domingo, 29 de dezembro de 2013

A filigrana dos sonhos


Foto de Vuk Adzic

Penso em ti
à distância da voz
cíclica construção de azuis
aroma perfeito
a inventar promessas
inocentemente sufocadas
por dentro das veias.
Atravesso
a misteriosa filigrana
dos sonhos e apercebo-me
da luz a demandar
infinitos fugidios.
Dir-te-ei dos pássaros indomáveis
moldados nas lembranças.
Escrevo no olhar
ausências e regressos
e, em silêncio, retomo
o invisível gesto de amadurar o tempo
que me nasce dos dedos.

Brígida Luz

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Na lucidez dos ciclos


Imagem Google


Podemos romper paredes
trazer para dentro de casa
um rosto pele de musgo
sob a folhagem de um tempo ambíguo.

Esfregamos as pálpebras
a diluir nas nuvens
o que, na lucidez dos ciclos, poderia ter sido.

Não sei se nas paredes
se desdobram os ecos
ou ponteiros de relógios invisíveis.

As árvores dançam ao fundo da noite
e nem o doce brilho de dezembro
confunde a solidão que as habita.

Brígida Luz

domingo, 8 de dezembro de 2013

... e a palavra nasce


Foto de Marián Uhrín


Antever a luz
na arquitetura dos dias.

Despir as sombras, o vácuo
que adormece as veias

para atravessar o pólen extasiado
da manhã.

Ousar na pele
o toque dos pássaros

um bater de asas

a encostar o tempo
à serena cumplicidade do silêncio.

Consentir o corpo de luz
onde
leve
a palavra nasce

como seara de seda
na voz _talvez_ embaciada do olhar.

Brígida Luz

domingo, 24 de novembro de 2013

Página em branco




Sobra-lhe uma página em branco e não consegue lembrar-se de alguma vez ter tido, na infância, uma festa de Natal. Tivera, vagamente, uma festa de aniversário, na adolescência, aí pelos treze anos. Vagamente. Vultos, imagens que se perdem por entre espaços da memória, rápidas, traços de faróis a riscarem a noite do tempo.
Uma lâmpada suspensa no teto de madeira projetava uma luz amarelada sobre o tampo de mármore onde a mãe rendilhava a massa dos coscorões. Em cima de um banco, um alguidar com a massa das filhós. Já lhe tinham acrescentado o copo de aguardente, lembra-se desse pormenor, porque na tristeza aveludada dos seus olhos estendia-se uma confusa e vasta margem inclinada a pormenores. Mas não fazia perguntas, raramente estes preparativos lhe despertavam interesse ou curiosidade.
Com a última porção de massa, via a mãe recortar a “boneca”. Depois de frita, terminava a “consoada”, na noite de Natal.
Sobra-lhe uma página em branco. E o tempo parado, dentro da tristeza aveludada dos seus olhos. Retratos, rituais que poderão ter-se repetido, ano após ano, no meio do cheiro a fritos, debaixo daquela luz amarelada. E o silêncio, feito de tempo e de nomes, dentro dos olhos da mãe.
Depois, as doze badaladas, o sino a enrolar os corpos entranhados de dezembro. Os xailes pelas costas, um ou outro casaco, “a missa do galo”. Era já meia-noite, de uma noite de Natal que não refletia o brilho de luzes no silêncio dos rostos nem nos corpos dobrados, depois da canseira de mais um dia de trabalho árduo.
Sobra-lhe uma página em branco. E não consegue lembrar-se de alguma vez se terem sentado à mesa, em família, para uma ceia de Natal. O dia tinha-se movimentado à volta de muito trabalho, e não havia horas certas para comer. Ia-se comendo o que havia, conforme se podia.
Às vezes, adormecia nas escadas. Ligavam um patamar interior à mercearia, onde os pais atendiam os trabalhadores que arrastavam, nas botas enlameadas, os últimos raios de um sol que se punha, por detrás dos campos de cultivo de onde regressavam. Sentava-se no primeiro degrau, rente ao chão da loja e apoiava a cabeça nos braços em almofada, dois degraus acima. Assim adormecia. Só acordava, quando a mãe a chamava, para irem para a cozinha. O ritual dos fritos, na chaminé, dentro do silêncio preenchido pela luz amarelada. E o silêncio, feito de tempo e de nomes, dentro dos olhos da mãe.
Os xailes pelas costas. Os xailes cor-de-muitos-invernos-que-passaram e de todos os sonhos que a cor dos tempos fizera baixar os olhos para o chão. A missa. E depois, havia café. A água ainda a ferver que a mãe deitava em cima das filhós e dos coscorões. Saíam amolecidos, deliciosos, com o açúcar qua a mãe lhes espalhava por cima. Comiam-se os fritos e bebia-se café.
O tempo a deslizar, no lado em festa da memória.
Era já tarde, afinal, compreende-o agora, quando punham os sapatinhos na chaminé. E iam-se deitar.
De todos esses anos de sapatinho na chaminé, lembra-se de uma “prenda no sapatinho” que jamais algum tempo apagará. O véu azul. Aquele véu azul que, a partir desse Natal, passou a ser a estrela que a guiava à missa, todos os santos domingos. Entre tantos véus pretos, entre tantos véus brancos, aquele véu azul-céu era a melhor festa de Natal que o amor do Menino Jesus alguma vez lhe deixara no sapatinho.
O tempo a deslizar, no lado em festa da memória.

Brígida Luz

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Como se fogo breve



Como se fogo breve

um poente
sobre a água

ou o brilho leve
da palavra

arde o silêncio

muro
ou ilha

no céu limpo

da melancolia.

Brígida Luz

sábado, 16 de novembro de 2013

Irreversivelmente

1xcom photos - Foto de Marina Gondra
Deixar então os olhos quebrados
num tempo em que permaneço
como um rio que em si mesmo se reflete
ou um perfil balouçando nas páginas
intemporais da memória.

Aceitar os aromas e os sons líquidos
de pétalas ou ilusão
gavetas entreabertas
purificadas p’lo regaço pleno
do silêncio.

Respirar o irreconhecível
responder ao apelo de um tempo sem contagem decrescente
a fluir para além dos limites
das imagens que me tardam.

Partir
com o gesto circular de um adeus
ao caminho por onde
a cada instante
irreversivelmente regresso.

Brígida Luz

[...]

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

No coração do silêncio



Partilhamos solidões. Saímos
pela neblina das manhãs
na memória dos rumos
que nos transportam ao coração do silêncio.

Entrelaçamos cidades

sentados na orla das imagens
que atravessam as raízes do ventre da casa.

Como se dobássemos o fio do tempo

para alimento das palavras
que enchem os olhos de verdade

quando sopros de saudade se encontram
face a face

por dentro.

Cercamo-nos da luz desprevenida
dos poentes

com os olhos a rasgarem
a convulsão dos longes

em que outubro vai gotejando.

Brígida Luz

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Pelos dias que passam



Ainda que longe
dizes-me por dentro as árvores
que são as tuas. A chuva triste

ou o silêncio que transportas
nas tuas mãos cansadas

quando os olhos te seguram as estrelas
dia após dia

e o vento traz a noite

ou searas improváveis

por onde se perde
longe

tão longe

o tempo da casa.

Brígida Luz

Pelos dias que passam



Ainda que longe
dizes-me por dentro as árvores
que são as tuas. A chuva triste

ou o silêncio que transportas
nas tuas mãos cansadas

quando os olhos te seguram as estrelas
dia após dia

e o vento traz a noite

ou searas improváveis

por onde se perde
longe

tão longe

o tempo da casa.

Brígida Luz

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Enquanto o sol não vem

Foto de Gao dongyang - "Morning"



E deixo a obliquidade das horas
entranhada em palavras sonhadas

para me subentender na circunscrição
dos espaços.

Passeio o olhar pelas coisas inexplicáveis
a envelhecerem no lado mais obtuso do silêncio

enquanto vejo janelas indefesas a tombarem

condicionadas pelas cinzas dos significados
irreversivelmente adiados.

Porque na queda desnuda do rosto
imprescindível de ti o gesto

a suster a voz do tempo despojado.

Brígida Luz

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Perfis de setembro

Foto de Radu Voinea
No olhos, uma trajetória
ainda inclinada ao prolongamento da cor. Um lugar
abrigado no eixo dos pássaros, onde palavras ociosas
respiram os rituais das árvores
e transportam nos dedos a geografia de um cais.

Chegam, em linha reta, os novos perfis
de setembro, como línguas de vento
a anunciarem os primeiros contrastes
dos regressos.

Conheço a oscilação da luz e sei
que é inevitável adiar a limpidez do silêncio.
Irremediavelmente renovar as tintas disponíveis
e os gestos desdobráveis

sobre o equilíbrio volátil
de um tempo exilado
na periferia das primeiras águas.

Brígida Luz

sábado, 14 de setembro de 2013

Para lá do olhar




Como se pudéssemos colocar
na mão do pintor
o halo de luz
e a paleta de cores
com que entramos oceano adentro

e na memória de uma flor
lhe inventássemos o olhar.

Para que não fosse
demasiado tarde
para segurar as pedras
dos rios que correm.

Brígida Luz




domingo, 1 de setembro de 2013

Saudade




Caminho repartida
por entre longes e metamorfoses do tempo. Envelhecendo
pólen e certezas
ecos das brisas que me sobram
de uma janela que cresceu
voltada para sul.

Desenho nas paredes
os rostos e os fascínios
por onde passa o coração da casa

ou talvez apenas
os sinais prometidos
do gesto circular dos regressos.

No calendário das solidões
o voo migrante das primeiras folhas.

Sigilosamente interrogo o verde breve de setembro.

Raízes de ausências
lugares de ruas desabitadas

retornam vazias
as minhas mãos.

Brígida Luz

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Semeador de infinitos



Deixa-me chegar perto.
Reinventar palavras antigas
e assumi-las
na primeira voz da manhã.

Magoada
talvez
cansada do silêncio do olhar
ou de um espaço inajustável
à epiderme da luz.

Tão frágil
a vida.
Um rio suspenso sobre a tela
a antecipar os braços fortes
do pintor.

Deixa-me pronunciar a cor
sem sobressalto
e deslizar um tempo vigilante
por dentro da raiz inicial.

Semeador de infinitos
poderás invocar o traço original.

Nascente e foz da utopia
movimento da voz
a crescer sobre as paredes da memória.

A aceitar o secreto e imperecível apelo da casa.

Brígida Luz

sábado, 24 de agosto de 2013

Estiagem


Lembrar-me-ei de ti
como um azul vagabundo

como a súbita aragem
que transitória passa
sobre a estiagem das coisas.

Tão ilusório
e belo
como o íntimo refluir
da primeira palavra de amor

ou a mútua cumplicidade
de um silêncio.

Brígida Luz

domingo, 18 de agosto de 2013

A metamorfose do fogo



Há um lado arrastado
hoje.
Molda a linguagem do sorriso
risca o azul de um céu
ocupado pela informe passagem da Lua
corpo inexplicável de ausências e memórias.

E os melros. Testemunhas da tarde a arrumarem o tempo.

E a dizerem-me de ti.

[ em teus olhos
de silêncio
a inocência
de palavras inequívocas ]

P’ra lá dos girassóis
a suspensão da luz
na imóvel floração dos aloendros.

E a vastidão da cal.
A metamorfose do fogo

na branca ondulação das borboletas.

A dizerem-me de ti.

[ aqui
entre a lenta desconstrução das horas
e a (in)quieta reconstrução dos dias ]

Brígida Luz

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Serenamente, o silêncio



Passeio os dias
a curar a acidez dos espelhos. Palavras de água
abrigam sombras transitórias e são
talvez
à vez
degraus de espuma
ou estalidos do tempo.

Crepúsculos de adolescência cantam
a pele do vento
em longínquos horizontes de mar.

Há ilhas de agosto
a soprar a solidão da pedra
em olhos repletos de verdes conformados

a preparar a linguagem da casa
para a jornada seguinte.

Depois
serenamente

o silêncio.

Brígida Luz

sábado, 3 de agosto de 2013

Sabor a mar



Aceito todas as dúvidas que me atravessam
nos nomes concretos que me prendem às manhãs.

Quase sempre antecipo um anel de sol
a evitar a migração dos pássaros.

Adentro-me pelas marés
e deixo-me alcançar pela espuma do tempo
a arrastar-me para longe das escarpas.

Recordo os vagalumes que refulgiam das areias
o silêncio das águas que nos tinham
a sede inesgotável onde cabíamos.

Quem mutilou o ondular do vento
as palavras da noite em inconfessos movimentos de linho?

Admiro as árvores que aceitam vestir-se de outono;
conjugam o amor e sabem a.mar em todas as estações.

Brígida Luz

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Enquanto não voltares



Despeço-me de ti e fico
a ver-te, ao longe, quando partes.
Misturam-se as paredes de betão
e esbatem nos meus olhos
a plena nitidez dos movimentos.
Aceno laivos de saudade liquefeita
em sílabas vagarosas
e sopro-te um sorriso

[ simbiose de raízes e imagens afastadas ]

que flutuará no poema
enquanto não voltares.

Brígida Luz

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Retrovisor


Ajeito o espelho e deixo
que o tempo se desdobre em paisagens e destinos
até onde o olhar me sobra.

Dilui-se na lonjura o arvoredo
e é quase vã a esperança de encontrar
a margem da planura
onde
por esta altura
profundo e quente o silêncio cantaria.

Subtraio ao chão que piso o pensamento
e neste viajar entre espaços imprecisos
e pedaços de incertezas peregrinas
deslizo os dedos pela luz das madrugadas
ou memórias rendilhadas de charneca e neblinas.

Ajeito o espelho. O gesto é vagaroso e delicado
a consertar as horas
peça a peça
a descalçar o tempo
que recomeça.

E é neste pó de verão que
hoje
eu prossigo o meu percurso.

Brígida Luz

domingo, 28 de julho de 2013

Abandono


Hoje, cai uma chuva
miudinha.

Uma murrinha
teimosa e lenta.

E eu imagino
que poderia passar,
incólume,

[como quem foge a penosa imobilidade]

entre os silêncios
desta poalha

insensível e
cinzenta…

Tão visível
é a minha

invisibilidade.

Brígida Luz


sábado, 20 de julho de 2013

Monólogo



O branco da noite
a entornar-se na folha.
A projetar nas paredes
fagulhas da memória,
sombras exaustas,
tentativas de reler sentidos em crenças interrompidas.

Ardem-me nos olhos os lugares
onde as árvores sobrevivem.

Cola-se ao interior das mãos
um refúgio da solidão,
uma história de conchas improváveis.

E a página desdobra-se,
lentamente,
sobre nostalgias adormecidas
e diálogos que suspendi em frestas de esquecimentos
ou no descampado dos dias.

Volto-me então para a luz secreta
de um tempo que dorme no calendário do meu corpo
e engano outonos anacrónicos
no monólogo que me resta
no lado de dentro das palavras.

Brígida Luz


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Estes versos são o mar



Sem o prever
os olhos regressam ao silêncio das águas
avançam sobre a limpidez da manhã

como dedos a procurar a luz
ou um sopro de vida
a (re)vestir o verso.

Fecham os últimos caminhos de sombra
entregam-se como brisas

subitamente sol
e corpo
na pulsação do mar.

Porque estes versos são o mar. E há tanto mar
a poder ser grito, pássaro, flor
ou cor estridente.

Há tanto mar para ser navio
e sonhar o tempo.

Brígida Luz

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Às vezes, queres chorar...


Dentro dos teus olhos há um abrigo
onde o silêncio se desarruma

e nomes, nomes antigos
em busca do prolongamento
das tuas mãos.

Ainda não sabes enumerar
os horizontes onde resistes
à erosão do vento seco.

E resistes. Aos braços inteiros
onde o sangue estremece

ao lugar à mesa em que o domingo
cresce e abre a janela

e deixa rolar o verão
ou respirarem as borboletas.

Assim vives. Assim escolhes
essa luz vagarosa

voltada para dentro das pálpebras.
Às vezes queres chorar
mas os lábios não deixam

esquecidos das texturas invisíveis
e inexplicáveis

de onde irrompem os lugares
e as memórias a que pertencemos.

E por onde silenciosamente caminhamos.

Brígida Luz


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Rasuras



Rasurando desalinhos. Ferrugens
estéreis
na linguagem intransponível
dos olhos. A mente
em fuga
no atropelo do corpo.

Poeiras de desmemórias
ou encriptação dos afetos?

Na inconformidade dos dedos
reescrevo as horas permeáveis
à proximidade da pele. Como se não
se tivesse esgotado
um tempo que aconteceu. Livre.
E imensurável. Desconstrutor de margens
dentro de nós.

Entre os destroços, decerto
encontrarei um abrigo remendado de palavras.

Brígida Luz

quarta-feira, 10 de julho de 2013

in memoriam




                       [Mãe, cada palavra que me ensinaste repete mil vezes o teu nome.]*

                           *José Luís Peixoto.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Maquinal_mente


Dói-me a inocência da pele, atravessada
por um beijo na face,
como se fosse o toque frio
de um inverno que se prolongasse
para lá do tempo ruidoso do silêncio,

um traço igual a qualquer beijo na face
num gesto amorfo de ninguém.

Gostava de ter ainda o sorriso onde se dissolviam paradoxos
ou espaços embaciados de sal. Onde
a transparência dos olhos nomeava a intimidade
dos rostos

e a pura articulação da voz permanecia
até onde se lançavam as nossas mãos.

Brígida Luz

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A aposta



Este gesto de estender os ramos
e afundá-los nas palavras. De, em versos, esculpir
entendimentos e recomeços,
de mil vezes apostar na pedra
e persistir mil vezes, sob
os escombros em queda.


Este gesto de sair do tempo,
ou esvaziar espelhos previsíveis. De invocar
imagens antigas, à superfície
dos lábios
e grafitar manhãs em sons de pássaros,
para te oferecer.


Brígida Luz

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Luz




Escrever a luz que eu
sou em cada flor
em cada pedra


ou gota de água.

Ou na quietude
da magnólia
a sussurrar-me p’ra dentro
um aroma branco
acetinado


serenado de entendimentos.

Eu poderia ser
essa magnólia
esta manhã. Porque esta manhã
não há vento
nem nuvens


e é verde-luz
o silêncio
esculpido nos ramos das árvores.


Brígida Luz

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Da habitabilidade dos corpos



Acredito que a palavra existe,
para lá da imobilidade do olhar,
nos momentos em que a tua voz desliza,
branda e quente, a entranhar-se
na sede das mãos. Ouço-a
e acorda-me o tempo, por baixo da pele,
num amálgama de cinzas luminosas.
Diria que, nos teus dias
de esquecimento, transportas somente
uma parte de ti e que nas veias
te cresce ainda
a árvore das boas memórias.  Porque
a carne segue raízes de sangue
e de lágrimas
e a luz brota de dentro, a refazer os corpos
em espaços habitáveis, ou a moldar
o gesto informe do silêncio.

Brígida Luz

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Intermitências



Anoitece
a folha onde escrevo,
sustentáculo de dias de água
e primaveras dissimuladas,
vazios ambíguos, preenchidos
por hipóteses
ou intuição.
Talvez um espaço,
num tempo de permeio,
antes do agasalho da memória. Quando a voz,
ainda rouca,
oscila entre a aproximação
do olhar
e o silêncio do gesto entrelaçado
da palavra.
Indistinta, no voo indecifrável
das imagens,
demoro o corpo na ramagem
liquefeita
e fico à espera. Hei de recolher a manhã
nas minhas mãos.

Brígida Luz

sábado, 8 de junho de 2013

Urgência




Esta manhã é uma claridade cinzenta. Talvez por isso
sejam cinzentas
ou mesmo invisíveis
as sílabas que sobram
da ausência da voz.


Nos olhos
um insondável cenário de argila
a urgência de um afago do tempo
com o sabor transparente das palavras.


Tudo quanto resta
são ecos exaustos das águas estáticas
de um mar desarticulado
onde reúnes a travessia do mundo
nessa densidade dispersa no centro de ti.


Mas p’ra lá das margens do corpo
existe ainda algum sol
entre o pousio das marés.


Na libertação do silêncio
quando as memórias tocarem as coisas simples
em que tu e eu éramos apenas nós os dois.


Brígida Luz

domingo, 2 de junho de 2013

A linguagem do sol




Nunca soube onde guardar o silêncio
que surge numa tarde vagarosa
em que o sol tem tantas palavras para dizer.


Palavras que entreabrem a janela da tarde
e deixam que o tempo atravesse a rua de água doce
onde os rostos se debruçam
e as vozes pronunciam os nomes
em que as memórias persistem.


Pouco sei das palavras do sol. Pouco sei.

Entrego as minhas mãos ao silêncio da tarde
inclinada sobre a folha em branco.


Olho-me agora no verde das árvores
num esforço vertical
para me reconhecer.


Pouco sei das palavras do sol. Pouco sei.

Brígida Luz

sábado, 1 de junho de 2013

Se eu chegar tarde à primavera



Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica a luz que resta
do inverno que dói
nas fendas da pele,


ou do vento
que geme ladainhas inexatas.


Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica
a chama da manhã no exílio dos pássaros,


ou então o silêncio profundo
da fusão das almas, na mortalidade
do tempo breve em que germina a sede
inútil e imprecisa, que antecede
o verão que há de chegar.


Brígida Luz

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Lamento



Eras o tempo em que guardei todas as chaves
dos segredos que nos sabiam dentro,
como quem entrega o chão e confia o corpo
à linha azul que dos teus olhos partia


e me era leito,
e rio,


de abrigo, o porto.

Mas quando a cor avermelhou a madrugada
e o sopro dos teus lábios tocou os meus cabelos,
de abril seria a flor que então murchou.


Ao arrepio do tempo,
a dor,
o lamento,


a utopia,
a raiz sonhada.


Brígida Luz

sábado, 25 de maio de 2013

A insubmissão do silêncio




Longe de tudo
a insubmissão do silêncio
o azul a escrever o espanto da alma
um grito profético de maré calma
em acordes de tarde faminta de vermelho.

Longe de tudo
o coração a escutar o avesso-barco do espelho
as palavras a traçarem um canto de espuma
a vertigem da luz na memória dos dedos
a calar o pranto das águas.

Brígida Luz

domingo, 19 de maio de 2013

Lá fora, é maio



Refém de um lado lunar,
que me prende os olhos na cal branca
da fachada centenária que desce a rua deserta,

cada passo que me leva
repisa os limites de uma folha morta,
enquanto as veias, desatinadas, explodem em gritos
de saudade e muros de melancolia
tanta.

E o céu, tão baixo, tão baixo,
a enregelar-me a pele, a circunscrever- me a visão
ao peso de tão infinitos nadas.

É domingo à tarde, num calendário afónico
e transido de medo, porque, lá fora,
é maio e a primavera canta.

Brígida Luz
19.05.13

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Decifração




Fazer destas paredes a folha em branco
dedos de árvores a pintarem um tempo nu
uma porta de entrada
um recomeço de vozes
ou de palavras


_sabe-se lá_

Fazer deste momento uma lentidão
a passar-me pelas horas
um céu suspenso na imensidão azulada
uma serena linguagem de mar
longínqua viagem de gaivotas


_ou o manto inocente do silêncio que me rodeia_

Brígida Luz

quarta-feira, 15 de maio de 2013

No lado suspenso da manhã



E é quando a memória às vezes é ruído,
fissura nos lugares onde
o corpo é voz, cintilação do verbo.


E é quando os olhos são idas da pele e
dos dias,
ausências sem regresso,
cicatriz subterrânea das esperas
sem mapa.


E é quando uma luz tranquila entreabre
a janela do quarto
e o audível silêncio alcança a viagem
do tempo
e permanece cor,
no lado suspenso da manhã.


Brígida Luz

terça-feira, 7 de maio de 2013

... ou o insustentável cansaço da palavra gasta




As águas desalinhadas
a correrem nos andrajos do tempo
que oscila
suspenso
encharcado
no desconforto das árvores.


A voz rouca do vento
a plantar mitos e luas
sob a melancolia da pedra.


A luz
dispersos fios de sol
em tarde árida
a arrastar um vazio de nada
para dentro do verso.


O silêncio da escrita
ou o insustentável cansaço
da palavra gasta
no inverno tão sem fim
das longas esperas.


Brígida Luz

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Espreitando a metamorfose dos dias


Confunde-me esta distância
entre as palavras, o desconforto dos olhos
quando os silêncios
caem no chão. É quase um mito desfeito
nas profundezas do espelho, um nó
no brilho dos girassóis.


Em boa verdade, ando por aqui,
os dedos entrelaçados na tua ausência,
suspensa de contornos de incertezas
ou de fascínios da imaginação.


Por isso, escrevo,
espreitando a metamorfose dos dias
a transfigurar os medos,
no lado invisível das horas.


Brígida Luz

domingo, 21 de abril de 2013

No sono das horas



Hoje, quero entender o ondular das tuas palavras,
sussurros impalpáveis da noite,
longa e indistinta,
em que abrigas o cântico da tua solidão.


Permaneço aqui, porque procuro
o entendimento,
por dentro do olhar do que não dizemos
e atravesso os limites da espessa cicatriz,
a projetar no verso o equilíbrio da luz.


Hoje, quero entender na crispação do teu rosto
os traços imprecisos da tua esmaecida liberdade,
a enganar a lágrima que te rasga na pele
as raízes da alma.


Hoje, vou ficando. Dissolvendo o tempo
em sílabas de lucidez,
de onde todos os meus passos regressam.


Brígida Luz

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Na obliquidade da noite



O silêncio poisa
confuso
no sobressalto
das aves. Ouço-lhe os gemidos
escuros e frios
entranhados na chuva
e no vento.


Demora-se
na obliquidade da noite
como se tivesse medo
de se render
por detrás da incerteza das palavras.


Desafia os espaços vazios
que os meus olhos projetam
nas paredes da sala


ou as sombras
que o meu corpo vai deixando
na melancolia do tempo.


Dentro de mim
o silêncio. Não sei se na íntima palidez do horizonte
ou no choro dormente
de um significado primordial
a deslizar-me por entre os dedos.


Brígida Luz

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sopro



Há um cansaço líquido a pesar
nos ramos das árvores. De dentro dos muros
uma voz de ave acena segredos
guardados nas pontas dos dedos.


Não sei se foi um sopro
pressentido por mero acaso
ou erro humano.


Talvez um vazio profundo
a passear rumores noturnos
ou apenas a vontade de estender
as mãos para além do corpo.


Ou um silêncio sem rosto
paradoxo de sílabas baloiçando memórias
a escrever o presente
num calendário qualquer.


Brígida Luz

sexta-feira, 29 de março de 2013

Hoje, somos um


Segues agora por dentro de um sonho de cal
a deslizar-te na pele, como a luz de uma
manhã de bem-me-queres
que fosse só tua.


Atravessa-te um tempo quase maduro
nascido de minúsculas flores que fixas,
uma a uma, num chão de palavras d’água,
murmúrios de silêncio e solidão.


Às vezes, somos dois, em olhares
de monossílabos ou cortantes arestas
de um plano desfocado onde enquadras
as lembranças.


Hoje, somos um, na infindável repetição
do take one de um filme rasgado pelo guião
em pedaços mil,
ou no retorno a um dimensão temporal
circular e inquebrável.


Brígida Luz

domingo, 24 de março de 2013

Da redefinição da luz


Divido-me entre ruas de esquecimento e portas
entreabertas ao voo peregrino
de aves tardias. Entre o nada e o nada.


Existe ainda dentro de mim
a verde geografia da palavra
a iludir o pousio das horas?
Ainda existe?


Poderia ser hoje o dia em que o tempo
se suspendesse na memória generosa
de um campo de trigo.


Preciso de um fio de letras, para decifrar o silêncio
de raízes soltas. Talvez a última tentativa
para a redefinição da luz.


Brígida Luz

sexta-feira, 15 de março de 2013

Chove



Às vezes deixo-me nascer,
por entre os pingos da chuva
e, sonâmbula,
sair estrada fora,
no choro solitário
da contagem decrescente do tempo.


Todo o corpo me dói e ainda não sei
como diluir os ecos das primeiras águas.


Ergo castelos de areia,
com as páginas de um livro em branco,
parecem abrir-se matizes de girassóis,
hinos a rasgarem o vento
e são dos meus olhos
as nuvens que habitam o deserto.


Transformo em coração de tília
um mar desalinhado
e saboreio o toque aveludado
da primeira floração de março,
nos degraus de um tempo a acontecer
muito longe daqui.


Brígida Luz

domingo, 10 de março de 2013

Por entre nomes eternos


O rumor das palavras a subsistir
nos pedaços do meu corpo circunscrito
à fala da terra. E o silêncio.
Tão fluido o silêncio desarrumado
entre elas
_as palavras_
sem que eu consiga ancorar uma réstia
de luz em fuga.


Por entre nomes eternos
escorrem texturas de ausência
um vento incandescente a soprar cheiros
e afetos
a linguagem do lume a esgotar-se
na lareira.


O rumor das palavras a reconstruir
o gesto
o recorte dos ramos nas memórias
roubadas ao tempo
como se o olhar fosse um sussurro breve
a deslizar por entre os dedos
na urgência de fazer ressoar em mim
a fragmentação dos cardos indecifráveis.


Brígida Luz

NA PELE DA TARDE OUTONAL*

quando se escreve
o silêncio faz doer as pontas dos dedos
e a cor dos olhos das mães
são as mesmas cores da terra em que nascemos e por isso choramos
quando nos lembramos de que estamos sós


sendo assim
quando o mais fácil arde dentro do corpo


a volúpia dos poetas
e o coração dos mesmos


somos nós que inevitavelmente procuramos
as sensações de conforto de outros tempos outonais


Rogério Cão


* outras palavras, noutros lugares

domingo, 3 de março de 2013

Na pele da tarde


A rua é agora uma canção
incendiada de memórias
uma alma a sangrar desassossegos
uma voz a despir o cansaço
das esperas.


De pedra em pedra levam os braços
a chama
erguem a lua cheia
de pássaros a procurarem o sul.


É tão difícil voar de árvore
em árvore na transição
dos ciclos
sair de dentro do corpo
na urgência de ser gesto ou movimento
gota de chuva
terra lavrada
e nada mais colher
do que um silêncio
a desfazer-se nas mãos.


Brígida Luz