domingo, 30 de setembro de 2012

Traços


O lamento das águas
no silêncio dos olhos


[ veludo e aço ]

a imobilidade da tela a recolher
nos dedos as grades dos dias
a opacidade do pensamento.


Caem na terra palavras insuficientes
negras gotas de orvalho
nuvens de mágoas
indecisos laços
despedida.


Folhas breves
imprecisos passos


[ veludo e aço ]

ao lado do vento.

Assim o chão
a luz parda a escorrer na superfície
das horas
solidão do tempo


sombras

traços.

Brígida Luz

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

... e o cais espera


Os pássaros cantam a terra fresca
gritam na alma os tesouros
de um raio de sol
estendido no tempo que aguarda
a música e a luz
de uma espiral por saciar.


As árvores vacilam uma ou outra vez
e o jardim suspira cansado
por não se clarear.


A borboleta brilha
o silêncio pondera
o vento partilha um calafrio


... e o cais espera...

... ou já caiu?

E o rio?

E o rio?

Brígida Luz

sábado, 22 de setembro de 2012

E de novo


E de novo a arquitetura
inconcreta dos dias
sob o silêncio pálido e rasteiro
das folhas mortas.

A passagem do tempo
a pressentir turbulência
a desenhar espaços neutros
improvisos
águas vencidas de um rio
sem porto ou foz.

Dou por mim
invisível e diminuta
estátua de vidro partido
em sobressalto
atravessando palavras sem morada
aves mudas
aves mudas
na orla do beijo e da lágrima.

Brígida Luz

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Certas noites



Certas vezes as noites são sorrisos
e as palavras simetrias
fluidez de imagens


oceanos de luz exalando madrugadas.

São vozes de folhas calmas
frescas e orvalhadas


indizível claridade

folguedos de luar e de pele
calor de setembro
a perfumar vinhedos.


Certas noites são silêncios
versos e bruma


redemoinhos de nadas

ausências esculpidas em fios de memórias

margens do tempo
através do tempo

a preto e branco

o tempo.

Brígida Luz

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A utopia dos incrédulos



Estamos sós
sobre as águas em alvoroço
ocultos no silêncio das esperas
pássaros sem nomes
abismos debruçados dos olhos
sem princípio ou fim.

Arrastamos manhãs
deslembramos rumos
atados a restos de galhos secos
como vagas sem céus iluminados
nem ventos a soprar de sul.

O tempo alonga-se
num mar empedrado
de esquecimentos
as palavras doridas
a soletrarem ninhos vazios
no lado de dentro
da utopia dos incrédulos.

Brígida Luz

domingo, 9 de setembro de 2012

Estações



Não sei onde começa não sei onde se acaba
a rua onde me ajeito. Sei os pássaros
que entreabrem as janelas
e o cansaço do silêncio que ateia o fim da tarde
na cal das fachadas.

Dobro as estações para além
de horas impalpáveis
cruzo muros e sombras alagadas
transponho os limites de um oceano
a que não pertenço.

Corro corro corro
não sei o fim da rua onde me aceito
e sou ontem
vento
rio
asas
de ontem
dentro do teu peito.

Brígida Luz




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Por dentro



Esquecer ou não
a exaustão das partidas
os lamentos
os ciclos vacilantes
as entrelinhas
em tudo
e tanto.

Esquecer ou não
a tarde caída
a poente
as lágrimas negras
os cacos no chão
o gelo
por dentro das mãos.

Esquecer ou não
o silêncio diluído
o seu avesso suspenso
a linguagem do vento
por dentro
os lagos nos olhos
imensos
a cor molhada do tempo
a vastidão das esperas.

Brígida Luz

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Linguagem desfocada de um fio de água



Ontem, pintava telas
em poemas de linho

dedilhava sílabas como quem poisa
num beijo de borboleta

acendia violinos
sobre o cansaço das pedras.

Na chama do espelho
aquele fio de água clara
a viajar na alma

o vento da eternidade
a olhar para além de mim.

Hoje, o caos
no odor a terra queimada

o sol a sangrar silêncios
nos murmúrios da noite

a pedra a sobreviver

com os pés descalços
pelos caminhos secos

de um destino nu.

Brígida Luz

sábado, 1 de setembro de 2012

Êxtase



Os navios partiram
e ainda assim
as gaivotas continuam a voar
dentro dos meus olhos. Há mar
há muito mar
e eu ainda não me perdi.

Encosto ao silêncio
a minha pele de sol
segredam-me os búzios
que ainda não é o fim.

A inquietude é apenas uma brisa
a desfazer-se
nos últimos fios do entardecer.

Os olhos pintam de dias claros
o horizonte
e as palavras abrem-se
luminosas
por entre a harmonia das nuvens
na esperança de que uma gota de chuva me venha buscar.

Brígida Luz