quarta-feira, 28 de maio de 2014

Em que estrela repousará teu rosto?





 
 
Em que estrela repousará teu rosto?

Em que lugar dança a primavera?

Eu sou as flores que murcham

sobre a mesa, um nome quieto

à tua espera.

Procuro a tua voz no rodopio das árvores

e do vento caem nomes

e nuvens da infância. Preciso das tuas mãos puras

para descer a chuva

ou mover as pedras.



Convoco o esquecimento

para escrever os dias

em sílabas que resistem a raízes

presas à maceração da pele.



Talvez seja este o tempo de partir

ou de me dividir

em silêncios [ávidos de palavras].



Em que estrela repousará teu rosto?



Brígida Luz

sábado, 17 de maio de 2014

Degraus do tempo




 
 
Diante de nós
degraus intermináveis de um tempo
a que regressamos.
 
Com as mãos iludimos
a solidão das palavras que vêm de longe
pintamo-las de compromissos brancos
adivinhamos memórias e desertos
dentro do silêncio que se apodera de nós.
 
Perseguimos flores
na queimadura dos cardos.
 
Temos agora a bondade nos olhos
e ao fundo da verdade
penduramos uma tela:
_a fuga dos girassóis.
 
Procuramos abrigo dentro
do fogo de lágrimas irreprimíveis
esperando que delas
possamos sair inocentes
ou redimidos.
 
Brígida Luz

sábado, 10 de maio de 2014

No meu olhar de chuva




 
 
 
Na passagem do poema,

junto-me

às janelas abertas,

perto da harmonia das árvores

que, lá fora, olham o bulício dos pássaros

ou a claridade do céu.



Escrevo apenas as palavras da tarde,

lentas, quase paradas,

como o vento.



Por dentro da simplicidade

do silêncio,

penso em ti

como luz em fuga

e sei o teu rosto refletido

em espelhos

que nunca entenderei.



Porque, soube-o sempre,

inventei-te no meu olhar de chuva,

enquanto procurava o nascer do sol.



Brígida Luz

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Breve será o sal


Foto de Mariusz Warsinski


Tu ainda não o sabes, mas o teu olhar

às vezes

tem a vastidão do mar.



Vês ao longe o traço

onde o silêncio nasce



uma palavra azul

a flutuar na curva do horizonte



ou uma flor a abrir

a entrelaçar-se nos dias e a ser

primavera, em todas as estações.



Se seguires no tempo

a sintaxe da terra prometida

breve será o sal que atravessa a pele da resignação.


Leve será o vento

no coração da ilha.



Brígida luz