quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Re.conjugação

Ser um ponto anónimo
no lado de fora.
Sentir as mãos salgadas
à espera de uma nova ordem ou de um novo
tempo.

Transcender
o peso do silêncio
na germinação da luz que novembro
vai apagando.
Guardar os relógios e inventar sorrisos
onde embrulhar a realidade.
Fingir-me palavra a repousar no peito
no lado de dentro
recolher nos olhos a reciprocidade
dos olhares.

Um dia saberás.

Brígida Luz
22.11.17

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A filigrana dos sonhos



Penso em ti
à distância da voz
cíclica construção de azuis
aroma perfeito
a inventar promessas
inocentemente sufocadas
por dentro das veias.
Atravesso
a misteriosa filigrana
dos sonhos e apercebo-me
da luz a demandar
infinitos fugidios.
Dir-te-ei dos pássaros indomáveis
moldados nas lembranças.
Escrevo no olhar
ausências e regressos
e, em silêncio, retomo
o invisível gesto de amadurar o tempo
que me nasce dos dedos.

Brígida Luz

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A memória das palavras

Certos dias concentro-me num ponto final.
Início e fim da linha
onde a eternidade se anuncia.

Tudo é efémero e chão. Quase vão.
O sol queima o tempo em que a luz se move
e resiste aos lamentos da cidade.

As sombras antecipam a orla do futuro
e avisam-me do envelhecimento das respostas.

Certos dias anunciam janelas abandonadas
e eu sigo a memória das palavras
em que os silêncios persistem.

Brígida Luz
16.11.17

domingo, 8 de outubro de 2017

De ti sei agora muito pouco

De ti sei agora
muito pouco. Sei a tarde mansa
a rua ferida de ausência soluçada

e a minha mente presa
a horizontes de ternura.

Junto aos meus olhos
palavras arrastadas
perguntas por fazer e a distância
imutável da tua voz que

[ ao acaso ]

se quisesse entranhar pela raiz das coisas
que transitam entre o sangue e as memórias.

Sobrevivem os verbos que relembram
entendimentos ou a geografia da claridade. Pousam-me
no presente
vivem-me por dentro

e

por momentos
vestem-me de tempos

como quem me despe da saudade.

Brígida Luz
08.10.17

sábado, 7 de outubro de 2017

Na transparência das águas

Cinjo-me ao rio que flui
fundo e claro
pelos meandros da minha infância.

Regresso ao açude e às pedras
macias e lisas

como se fossem o tempo a deslizar
na transparência das águas.

E os ecos a flutuarem.

Na superfície líquida
as fantasias do primeiro amor.

Nesse tempo
todo o corpo podia ser composto
de silêncio. Nos olhos
nasciam horizontes limpos

e as vozes eram imaculadas
porque ainda não existiam manchas

no meu vocabulário.

E a minha verdade era toda aquela
em que os meus olhos largos
sabiam acreditar.

Brígida Luz
07.10.17

sábado, 30 de setembro de 2017

A palidez de um tempo irrecuperável


Acena-me de novo
aquele olhar que suspendi no tempo.

Nada me resgatará das palavras omissas
eu sei
hoje sei

de asas que envelhecem.

Mas deixa-me reajustar a palavra e reinventar
o tempo

deixa-me seguir o verso
ainda que seja um murmúrio de água que me pousa nas mãos

ou o nada que resta dentro dos nomes em que me desdobrei.

Sobro-me num corpo translúcido
perfil de árvore
a guardar silêncios debaixo da pele.

O tempo a ser

às vezes
uma luz fragmentada
frágil
por dentro do silêncio.


Recolho a flor
na cicatrização da luz
num mundo atravessado por portas fechadas
e espaços em branco.

E as sílabas a serem interrompidas no interior do olhar.

Irreversivelmente.



Brígida Luz
30.09.17

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Há coisas que não são assim mesmo

26.09.17 – 3ª feira

Estou muito triste. As coisas acontecem sem qualquer previsibilidade. Caem dentro de um dia de sol ou afundam-se em lama, ou lodo, descontroladamente. Nada assenta em sentimentos alicerçados, profundos, genuínos. Nada acontece assim, porque é mesmo assim. Agora pode ser a claridade e, num voltar de costas, tudo pode ser um dilúvio de frases impensáveis. Muito menos, pronunciáveis. Nunca sei onde está a verdade. Lembro-me de que foi sempre assim. Mas eu fui-me esquecendo de que foi sempre assim.
Estou muito triste, porque, hoje, ouvi frases impensáveis. Impronunciáveis. Especialmente uma frase. Que me causou vertigens. Que me nauseou. Porque sinto que esse pensamento não foi somente um sopro. De fora para dentro. Porque sinto que esse pensamento lhe inunda todas as veias, até o vomitar, sórdido, imundo, repugnante. As palavras caem no chão e abrem fendas irreparáveis. Existem coisas que não se podem consertar. Existem coisas demasiado degradadas. Em breve não passarão de escombros.
E tanto céu azul ficará sepultado sob os escombros!
Tenho tanto medo!

BL

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Quando a voz é um sopro



Afinal
nada há a retomar. Tudo
ficou envolto em pretéritos agonizando

numa folha de poentes.

Perderam-se os aromas frutados
os recursos espirituosos
e a mesa cobriu-se de migalhas

que os passarinhos rejeitam.

Todas as coisas trocaram de lugar
e o sentido delas

[ das coisas ]

debate-se num rodopio
de círculos concêntricos para
não se perder de si próprio.

E entre.tanto
existe a voz. Uma vozinha vítrea
espartilhada
entre reticências e interjeições

incapaz de grave sonoridade
em que afirme a (in)flexão
do presente.

Brígida Luz
15.09.17

Yann Tiersen


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Uma aragem difusa



Os dias a sucederem-se roídos
por buracos insaciáveis
que morrem no papel. Em palavras
que descem em silêncio
companheiras da noite.
Há uma sombra fria na página
talvez o que sobra de um abrigo ou de uma melodia
que entardeceu.

Parecia-me que tínhamos ainda
tanto para nos dizermos sobre o ardor de um voo
ou o grito das memórias. Pergunto-me
_ o que nos traiu? _
Olho os dias que nunca chegarão

e um arrepio surge e apaga o sol
de setembro

nesta mediocridade de linhas dispersas
sobre os gestos do tempo.

Brígida Luz
14.09.17

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sufjan Stevens


Desnorte

Nem tanto uma noite de encanto
e de espanto.
Há gestos feridos
evitáveis
que rasgam os movimentos e espalham os ventos.
Ressoa ainda uma aparência mordaz
a simulação
incapaz de outra rota possível.
Há a mutilação da palavra
ruídos de sentidos
que as aspas não abrem nem fecham.
A bússola desfeita no ar
sem rumo
e a chuva incendeia conversas
sobre telhados de vidro.
Sinais de dor
maior e menor
vibram ocultos
desnorte
em delírios de morte
antecipada.


Brígida Luz

domingo, 10 de setembro de 2017

Tela de silêncios


Mergulho as mãos nos silêncios do tempo
e em palavras não ditas
reinvento o sentido invisível dos dias
que me olham nos olhos deformados
sem lágrimas de alma aquecida
nem manhãs de sonhos acordados.

Os instantes já não voltam a ser meus
calaram-se nas vozes de outros
afasto-me da minha pele
ao som trémulo de violinos mudos.

Chegou sem aviso a noite escura
uivos da Lua
gélidos momentos
tombados na tela translúcida de sobrepostas figuras
vermelha loucura de aniquilar o vazio
de um olhar desgrenhado.


Brígida Luz
19.06.10




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Fado ( zinh@ )

Peço um pouco de mim mesma
inda que sem nome seja
algures
tardiamente
mas inteira
vertical
para que o tempo me veja.

É este o tempo que peço.
Tempo sem forma
mas cor
que saiba suportar a dor
e em si mesmo não se perca.

Peço um lugar pequenino
onde não caiba o vazio
ao alcance da saudade
qu', ai de mim, é a verdade
desta vida em desatino.

Brígida Luz
06.09.17

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Percursos

Não são poucas as vezes
em que atravesso as tardes do meu jardim,
_refúgio de ventos e de labirintos_
à procura de respostas.
Nem sempre as encontro.
Aclaro as águas, desteço
fios de lodo, limpo as pedras,
uma por uma. Construo pontes,
dentro de mim.
À procura de respostas. Mas,
nem sempre as encontro.
Então,
colho uma rosa,
_removo uns espinhos_
e coloco-a, harmoniosamente,
na jarra da entrada.

E encho a casa de luz.




Brígida Luz

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Desordenada.mente

Em boa verdade
eu não soube decifrar os signos
que me enviavas numa flor
ou numa pedra
ou num montículo de sementes

de onde destacavas aquela que
_ dizias_
talvez fosse minha
um dia.

Dizias-me palavras leves

[ às vezes lamentos de violinos ]

e os meus olhos despidos
a entrarem crédulos dentro do teu tempo.

O teu tempo.
Oculto num labirinto de fascínios e credos transitórios

cárcere de medos e silêncios
a estruturarem (des)afetos.

Sei agora de um equilíbrio volátil
consumido em marés vazias.

Quando deslizavas as mãos
pelas paredes comprimidas por uma imensidão
de verbos que te devoravam o passado

e te asfixiavam o futuro.

E tudo se atravessa nesta folha morta
nestes parágrafos
sedentos da intimidade de uma crença construída
em janelas viradas à claridade do Universo.

Este poema poderia ser uma prece.

Porque este poema é como um rio a fluir desordenadamente
é a fuga para além do olhar
para além do ruído que corrói os lugares
e os nomes
e a verdade do teu mundo intocável
onde o meu coração permanece.

Brígida Luz
30.08.17

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Sob o silêncio



Quando o reflexo sufoca
no interior das raízes

a palavra comprime-se
repele-se
emudecida pela opressiva desconstrução.

Não existe fala
nem espaço
a apagar a memória dos naufrágios.

Fixamos na pele um sussurro do mar
a metamorfosear o voo baixo dos pássaros.


Brígida Luz
24.08.17

sábado, 19 de agosto de 2017

Muito além de nós


Espero encontrar-te nalgum lugar
em que o tempo nos tome. Em que
nos tornemos parte dele e o que sobre
de nós sejam apenas poeiras

muito além de nós
redimidas por longínquas sementes esquecidas.

Mergulhámos os pés nas águas que corriam

[ lembras-te? ]

redemoinhos de luz eram os nossos
lugares e tempo.

Por que arrasámos as pontes?

Por que empurrámos o silêncio
contra paredes de gelo?

São de pedras e de cinzas
de pássaros e de vento
os caminhos da inocência.

BrígidaLuz
19.08.17

Bon Iver


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Philip Glass


A memória das árvores

Todos os meus dias regresso
ao arvoredo onde guardo as tuas mãos.

O tempo suspende-me os olhos
nos nomes que se esfumam perto
da linha noturna do entorpecimento
dos ossos

quando o sangue quer atravessar
todas as sílabas
de todas as palavras límpidas

e clarear a serenidade das vozes.

E a vastidão deste silêncio azul parece
estender os braços
à força mobilizadora das águas.

Não fora esta lonjura por dentro
das veias
e eu diria que

como se fossem um ínfimo
grão de pó

por entre os dedos me rolariam todas as pedras
atravessadas por sombras e imagens indecifráveis.

Brígida Luz
15.08.17

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Os rostos das palavras



Atropelo-me
no asfalto das palavras doridas
que colidem
sem nexo
à procura da minha lucidez.
Palavras em ruínas
a sobreviver na nitidez
da sépia
a transportar em si
cada aresta da vida
cada pedra arremessada da montanha
em busca de uma trajetória de luz.

Palavras sem voz
a caminhar em círculos
com rostos lá dentro
sonhos
emoção
histórias carregadas de pontos de interrogação.

Palavras que são essência
a procurar o tempo de olhar as gaivotas
a abraçar o vento
a inventar pássaros nas sombras do mar
e deixar o silêncio voar.

Brígida Luz
13.03.12

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Poema de vida inteira

Não há poema de vida inteira.

Há a meia-vida que falta


nas gotas de chuva que escorrem na vidraça

e a outra meia que sobra

nas bagas salgadas


que cristalizam na minha face


baça.



Brígida Luz
29.04.13

segunda-feira, 24 de julho de 2017

De sentido único


Dispersas a luz em movimentos
compassados.
Os lugares a ficarem progressivamente
irreconhecíveis
na descoordenação do olhar ou no
entorpecimento dos dedos.
Vozes anónimas apropriam-se
dos nomes e dos rostos que me decifravam
o azul magoado. Ou os soluços
da pele silenciosa.
Não sei como adormecer o frio
sobre os ombros.
Existe ainda um gesto
breve
nas horas finais de uma superfície
branca.
É talvez um apelo duvidoso do silêncio
dos braços
ou o poema vazio de uma última canção
proibida.

Brígida Luz
24.07.17

sábado, 22 de julho de 2017

Philip Glass


Entretanto florescem os girassóis


A instabilidade dos espaços a desdobrarem
falhas e desabamentos.

[ Versos inabitáveis corporizam
luz-memória a desvendar madrugadas. ]

Mãos cansadas aguardam um tempo de permeio
oculto num ponto de partida
onde o céu me sabia de cor e sonhava as flores da utopia
que tempestades secaram.

Nada sei do mundo
e aprendo com o sol as estações
que se renovam ou o movimento
das sombras que ascendem no horizonte.

Dentro do coração da palavra todas as
chaves serão minhas. O mundo
nasce lá fora alinhado no vento
das manhãs pintadas de fresco. O recomeço das cinzas
ou da viagem da alma
primeira guardiã do tempo.

Brígida Luz
22.07.17