terça-feira, 28 de agosto de 2012

Ausência



É de borboletas que falo. E de azuis ziguezagueantes
num tempo de voos ardentes
e sorrisos vagabundos
que ruiram
magoados
no fogo cintilante do horizonte.

É de borboletas que falo. E de asas singelas
inconscientes
vestidas de regaços quentes
a esvoaçar para fora dos meus olhos
à procura das horas
bordadas a fio dourado de utopia.

É de borboletas que falo. E de incertezas dormentes
onde fiquei aprisionada na espera pendurada
dos gestos puros do nascer do sol
que libertassem do silêncio
a pele que esvaziei
quando me desabitei
ausência
no lado de lá do vento.

Brígida Luz

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

(in)lucidez


… a procurar o tempo
dentro dos meus olhos

a abrir os poros para deixar
respirar as palavras
não ditas

a reorganizar a superfície
da pele

como quem mergulha os dedos
nas brisas quentes
das memórias
para transcender as dobras
do silêncio.

… a transformar em aves
o horizonte

a prolongar-me em preces
e gritos de luz

como quem estilhaça
a opressão das nuvens
que crescem na minha (in)lucidez.

… a procurar os teus olhos
dentro do tempo…

Brígida Luz

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Teias de palavras sem-abrigo



Nunca as horas foram tão breves
nunca os dias se fecharam tão cedo
contornos da noite
chuva baça
sem regresso.

As linhas do tempo sustidas
pelo desalinhamento dos ciclos
e as cores que incendeiam a tela
destroços de rostos
ao longo do silêncio do verso.

As mãos erguem as memórias
retêm o rumor do tempo. Prolongo-me
pelas copas das árvores
sopro apagado das pedras
e de aves caídas
arremesso.

Nunca os dias foram tão breves
e as horas compassos distorcidos
teias de palavras sem-abrigo
retrocesso.

Brígida Luz

sábado, 18 de agosto de 2012

... até encontrar a palavra certa...



Tento dizer de um recomeço
de um tempo que não seja de noite
e os olhos não deslizem pelo silêncio
das paredes
e os girassóis de agosto
não sejam pausas
entre a rotina das coisas.

Continuo a olhar para pontos distantes
atravesso o céu e não vislumbro
de mim um rosto
a minha voz ao longe
memórias de mim
feitas de pormenores importantes.

É inútil falar de ecos
de casas a preto e branco
é preferível calar-me
até encontrar a palavra certa.

Brígida Luz

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Porque hoje é sexta-feira

A todos os amigos que me acompanham, que me honram com a sua visita e me deixam mensagens de simpatia e incentivo, a todos aqueles que, mesmo em silêncio, gostam de passar por aqui, desejo um excelente fim de semana, com muita paz, bons momentos de leitura e de palavras inspirad(or)as.

Deixo-vos a minha gratidão, num som que me lava a alma e numa flor, do meu jardim.

Brígida



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Trans-verso


o silêncio
disperso

em movimento opaco
de sílabas átonas

os olhos secos
o olhar vazio
irrefletido espelho
indecifrável rio

segredos
a rasgar a pele
pedras
a  verter do peito

sombras
nos dedos

limiar do rosto
pôr do sol e sal
a atravessar o verso.

Brígida Luz

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Húmus


Damo-nos as mãos e a leveza do chão
acende-nos sorrisos novos nos passos.

O tempo solta-se de mim
sentado num qualquer degrau
de uma trajetória inteira
que se assume única e verdadeira.

O rumo é agora a jarra de nenúfares sobre a mesa
e um mar espelhando luas
fertilizando sóis.

Há uma linha verde que te acena e te segreda quem és
a energia que te aquece
o que te faz partir
as sementes que tens
para lembrar.

 Moldas no teu gesto o movimento certo
em que te permites dizer o que te trouxe
até aqui
e onde eternizar as marés do teu olhar.

Longo é o caminho
longo.

Envolvo-me nas tuas cores
sigo o teu caminhar
corro a teu lado
pássaro
vento
borboleta azul
canção de embalar.

E o rio flutua
suspenso da liquidez da voz
que às vezes foge
às vezes voa.

Nele vagueiam silêncios
entre as pedras polidas que refletem o verde do céu
e nomes de aves soletram a força das ausências.

Nele repousam as lembranças
que atravessam as margens e clareiam as sombras
para reunir a casa
e reconstruir o tempo.

Brígida Luz

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O tempo nada sabe de mim


Há uma ponte que me atravessa
uma cidade debruçada sobre o rio
a chamar-me
de dentro das manhãs
onde guardo o tempo.

De nada me serve
correr por entre as nuvens
encerrar todas as dúvidas
e temores
numa lua cheia de olhares de outrora.

O tempo nada sabe de mim
desconhece que eu sou
um silêncio anónimo
a vencer-me neste lado do mar
enquanto a cidade canta
num bailado de luz
escreve a história em paredes subterrâneas
esquece as horas
apaga o tempo
e recolhe nos lábios
as chuvas que caem dos dias
em sussurros de águas memoriais.

Brígida Luz

domingo, 5 de agosto de 2012

Plano inclinado



Passa por mim uma brisa fria
na beira do fim

e eu deixo-me ficar.

Desconcentram-se as sílabas ditas
param até de inspirar

e eu deixo-me ficar
só.

Escorre o mundo
pela planta dos meus pés
desnuda-me a desimportância das coisas

e eu deixo-me ficar.

Fecham-se os olhos
secos
porque secaram todas as gotas
da água que circulava em mim.

A  pele move-se
desliza
como se quisesse transcender
os limites da memória
em que a obrigo a viver.

E eu
deixo-me ficar

no silêncio
do filamento quebrado

dos grãos de areia
onde enterro os dedos.

Escrevo na terra palavras sós
e sinto o ar a  passar entre as unhas
e a minha liberdade.

Pode ser que em cada nova letra
a história comece de novo
a respirar.

E eu consiga então

não me deixar ficar

só.

Brígida Luz