quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

No bom tempo das palavras


Um dia dissipar-se-á dos teus olhos
esse vento impaciente
que passa por ti num sopro indecifrável
de cidades vazias.
Descerá sobre os escombros
o bom tempo das palavras
a proteger as memórias
que merecem viver.
Na tua pele há de entranhar-se
o gesto antigo
a transpor as ranhuras do silêncio
a respirar uma estrada de linho
na raiz da manhã.

Brígida Luz

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Ao longe, ainda




E quando as palavras adormecem
na habituação dos dedos
há vozes antigas a alimentarem
a árvore que o coração celebra.
São frágeis as horas.
Mas quantas vezes um olhar
a crepitar de luz não faz estremecer
o silêncio da casa?
Talvez na linha d’água dos pássaros
a metamorfose do verso aconteça.

Brígida Luz

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Singularidades


Há sempre a reinvenção do silêncio
o código-morse do olhar.


É quando a noite vem descendo
e tu estás por dentro da luz
como se do retorno do tempo se tratasse.


Uma a uma
colhemos as cores mágicas da palavra
e apercebemo-nos de como
deslizam na memória
os mistérios das águas sonhadas.


Tocamos a pele macia dos regressos
a serenar indecisões
a proteger o prodígio da mariposa.


Que podemos nós

se temos nas mãos o vento a desfazer-se
ao longe
na sintonia das árvores


se temos no mar
o desabrochar da cor
a gritar um céu p’ra nós?


Que podemos nós?

Brígida Luz

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

No teu rosto, pela manhã


… a sílaba
encastrada na insónia
densa imprecisão do pensamento
fragmentação
das horas


no teu rosto
pela manhã
um sulco de água nua
a alongar-se
num coração de utopia


ainda a chama
na sede das tuas mãos
e a luz
no soluço do teu olhar


é por isso
talvez
que tentamos travar o tempo
na desconstrução de um
ruído de sal
em que (de)compões
o teu livro de silêncios.



Brígida Luz