quarta-feira, 29 de maio de 2013

Lamento



Eras o tempo em que guardei todas as chaves
dos segredos que nos sabiam dentro,
como quem entrega o chão e confia o corpo
à linha azul que dos teus olhos partia


e me era leito,
e rio,


de abrigo, o porto.

Mas quando a cor avermelhou a madrugada
e o sopro dos teus lábios tocou os meus cabelos,
de abril seria a flor que então murchou.


Ao arrepio do tempo,
a dor,
o lamento,


a utopia,
a raiz sonhada.


Brígida Luz

sábado, 25 de maio de 2013

A insubmissão do silêncio




Longe de tudo
a insubmissão do silêncio
o azul a escrever o espanto da alma
um grito profético de maré calma
em acordes de tarde faminta de vermelho.

Longe de tudo
o coração a escutar o avesso-barco do espelho
as palavras a traçarem um canto de espuma
a vertigem da luz na memória dos dedos
a calar o pranto das águas.

Brígida Luz

domingo, 19 de maio de 2013

Lá fora, é maio



Refém de um lado lunar,
que me prende os olhos na cal branca
da fachada centenária que desce a rua deserta,

cada passo que me leva
repisa os limites de uma folha morta,
enquanto as veias, desatinadas, explodem em gritos
de saudade e muros de melancolia
tanta.

E o céu, tão baixo, tão baixo,
a enregelar-me a pele, a circunscrever- me a visão
ao peso de tão infinitos nadas.

É domingo à tarde, num calendário afónico
e transido de medo, porque, lá fora,
é maio e a primavera canta.

Brígida Luz
19.05.13

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Decifração




Fazer destas paredes a folha em branco
dedos de árvores a pintarem um tempo nu
uma porta de entrada
um recomeço de vozes
ou de palavras


_sabe-se lá_

Fazer deste momento uma lentidão
a passar-me pelas horas
um céu suspenso na imensidão azulada
uma serena linguagem de mar
longínqua viagem de gaivotas


_ou o manto inocente do silêncio que me rodeia_

Brígida Luz

quarta-feira, 15 de maio de 2013

No lado suspenso da manhã



E é quando a memória às vezes é ruído,
fissura nos lugares onde
o corpo é voz, cintilação do verbo.


E é quando os olhos são idas da pele e
dos dias,
ausências sem regresso,
cicatriz subterrânea das esperas
sem mapa.


E é quando uma luz tranquila entreabre
a janela do quarto
e o audível silêncio alcança a viagem
do tempo
e permanece cor,
no lado suspenso da manhã.


Brígida Luz

terça-feira, 7 de maio de 2013

... ou o insustentável cansaço da palavra gasta




As águas desalinhadas
a correrem nos andrajos do tempo
que oscila
suspenso
encharcado
no desconforto das árvores.


A voz rouca do vento
a plantar mitos e luas
sob a melancolia da pedra.


A luz
dispersos fios de sol
em tarde árida
a arrastar um vazio de nada
para dentro do verso.


O silêncio da escrita
ou o insustentável cansaço
da palavra gasta
no inverno tão sem fim
das longas esperas.


Brígida Luz

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Espreitando a metamorfose dos dias


Confunde-me esta distância
entre as palavras, o desconforto dos olhos
quando os silêncios
caem no chão. É quase um mito desfeito
nas profundezas do espelho, um nó
no brilho dos girassóis.


Em boa verdade, ando por aqui,
os dedos entrelaçados na tua ausência,
suspensa de contornos de incertezas
ou de fascínios da imaginação.


Por isso, escrevo,
espreitando a metamorfose dos dias
a transfigurar os medos,
no lado invisível das horas.


Brígida Luz