sábado, 27 de agosto de 2016

Na inclinação do tempo

A pedra a decair
na inclinação do tempo.
Ao fundo da solidão uma neblina espessa
chamamento de silêncios e memórias.
Da lonjura de nomes incertos
uma rua a crescer
serena e branda
como se sonhasse margens improváveis.
Há trevos de quatro folhas
e pétalas de sílabas brancas
sobre os ponteiros do crepúsculo.
Deixo-me tocar pela ilusão da árvore de passos inquietos.
Sabe de um lugar
onde a pedra sobrevive
na soleira do esquecimento.

Tudo o resto é monólogo
é deserto
no que fica por dizer.

Brígida Luz
27.08.16

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Moinhos de vento


Deslizávamos por um fio de palavras irreversíveis.

A morte

diziam uns.

Renegação

gritou aquele



que procurou refúgio no interior

do silêncio.



Levámos connosco a chuva de um tempo

que permaneceu

ausente

dentro de nós.



Vivemos mil vidas e



longe de um fio de palavras irreversíveis

desfiámos as frases que ficaram por dentro dos olhos

paradas

a olharem para trás.



O acaso e os afetos a moldarem-nos lugares

em barro de encantamento.



Desenrolámos as veias do tempo



e o verde de uma teia de luz a entrançar dedos indefiníveis

em folhas de impressões digitais



e moinhos de vento.



Brígida Luz

24.08.16

domingo, 14 de agosto de 2016

Ser corpo e lugar

Os violinos da tarde a gemerem
um tempo líquido
transparência verde
e infinita
lugar levíssimo a permanecer dentro da pele.

Como um eco sentado à beira
das águas que correm
voltar a ser espiral
de palavras antigas num coração de memórias
onde cabemos corpo.

Reter a dimensão do silêncio na placidez
do olhar
sem procurar as incertezas
da voz
ou a exaustão da luz
nos pássaros do poema.

Brígida Luz
14.08.16