quarta-feira, 21 de junho de 2017

Todos os dias



Um ponto sem retorno. A saudade
a chorar baixinho
e a mendigar pontes antigas
abandonadas por dentro dos lábios.

Um silêncio absurdo corre pelas águas
da insónia

e o tempo a mover-se
ávido de luz
e da proximidade das raízes.

Escreves a palavra
mãe
e dizes o indizível

na linha reta da sílaba.

Brígida Luz

terça-feira, 20 de junho de 2017

Dias assim e assim

Pintura de Bridget Tichenor



Dias assim e assim

Pronunciaste-te distância. Estabeleceste uma linha divisória irreversível. E eu nem sempre sei a que lado pertenço. Lembro-me daquelas plataformas de bom comportamento, de que ouvi falar em sessões de catequese. Numa idade em que ainda tinha uns olhos arregalados para o mundo. O céu, o limbo e o inferno. Não me parece que em momento algum haja espaço para mim num recanto do céu. Pelo que ouvi dizer. Nesses tempos de outrora e em tempos bem mais recentes. Estou mais próxima do inferno. Pequei por palavras, atos e omissões. Pelo que fiz. Pelo que não fiz. Às vezes, pelo próprio facto de existir. Pelo que _ te _ ouvi dizer. Ignorei o sonho. Distorci a realidade. Passei ao lado das minhas atribuições. Desvalorizei sinais. E este é um dos meus pecados mais graves. Que me atira para o inferno de quase todos os meus dias. Dias de fogo. E de água. Em dias de limbo. É quando se sucedem os pontos de interrogação. É quando os braços pendem ao longo do corpo. É quando os olhos se apertam e se fazem pequeninos, pequeninos e não conseguem avistar terra para cultivar. Mas existe uma linha comum a todos os meus dias. Terminam todos eles numa queda desamparada para o vazio.


BL

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A linguagem do sol


Nunca soube onde guardar o silêncio
que surge numa tarde vagarosa
em que o sol tem tantas palavras para dizer.


Palavras que entreabrem a janela da tarde
e deixam que o tempo atravesse a rua de água doce
onde os rostos se debruçam
e as vozes pronunciam os nomes
em que as memórias persistem.


Pouco sei das palavras do sol. Pouco sei.

Entrego as minhas mãos ao silêncio da tarde
inclinada sobre a folha em branco.


Olho-me agora no verde das árvores
num esforço vertical
para me reconhecer.


Pouco sei das palavras do sol. Pouco sei.

Brígida Luz

domingo, 18 de junho de 2017

domingo - 18.06.17

R.I.P.


sábado – 17.06.17

O sol ficou cinzento. E o uivo do vento ergueu em chamas o grito e o lamento. A pele da terra, cárcere de nomes e nomes, perdidos num horizonte de labaredas. Cinzas de morte e de dor a cobrirem um chão em fuga. Semeado de vultos. E de escuridão. E de silêncio. A névoa no interior das palavras. O pânico por dentro das vozes. O sangue a romper os olhares. E todos podemos tão pouco. E todos sentimos a insensatez da nossa “vã glória de mandar”. E todos sabemos do nosso lugar no cosmos. Infinitamente pequenino. Tão assustadoramente desimportante.


BL

sábado, 17 de junho de 2017

17.06.17 - sábado

17.06.17 – sábado

Sábado. O ar quente e baço, a arder, irrespirável. O corpo a dobrar-se para o interior do pensamento. A amizade. O ceticismo. A timidez. A atravessarem tempos e lugares. A descobrirem trilhos, raízes e folhas caídas. Mortas. Troncos secos, feridos. A dor no olhar, as cicatrizes nas mãos. Tantas asas brancas, tanto céu azul! E hoje. O tempo a arder, irrespirável. Tombo para dentro de mim. Palavras a preto e branco. A fluirem nos verdes dos prados. E os verdes a serem castanhos, nuns olhos de veludo triste. Voltar atrás... para quê? A rua é ausência. E o tempo é silêncio.

BL

bom fim de semana

Foto de BL

sexta-feira, 16 de junho de 2017

No branco que sobra

Pintura de Bridget Tichenor


Num emaranhado de cores escrever
um outono iluminado
a claridade
sem o peso do que foi dito.
Ser uma só fala
um sopro a alinhar a palavra
sem mãos salgadas.
Ser gesto urgente
folha
vento incandescente.
Ou talvez um pouco de tudo
rotação translação
força centrífuga
a vida
para além do corpo.
Num tempo improvável
recuperar texturas de ausência
nomes eternos
fragmentando cardos indecifrados.
Num movimento de asas
atravessar a fluidez do silêncio
ou a memória da luz.

No branco que sobra.

Brígida Luz
16.06.17

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Sombras de nós

Foto de BL



Quando a cidade se faz silêncio
e o olhar uma paisagem de outrora
as marcas exibem histórias
e
de súbito
sentimos que somos grito adormecido.

Ilusória cosmética em que nos abandonamos.

Brígida Luz

domingo, 11 de junho de 2017

Joan Baez


Voltar atrás...

Pintura de Bridget Tichenor



Fiapos de luz enclausurada
levam-me a uma infância de uniformes e
filas p'ra tudo
e p'ra nada.

De narizes pontiagudos
pendiam
vestes negras

e enquanto exibiam irónicos sorrisos
plantavam metamorfoses arbitrárias
que fugiam por corredores que conduziam
aos dois gumes da mesma faca.

Tinham o queijo
também
receitas forno e fogão.

Regiam compassos indecifráveis

e

foge foge foge
alguém gritava.

Mas eu caí.

Fiquei p'ra trás.

Brígida Luz
11.06.17

Desdobrável

Pintura de Bridget Bate Tichenor


Acumulo tempo em que não sou. “Temos de valorizar o que temos” _ dizem-me. Mas aquilo que tenho não é aquilo que sou. Não sou uma mulher de Fé. Não tenho à minha espera um paraíso recheado de compensações. Não. Tenho o aqui e o agora. Porque sou cada vez menos aquilo que sou. Desdobrável. Por fora. Lá dentro acumulo tempo. Sei da minha pequenez. Do meu lugar pequenino. Sei de um mundo maior. Sei de milhões de criaturas que não têm. Que não são. Sei do poderio dos donos do mundo. E dos seres pequeninos. Como eu. Às vezes, não passo de uma pequena ave que do ninho tombou. Sou a fragilidade do que não posso, do que não sei. Sou a desilusão do que me é retirado. Do que me faz dobrar mais e mais para dentro de mim. Onde acumulo tempo. E silêncio. E constelações de estrelas cadentes. Sei da fome. Sei da guerra. Sei do meu lugar pequenino. Onde acumulo o tempo. Em que não sou.

BL
11.06.17

Apontamentos

A um canto, a arrogância de um deus da obesidade, servido por um exército de peões, irrepreensivelmente submissos e fiéis.


BL
11.06.17

11.06.17




Acariciando o azul, o bailado de uma nuvem. Feita de plumas, pintadas de vento e de verão.

BL

sábado, 10 de junho de 2017

10.06.17 - sábado

Foto de BL
10-06.17 – sábado

Hoje, tudo o que eu precisava era de me sentir “filha”. Ser “filha”. Apenas. A saudade de ser “filha”. De ter a mãe e poder chamá-la. Saber que ao dizer “mãe”, ouviria uma resposta, que poderia ser somente uma sílaba. “Hum!” _ diria a minha mãe. E ela estava ali, comigo, perto de mim. E então eu poderia começar a minha ladainha de desabafos que são só para mães ouvirem, porque não existem outras pessoas que estejam preparadas para isso. Mãe é sangue, é carne viva. É alma, coração, é dor, é amor. Descobre-nos em cada hesitação da voz. Segura entre as dela a nossa mão, cuida de nós. Lê-nos o olhar. E dá-nos o colo, sem hesitar.
Há muitos anos que não sou filha. E “ser filha” era tudo aquilo de que eu hoje precisava.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Por favor

Peço à pessoa que copiou o meu texto  "O céu coberto de nuvens" que dele não se aproprie indevidamente.

Obrigada


BL

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Bob Dylan


O céu coberto de nuvens

Foto de Caras Ionut




Posso estender as mãos entre a ilusão

e a certeza daquilo que permanece. Conversar

com a mudez das horas



habilmente concertadas em círculos concêntricos

a prolongar o jogo das ilusões.



Procurar-te no lado de dentro

das palavras. E falar-te das

verdades irrecuperáveis



centradas nos desafios ou nos fascínios

que se foram.


Ou então regressar ao pólen



das coisas tangíveis

[ a roupa no varal a mesa posta ]

e nelas arredondar o tempo longo

às vezes triste



e com ele caminhar atenta às arestas

cortantes que vierem.





Brígida Luz
08.06.17

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O regresso do tempo


Voam no azul as aves brancas
recortando o tempo certo
atravessam do sonho as vestes
meia dúzia de palavras
aninhadas em ramos suspensos
das estrelas

essas que implodem o vazio dos ventos
arautos da boa nova
bússola dos harpejos da memória

o jardim é azul
a porta muito ampla
evoca sobre as tábuas o círculo do sol
explode na planura quente dos vinhedos

o céu ondula
é real o azul das águas na labareda dos olhos
desenhando o horizonte

é azul o sopro do vento
quando pressente o regresso do tempo.

Brígida Luz
18.09.10

domingo, 4 de junho de 2017

Que resiste

Foto de BL



É que metade de mim está a secar.
As veias,
os pulmões,
o coração.
O sangue mirra,
a alma seca.

É que metade de mim é ausência.
Um ramo que se foi soltando,
soltando,
até que quebrou.

E voou.
Partiu,
com a ventania do desencanto.

Ficou um silêncio espesso,
uma escuridão amarga,
que desaba dias de torrentes de chuva.
Ácida,
atravessada por uma lama escorregadia,
onde tropeça e se arrasta a outra metade de mim.

Que resiste.

BL

Eric Clapton


Pode ser...

Eric Clapton Unplugged”
e as palavras que escrevi há milhares de anos. Porque nada se alterou. As mesmas paredes a escorrerem vazios, as mesmas gavetas a bafiarem memórias. Não posso falar de amores-perfeitos nem de manhãs coroadas de sol, a acordarem nascentes de água límpida a saltar de pedrinha em pedrinha. Não posso. As sílabas que me saltam nas pontas dos dedos são melancólicas, com inclinação para a nostalgia. Perseguem-me, seguem-me os passos, coladas à minha sombra. “funny, funny feeling”, canta Clapton. Pode ser. Pode ser...


BL

The sound of silence


sábado, 3 de junho de 2017

La Roulette Rustre


Consegues ouvir?



A inquietude do vento
em busca de um instante vagaroso.

As palavras a estremecerem
a nomearem a noção do olhar na espuma das águas

rio improvável à sombra de pontes
atravessadas por uma nesga de sol.

A luz é tardia
e não dormem os pássaros no diálogo das árvores.

Ao longe
vozes que chegam em soluços
de poentes.

O tempo a parar a meio
do declive
no outro lado do cais.

Lentamente me abrigo no rosto
quente do crepúsculo

o perfil da noite a deslizar me sobre os ombros
devolvidos à flutuação do silêncio.


Brígida Luz
03.06.17

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A flor

Foto de BL



Um incêndio no traço
vermelho da tatuagem. A vida

em dois lugares do tempo. A chave irrecuperável
ou a visão assimétrica do tempo perdido.

A face branca das coisas a acontecerem
os movimentos de que um homem se orgulha.

A luz
ou a luminosidade de um nome impresso na pele

no ponto de encontro entre a vida
e a morte.

A flor novíssima que recusaste proteger.

Brígida luz
02.06.17

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A (in)certeza de um nome

Foto de BL



Hoje regressei ao espelho das palavras
sonhadas
talvez porque abriu a primeira açucena branca
como se de asas se tratasse.


Surpreendem-me os fragmentos do olhar
que sobrevivem na memória das mãos.


Num tempo sem declives
atribuí-me um nome que alimentas de incertezas
e silêncio. Não me reconheço
quando o vejo.


Nunca me dizias dos símbolos
em que prolongavas as sombras ou atravessavas
os ventos do desassossego da alma.


Doem-me estas paredes cobertas de um tempo
a engolir a inocência dos rostos. Um a um
percorridos pelo nome que transpões
na geografia do esquecimento.


Brígida Luz
22.05.17

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Reflexos



Um quase murmúrio de água
a pousar nas minhas mãos.

Reinvento o silêncio
faço dele um rio de versos

e neles recrio o amor
e os afetos.

A sintonia dos encontros

o sonho a falar
dentro de nós.

A palavra a nascer nos contornos da sombra
a alongar-se
em dissoluções esféricas

[ longas esperas na fertilidade do tempo ]

uma luz secreta a saciar de harmonia
o lado invisível das horas

os rostos [ em desordem ] a nomear a manhã.

Mas
como entender a ausência
na fragmentação do espelho?

Brígida Luz
17.05.17

terça-feira, 16 de maio de 2017

Apetecia-me chamar-te para dentro de um abraço

Para te sentires vivo
rasgas a tua pele desamparada
e sangras de solidão.
E a solidão dói.
Saber que atrás de uma rua vazia
virá outra rua vazia.
Que um som de passos
será somente o som dos teus passos.

É provável que num cruzamento
de águas
os teus passos escutem a memória
de um horizonte perdido onde as palavras
tinham a determinação da luz.

Dentro dos teus olhos existe um lugar recôndito
habitado por uma vida inteira.

Apetecia-me chamar-te para dentro
de um abraço
porque sinto que as tuas lágrimas
estão a secar
a deslizar para dentro do teu sorriso.
Queria tanto entender os significados
que estão dentro dessas lágrimas.

Mas o vento é forte e a árvore fustigada.
A palavra desarticula-se num tempo embaciado
de espaços vazios.

E tudo se reduz aos silêncios que nos fazem
cerrar as pálpebras e descair os lábios
numa linha horizontal e ilegível.



Brígida Luz
21.02.17

domingo, 14 de maio de 2017

Simon and Garfunkel


De dias outros


Podias sentar-te ao meu lado
num banco de pedras
ou de papoilas.

Podias abrir o portão
branco
e sentir as raízes a levarem-te
ao núcleo do universo.

Porque é maio
e a magnólia floriu.

Podias colher a papoila rubra
como se quisesses entreabrir o tempo
parede de chuva
e de silêncio desregrado e múltiplo.

Podias soprar-me uma palavra breve
ou então uma sílaba única
como se quisesses erguer-me o olhar
e anunciar-te no ventre da terra.

Porque o tempo é particípio
e a saudade morde o poema.

Brígida Luz
14.05.17

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Pendular-me(nte)

Este estado de ser movimento pendular
dentro da nossa própria existência. Transitar
entre o silêncio e a harmonia

que murmura baixinho

como se quisesse segredar afagos
ou alguma forma de laços.

O silêncio a instalar-se ao meu redor
sufocando medos

ou a memória de uma longa história de amor.

Este estado de ser a (in)quietude do tempo
na noite que permanece.

B. L.
11.05.17

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Relógio de sol

Embriagada pelo sonho da flor
pintou o tempo numa grande tela
em gotas de sol e de emoção.

Remanescente a cadência do mar
a magia do azul
em eterna mutação.

Em câmara lenta

[ a desfrutar da espera ]

depois da brisa
que lhe acordou memórias


explicar o silêncio no rosto do mundo

ou a seiva entranhada em sílabas precárias
que lhe secam nas mãos.

Sabe da pele e da luz temporária
albergue de música a dissolver
a noite.

Sabe de um nome que lhe segreda aves
a lembrarem a brevidade das folhas

e a semente a envelhecer submissa
à sede que lhe atravessa
a cor.

Brígida Luz
04.05.17

domingo, 23 de abril de 2017

Pousio do tempo

No grito ou no silêncio
que vai da palavra ao assombro do instante

imensa a ondulação do tempo
sem ontem
sem amanhã

o tempo suspenso na fragmentação da luz
espaço inscrito no nada

ou nova linha de partida.

O silêncio
um traço

ou um espaço atemporal

e a sombra a procurar o grito
a entrar pela luz adentro.

Brígida Luz
23.04.17

sábado, 1 de abril de 2017

Degraus

Perdeu-se de vista quando
abandonou os olhos na direção
da sabedoria dos deuses.

À sua volta nomes estranhos
segredavam-lhe medos. E ela
concha e tempestade
revolvia as manhãs na ilusão da luz

enquanto estendia pontes
e aprendia a decifrar a linguagem
dos muros.

A alma a parar num tempo feito de alvoradas
que entravam
sem baterem à porta.

Deixava que as vozes se alongassem
quando as horas se pronunciavam mais densas.

Atónita e deslumbrada
sorveu de um só trago a inocência de maio

em intermitências de um azul envergonhado
e chuva miudinha

num dia inteiro vestido de cinzento carregado
em queda para a trovoada.

Vida sem dias melhores. Nem palavras a voarem andorinhas.


Brígida Luz
01.04.17

domingo, 19 de março de 2017

Março

Chegamos a um tempo curto que se alonga
em sentido inverso.
Tudo o que acontece parece
ter já acontecido

mesmo o que acontece pela primeira vez.
Os olhos a recuarem
assombrados com a voz de março
no ar que se respira. Amanhã anunciarão a flor

enquanto o poema se abre
na inocência dos pássaros.

Antes da mutilação da metáfora.

Brígida luz
18.03.17

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O que já não nos podemos dizer


Atravessar a praça
como quem atravessa um deserto
dentro de nós.

A habituação da voz a inclinar-se
para a foz das reminiscências.

Um livro pousado ao acaso
sobre a mesa

páginas em branco
reféns da mutabilidade das palavras
ou talvez da imobilidade das mãos.

Passaram séculos sobre nós.

Não sei hoje qual a cor
que prevalece nos teus olhos.

Sei a dor
que não esmorece nos meus.

Brígida Luz
14.02.17