outonos anacrónicos
no monólogo que me resta
no lado de dentro das palavras.

Brígida Luz


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Estes versos são o mar



Sem o prever
os olhos regressam ao silêncio das águas
avançam sobre a limpidez da manhã

como dedos a procurar a luz
ou um sopro de vida
a (re)vestir o verso.

Fecham os últimos caminhos de sombra
entregam-se como brisas

subitamente sol
e corpo
na pulsação do mar.

Porque estes versos são o mar. E há tanto mar
a poder ser grito, pássaro, flor
ou cor estridente.

Há tanto mar para ser navio
e sonhar o tempo.

Brígida Luz

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Às vezes, queres chorar...


Dentro dos teus olhos há um abrigo
onde o silêncio se desarruma

e nomes, nomes antigos
em busca do prolongamento
das tuas mãos.

Ainda não sabes enumerar
os horizontes onde resistes
à erosão do vento seco.

E resistes. Aos braços inteiros
onde o sangue estremece

ao lugar à mesa em que o domingo
cresce e abre a janela

e deixa rolar o verão
ou respirarem as borboletas.

Assim vives. Assim escolhes
essa luz vagarosa

voltada para dentro das pálpebras.
Às vezes queres chorar
mas os lábios não deixam

esquecidos das texturas invisíveis
e inexplicáveis

de onde irrompem os lugares
e as memórias a que pertencemos.

E por onde silenciosamente caminhamos.

Brígida Luz


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Rasuras



Rasurando desalinhos. Ferrugens
estéreis
na linguagem intransponível
dos olhos. A mente
em fuga
no atropelo do corpo.

Poeiras de desmemórias
ou encriptação dos afetos?

Na inconformidade dos dedos
reescrevo as horas permeáveis
à proximidade da pele. Como se não
se tivesse esgotado
um tempo que aconteceu. Livre.
E imensurável. Desconstrutor de margens
dentro de nós.

Entre os destroços, decerto
encontrarei um abrigo remendado de palavras.

Brígida Luz

quarta-feira, 10 de julho de 2013

in memoriam




                       [Mãe, cada palavra que me ensinaste repete mil vezes o teu nome.]*

                           *José Luís Peixoto.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Maquinal_mente


Dói-me a inocência da pele, atravessada
por um beijo na face,
como se fosse o toque frio
de um inverno que se prolongasse
para lá do tempo ruidoso do silêncio,

um traço igual a qualquer beijo na face
num gesto amorfo de ninguém.

Gostava de ter ainda o sorriso onde se dissolviam paradoxos
ou espaços embaciados de sal. Onde
a transparência dos olhos nomeava a intimidade
dos rostos

e a pura articulação da voz permanecia
até onde se lançavam as nossas mãos.

Brígida Luz