quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A Luz Fragmentada



Os olhos a falarem. Em ecos
de um verde quente
a lavarem o fundo das águas
a levarem o lodo
que decompõe
a estrada.
Nos lábios
a luz.
Em reflexos intermitentes
de visões não prescritas.
A luz
e os braços atados ao corpo
num movimento inerte
de almas presas.
A luz
e um silêncio sem norte
a habitar os corpos.
A luz
e as mãos a perderem de vista
os significados das palavras
dentro de um tempo em que
exangue
o silêncio chora.


Brígida Luz

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Os tempos e o verbo



Incontrolável
o desconforto das sílabas. Retraem-se
na ausência de lonjuras. Confundem-se
nos sinais desencontrados
dos tempos
e do verbo. Hesitam
entre urgências
de significados. Deslizam
entre essências de melancolia
e mãos a tropeçarem no musgo
do verso. Nem sei por que regressam
ao meu quieto
desassossego. A oscilarem
entre o grito
atado à memória
e aves
paradas no silêncio do gesto.

Brígida Luz

domingo, 14 de outubro de 2012

Promessas


Eis a bruma
longa e turva
habitável solidão das ruas
utopia desmontada
a escorregar-me dos dedos.

Eis a sílaba
raíz prometida
silêncio incompleto
um sopro de vida a desaparecer
dentro da palavra
adiada.

Eis o gesto
acabado de nascer
estranha escuridão envolta
em fogos fátuos
um corpo a dissolver-se
fragmentos de abstrações
num chão de acasos.

Brígida Luz

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O silêncio das árvores




Procuro-te
como se não houvesse medos
movo-me
entre ramos debruados por um tempo
que retenho
dentro de um lugar
sem tempo.

Desfaço-me
espiral de cinzas
pedaços que sobraram de um sonho
a arder
numa tela. A memória
a desenhar os rostos
a vida
suspensa
nos lábios do vento.

Caem sombras
a meus pés
desprende-se o grito
a desilusão
por detrás do espelho.

E no vazio que emerge
de um tempo incompleto
olho-me
decifro-te
na solidão do verso
a esmagar o mito.

E o rio a escorregar
exangue
em degraus de mármore
e o céu a ser invisível
a tombar
pôr do sol e mar
sobre o silêncio das árvores.

Brígida Luz

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Um dia serei talvez na chuva esse lugar


Não peças mais. A incerteza
apenas
do tempo suspenso das esperas
essa luz tangencial
farol das grandes viagens
oásis de utopias.


Estarei

[ mesmo não estando ]

atenta e vigilante
contando fios de espumas
por detrás da imensidão do mar
ou do verde-longe da planície.


Nos olhos
a memória
a luz virgem das palavras.


Nos lábios
o reencontro
o rio
a fazer-se instante.


[ sente somente o fluir das suas águas ]

Um dia
serei
talvez na chuva
esse lugar.


Brígida Luz

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ser o vento


À tua volta
a inquietação dos espaços em branco


e os teus olhos
frágeis
a desenharem passos
impalpáveis


na geografia azul de manhãs perfeitas.

O chão
dorido e gasto


[ a reclamar o sal
da tua pele ]


chora nos teus lábios
o silêncio das colheitas.


Sangras moinhos de vento

[ em gemidos de invernosa luz ]

e o tempo a resistir
às velas desfraldadas.


E todo o meu gesto
quebrado e lento
a raízes amarrado


[ porém, de culpa isento ]

à espera dos teus braços
em antigo movimento
a erguer-me das cinzas invisíveis
das palavras.


Brígida Luz