sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Quando a voz é um sopro



Afinal
nada há a retomar. Tudo
ficou envolto em pretéritos agonizando

numa folha de poentes.

Perderam-se os aromas frutados
os recursos espirituosos
e a mesa cobriu-se de migalhas

que os passarinhos rejeitam.

Todas as coisas trocaram de lugar
e o sentido delas

[ das coisas ]

debate-se num rodopio
de círculos concêntricos para
não se perder de si próprio.

E entre.tanto
existe a voz. Uma vozinha vítrea
espartilhada
entre reticências e interjeições

incapaz de grave sonoridade
em que afirme a (in)flexão
do presente.

Brígida Luz
15.09.17

Yann Tiersen


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Uma aragem difusa



Os dias a sucederem-se roídos
por buracos insaciáveis
que morrem no papel. Em palavras
que descem em silêncio
companheiras da noite.
Há uma sombra fria na página
talvez o que sobra de um abrigo ou de uma melodia
que entardeceu.

Parecia-me que tínhamos ainda
tanto para nos dizermos sobre o ardor de um voo
ou o grito das memórias. Pergunto-me
_ o que nos traiu? _
Olho os dias que nunca chegarão

e um arrepio surge e apaga o sol
de setembro

nesta mediocridade de linhas dispersas
sobre os gestos do tempo.

Brígida Luz
14.09.17

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sufjan Stevens


Desnorte

Nem tanto uma noite de encanto
e de espanto.
Há gestos feridos
evitáveis
que rasgam os movimentos e espalham os ventos.
Ressoa ainda uma aparência mordaz
a simulação
incapaz de outra rota possível.
Há a mutilação da palavra
ruídos de sentidos
que as aspas não abrem nem fecham.
A bússola desfeita no ar
sem rumo
e a chuva incendeia conversas
sobre telhados de vidro.
Sinais de dor
maior e menor
vibram ocultos
desnorte
em delírios de morte
antecipada.


Brígida Luz

domingo, 10 de setembro de 2017

Tela de silêncios


Mergulho as mãos nos silêncios do tempo
e em palavras não ditas
reinvento o sentido invisível dos dias
que me olham nos olhos deformados
sem lágrimas de alma aquecida
nem manhãs de sonhos acordados.

Os instantes já não voltam a ser meus
calaram-se nas vozes de outros
afasto-me da minha pele
ao som trémulo de violinos mudos.

Chegou sem aviso a noite escura
uivos da Lua
gélidos momentos
tombados na tela translúcida de sobrepostas figuras
vermelha loucura de aniquilar o vazio
de um olhar desgrenhado.


Brígida Luz
19.06.10




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Fado ( zinh@ )

Peço um pouco de mim mesma
inda que sem nome seja
algures
tardiamente
mas inteira
vertical
para que o tempo me veja.

É este o tempo que peço.
Tempo sem forma
mas cor
que saiba suportar a dor
e em si mesmo não se perca.

Peço um lugar pequenino
onde não caiba o vazio
ao alcance da saudade
qu', ai de mim, é a verdade
desta vida em desatino.

Brígida Luz
06.09.17

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Percursos

Não são poucas as vezes
em que atravesso as tardes do meu jardim,
_refúgio de ventos e de labirintos_
à procura de respostas.
Nem sempre as encontro.
Aclaro as águas, desteço
fios de lodo, limpo as pedras,
uma por uma. Construo pontes,
dentro de mim.
À procura de respostas. Mas,
nem sempre as encontro.
Então,
colho uma rosa,
_removo uns espinhos_
e coloco-a, harmoniosamente,
na jarra da entrada.

E encho a casa de luz.




Brígida Luz