domingo, 23 de abril de 2017

Pousio do tempo

No grito ou no silêncio
que vai da palavra ao assombro do instante

imensa a ondulação do tempo
sem ontem
sem amanhã

o tempo suspenso na fragmentação da luz
espaço inscrito no nada

ou nova linha de partida.

O silêncio
um traço

ou um espaço atemporal

e a sombra a procurar o grito
a entrar pela luz adentro.

Brígida Luz
23.04.17

sábado, 1 de abril de 2017

Degraus

Perdeu-se de vista quando
abandonou os olhos na direção
da sabedoria dos deuses.

À sua volta nomes estranhos
segredavam-lhe medos. E ela
concha e tempestade
revolvia as manhãs na ilusão da luz

enquanto estendia pontes
e aprendia a decifrar a linguagem
dos muros.

A alma a parar num tempo feito de alvoradas
que entravam
sem baterem à porta.

Deixava que as vozes se alongassem
quando as horas se pronunciavam mais densas.

Atónita e deslumbrada
sorveu de um só trago a inocência de maio

em intermitências de um azul envergonhado
e chuva miudinha

num dia inteiro vestido de cinzento carregado
em queda para a trovoada.

Vida sem dias melhores. Nem palavras a voarem andorinhas.


Brígida Luz
01.04.17

domingo, 19 de março de 2017

Março

Chegamos a um tempo curto que se alonga
em sentido inverso.
Tudo o que acontece parece
ter já acontecido

mesmo o que acontece pela primeira vez.
Os olhos a recuarem
assombrados com a voz de março
no ar que se respira. Amanhã anunciarão a flor

enquanto o poema se abre
na inocência dos pássaros.

Antes da mutilação da metáfora.

Brígida luz
18.03.17

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O que já não nos podemos dizer


Atravessar a praça
como quem atravessa um deserto
dentro de nós.

A habituação da voz a inclinar-se
para a foz das reminiscências.

Um livro pousado ao acaso
sobre a mesa

páginas em branco
reféns da mutabilidade das palavras
ou talvez da imobilidade das mãos.

Passaram séculos sobre nós.

Não sei hoje qual a cor
que prevalece nos teus olhos.

Sei a dor
que não esmorece nos meus.

Brígida Luz
14.02.17