segunda-feira, 24 de julho de 2017

De sentido único


Dispersas a luz em movimentos
compassados.
Os lugares a ficarem progressivamente
irreconhecíveis
na descoordenação do olhar ou no
entorpecimento dos dedos.
Vozes anónimas apropriam-se
dos nomes e dos rostos que me decifravam
o azul magoado. Ou os soluços
da pele silenciosa.
Não sei como adormecer o frio
sobre os ombros.
Existe ainda um gesto
breve
nas horas finais de uma superfície
branca.
É talvez um apelo duvidoso do silêncio
dos braços
ou o poema vazio de uma última canção
proibida.

Brígida Luz
24.07.17

sábado, 22 de julho de 2017

Philip Glass


Entretanto florescem os girassóis


A instabilidade dos espaços a desdobrarem
falhas e desabamentos.

[ Versos inabitáveis corporizam
luz-memória a desvendar madrugadas. ]

Mãos cansadas aguardam um tempo de permeio
oculto num ponto de partida
onde o céu me sabia de cor e sonhava as flores da utopia
que tempestades secaram.

Nada sei do mundo
e aprendo com o sol as estações
que se renovam ou o movimento
das sombras que ascendem no horizonte.

Dentro do coração da palavra todas as
chaves serão minhas. O mundo
nasce lá fora alinhado no vento
das manhãs pintadas de fresco. O recomeço das cinzas
ou da viagem da alma
primeira guardiã do tempo.

Brígida Luz
22.07.17

Great Lake Swimmers


quarta-feira, 19 de julho de 2017

A árvore impossível


Atravesso palavras inocentes

num monólogo que quer remover o medo.

Articulam-se por si próprias

não me pertencem

e delas retenho apenas um eco longínquo

que me desdobra na multiplicidade de nomes

consumidos no esquecimento.



Junto-me a mim e suspendo

a reconstrução da árvore impossível que eu

adubava debaixo dos meus enganos.

Coberta de pontos de interrogação empurrados

por um vento amargo para morada incerta.



Sem olhares para trás amarraste-me o corpo

fragmentado em dolorosa invisibilidade.



Sem olhares em frente vais baixar a tua voz



e



pausadamente



podes dizer-lhe que morri.


Brígida Luz
19.07.17

terça-feira, 11 de julho de 2017

Tardia


Chego tardia àquilo
que sempre fui.
Curso de rio traçado
na fluidez de águas inquietantes.

Ergo o poema em palavras inibidas
a descerem de tempos inocentes
ou desenho pássaros no olhar resignado
de uma voz distante. A falar
de portas abertas à lucidez de um nome
que partia devagar.

O silêncio a percorrer mapas de escuridão. Sombras indecifráveis.
A solidão dos rostos que não atravessaram
a linguagem dos muros.

A luz refratada
refletida.
A luz a acontecer
num tempo muito longe daqui.

E eu a chegar
tardia.

Brígida Luz

domingo, 9 de julho de 2017

Improbabilidades


Podia lembrar e esquecer
a casa cheia de noite,
a respiração turva das palavras,
se aprendesse a semear campos pontilhados de sonhos,
nascidos na claridade dos dias.

Podia entender-me
nos gestos que sussurram a minha imagem
nos rios em que me deito,
se não me atravessassem  silêncios irrepetíveis
do tempo inexistente,
no tudo que é o instante.

Queria até beber dos teus improváveis rituais,
se me estendesses um regaço de águas mansas
em preguiçosa avenida de aloendros e garças reais.

Brígida Luz


sexta-feira, 7 de julho de 2017

Siga em frente

Nada do que digo ou penso
tem conteúdo ou função.
Palavras, leva-as o vento
ou provocam congestão.

BL
07.07.17

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Ser lugar

Está nos braços de um tempo adormecido
a verdade
da rua onde pulsamos
ou
às vezes abandonamos
os dias em que importaria renascermos.

Porque
há um ponto que nos chama.

Acumulamos enganos
e silêncios instalados

damos a volta à saudade
como se mergulhássemos a vida inteira
no olhar do entardecer.

Vivemos no casulo dos pequenos
nadas

os ombros a tocarem o chão
enquanto dobramos a dor para dentro da pele.

E
há um ponto que nos chama
à procura de um lugar.


Brígida Luz
06.07.17

Lua cheia de saudade


Deixo que o poema sobrevoe a saudade
ressuscito o teu rosto
do tempo
que desistiu de passar.

A meus pés
um abismo de lugares vazios
onde eu sento as sombras
dos sonhos que chamam
pela esperança
pelas luas
pelas dunas
em que a noite se deitou
e se tornou fios de luz
dentro de nós.

Brígida Luz

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A mudez dos pássaros


O silêncio escorre pelos sulcos do tempo
rompe os ruídos da noite.
Encaro os espelhos resignados
e arrumo os meus sonhos
de tranças desfeitas e olhares demorados.

Sinto as pálpebras vergadas
às paredes indecifráveis da memória
sílabas confusas estilhaçam
o centro da palavra.

Recorto vultos em páginas
opacas
em busca de caminhos à solta
e raízes ao vento
sementes do pensamento.

Em vão fujo de mim
sem rumo na linha do horizonte
nem céu que sobrevoe a mudez dos pássaros.



Brígida Luz


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Caixas cheias de nada

Desarrumou o tempo e partiu. Desagregou as memórias em pedacinhos minúsculos. Talvez porque, desse modo, lhe fosse mais fácil retirá-las da pele. Dos olhos. Dos braços. Do coração. Assim, desintegradas. Caídas no chão. Lentamente. Uma por uma. Sempre lhe foram um peso, as memórias. Rodeavam-no de pássaros em fuga. Enchiam-lhe o corpo de deserto. Nos olhos, um imenso, infindo deserto. Às vezes, recuperava uma . Ou outra. Polia-a, lapidava-a. Sentava-se numa pedra e, do seu interior, extraía pensamentos simples. Sorrisos luminosos. Tranquilos. Ilusórios. Tranquilamente ilusórios. E eu ficava inteira, dentro da ilusão. Mas, um dia, precisou de partir o tempo. De encher os olhos de pássaros. De estilhaçar o reflexo. E cobrir o chão de vidrinhos pontiagudos. Encheu caixas e caixas de tudo. O chão ficou coberto de vidrinhos pontiagudos. E deixou caixas e caixas cheias de nada.


Brígida Luz
03.07.17

domingo, 2 de julho de 2017

Às vezes, queres chorar


Dentro dos teus olhos há um abrigo
onde o silêncio se desarruma

e nomes, nomes antigos
em busca do prolongamento
das tuas mãos.

Ainda não sabes enumerar
os horizontes onde resistes
à erosão do vento seco.

E resistes. Aos braços inteiros
onde o sangue estremece

ao lugar à mesa em que o domingo
cresce e abre a janela

e deixa rolar o verão
ou respirarem as borboletas.

Assim vives. Assim escolhes
essa luz vagarosa

voltada para dentro das pálpebras.
Às vezes queres chorar
mas os lábios não deixam

esquecidos das texturas invisíveis
e inexplicáveis

de onde irrompem os lugares
e as memórias a que pertencemos.

E por onde silenciosamente caminhamos.

Brígida Luz

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Rodrigo Leão, Scott Matthew - That's life


Poesia de Rui Knopfli


O Ladrão de Versos

Uma gargalhada de meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro do meu filho.




Telegrama

Ao longo destes anos todos
nada temos dito - meia dúzia
de palavras trocadas para o ofício
difícil da vida diária
e quantas delas proferidas com azedume.
Não te roubou, a brancura dos cabelos,
a doçura que nos teus olhos mais
se acentua.
 Mãe,
este silêncio anda cheio de ternura.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Rodrigo Leão


(In)quietude

O mundo acordou fechado
dentro de um corpo que se ajeita
atrás da sombra desfeita
e as mãos
libertas
num indefinível harmónio
de palavras
silenciadas

sementes antigas
sob as linhas da pele
ecos traídos de inquieta poesia
que teria sido.

Infinito o tempo
em que arrasto o dia
na memória fria de relógios tensos
sobreviventes no quarto decrescente
de um redemoinho
imóvel
perfidamente.

Brígida Luz
01.08.10

terça-feira, 27 de junho de 2017

A preto e branco

Consumimo-nos num abismo onde
desenhamos frases de arrependimento. E
tecemos histórias de absolvição

amarramos a luz ao abandono
porque não soubemos chegar a tempo
de ver a amargura das cinzas.

E os degraus a descerem
já sem corpo
já sem rosto

e nós retratos a preto e branco
escondemos as vozes
num jogo de sombras a desdizerem
a solidão dos dias.

Brígida Luz
27.06.17

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Dias de habituação

Trazemos nos olhos as sementes
a povoarem o silêncio que vive nas palavras.
Gememos baixinho o cansaço das árvores ressequidas
repouso de sombras e fantasmas.
Deslizamos as mãos pelas paredes da memória
onde ressoam todas as vozes por cumprir.

Retornamos ao monólogo
sem pontes que nos atravessem
nem poentes que nos abracem.

É tudo tão absurdo no emaranhado
de raízes que nos apodrecem nas mãos.

Na impossibilidade de refazer
o encontro dos dedos
apagamos os lugares que ainda existem
irremediavelmente desabitados no corpo macerado do esquecimento.



Brígida Luz

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Em letra pequena


Aprender a duração da tarde

sem que no vento

se suspendam as palavras.



Reconstruir o espelho

e

no alvoroço da espera



entrar por dentro do infinito

e recolher no tempo

as rosas prometidas.



As rosas prometidas.



Desfolhadas em sílabas

divididas em hemisférios

de neve e lava.



Uma história a nascer.



Ainda sem um ramo de mar

ou uma rua respirável.



Em letra pequena

mas com cheiros de planície.



E os rostos facetados

do silêncio e da nostalgia.



A escutar as vozes do indecifrável

a cerrar lentamente a luz

que se verte dos olhos



como um rio que não correu.



Brígida Luz

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Todos os dias



Um ponto sem retorno. A saudade
a chorar baixinho
e a mendigar pontes antigas
abandonadas por dentro dos lábios.

Um silêncio absurdo corre pelas águas
da insónia

e o tempo a mover-se
ávido de luz
e da proximidade das raízes.

Escreves a palavra
mãe
e dizes o indizível

na linha reta da sílaba.

Brígida Luz

terça-feira, 20 de junho de 2017

Dias assim e assim

Pintura de Bridget Tichenor



Dias assim e assim

Pronunciaste-te distância. Estabeleceste uma linha divisória irreversível. E eu nem sempre sei a que lado pertenço. Lembro-me daquelas plataformas de bom comportamento, de que ouvi falar em sessões de catequese. Numa idade em que ainda tinha uns olhos arregalados para o mundo. O céu, o limbo e o inferno. Não me parece que em momento algum haja espaço para mim num recanto do céu. Pelo que ouvi dizer. Nesses tempos de outrora e em tempos bem mais recentes. Estou mais próxima do inferno. Pequei por palavras, atos e omissões. Pelo que fiz. Pelo que não fiz. Às vezes, pelo próprio facto de existir. Pelo que _ te _ ouvi dizer. Ignorei o sonho. Distorci a realidade. Passei ao lado das minhas atribuições. Desvalorizei sinais. E este é um dos meus pecados mais graves. Que me atira para o inferno de quase todos os meus dias. Dias de fogo. E de água. Em dias de limbo. É quando se sucedem os pontos de interrogação. É quando os braços pendem ao longo do corpo. É quando os olhos se apertam e se fazem pequeninos, pequeninos e não conseguem avistar terra para cultivar. Mas existe uma linha comum a todos os meus dias. Terminam todos eles numa queda desamparada para o vazio.


BL

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A linguagem do sol


Nunca soube onde guardar o silêncio
que surge numa tarde vagarosa
em que o sol tem tantas palavras para dizer.


Palavras que entreabrem a janela da tarde
e deixam que o tempo atravesse a rua de água doce
onde os rostos se debruçam
e as vozes pronunciam os nomes
em que as memórias persistem.


Pouco sei das palavras do sol. Pouco sei.

Entrego as minhas mãos ao silêncio da tarde
inclinada sobre a folha em branco.


Olho-me agora no verde das árvores
num esforço vertical
para me reconhecer.


Pouco sei das palavras do sol. Pouco sei.

Brígida Luz

domingo, 18 de junho de 2017

domingo - 18.06.17

R.I.P.


sábado – 17.06.17

O sol ficou cinzento. E o uivo do vento ergueu em chamas o grito e o lamento. A pele da terra, cárcere de nomes e nomes, perdidos num horizonte de labaredas. Cinzas de morte e de dor a cobrirem um chão em fuga. Semeado de vultos. E de escuridão. E de silêncio. A névoa no interior das palavras. O pânico por dentro das vozes. O sangue a romper os olhares. E todos podemos tão pouco. E todos sentimos a insensatez da nossa “vã glória de mandar”. E todos sabemos do nosso lugar no cosmos. Infinitamente pequenino. Tão assustadoramente desimportante.


BL

sábado, 17 de junho de 2017

17.06.17 - sábado

17.06.17 – sábado

Sábado. O ar quente e baço, a arder, irrespirável. O corpo a dobrar-se para o interior do pensamento. A amizade. O ceticismo. A timidez. A atravessarem tempos e lugares. A descobrirem trilhos, raízes e folhas caídas. Mortas. Troncos secos, feridos. A dor no olhar, as cicatrizes nas mãos. Tantas asas brancas, tanto céu azul! E hoje. O tempo a arder, irrespirável. Tombo para dentro de mim. Palavras a preto e branco. A fluirem nos verdes dos prados. E os verdes a serem castanhos, nuns olhos de veludo triste. Voltar atrás... para quê? A rua é ausência. E o tempo é silêncio.

BL

bom fim de semana

Foto de BL

sexta-feira, 16 de junho de 2017

No branco que sobra

Pintura de Bridget Tichenor


Num emaranhado de cores escrever
um outono iluminado
a claridade
sem o peso do que foi dito.
Ser uma só fala
um sopro a alinhar a palavra
sem mãos salgadas.
Ser gesto urgente
folha
vento incandescente.
Ou talvez um pouco de tudo
rotação translação
força centrífuga
a vida
para além do corpo.
Num tempo improvável
recuperar texturas de ausência
nomes eternos
fragmentando cardos indecifrados.
Num movimento de asas
atravessar a fluidez do silêncio
ou a memória da luz.

No branco que sobra.

Brígida Luz
16.06.17

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Sombras de nós

Foto de BL



Quando a cidade se faz silêncio
e o olhar uma paisagem de outrora
as marcas exibem histórias
e
de súbito
sentimos que somos grito adormecido.

Ilusória cosmética em que nos abandonamos.

Brígida Luz

domingo, 11 de junho de 2017

Joan Baez


Voltar atrás...

Pintura de Bridget Tichenor



Fiapos de luz enclausurada
levam-me a uma infância de uniformes e
filas p'ra tudo
e p'ra nada.

De narizes pontiagudos
pendiam
vestes negras

e enquanto exibiam irónicos sorrisos
plantavam metamorfoses arbitrárias
que fugiam por corredores que conduziam
aos dois gumes da mesma faca.

Tinham o queijo
também
receitas forno e fogão.

Regiam compassos indecifráveis

e

foge foge foge
alguém gritava.

Mas eu caí.

Fiquei p'ra trás.

Brígida Luz
11.06.17

Desdobrável

Pintura de Bridget Bate Tichenor


Acumulo tempo em que não sou. “Temos de valorizar o que temos” _ dizem-me. Mas aquilo que tenho não é aquilo que sou. Não sou uma mulher de Fé. Não tenho à minha espera um paraíso recheado de compensações. Não. Tenho o aqui e o agora. Porque sou cada vez menos aquilo que sou. Desdobrável. Por fora. Lá dentro acumulo tempo. Sei da minha pequenez. Do meu lugar pequenino. Sei de um mundo maior. Sei de milhões de criaturas que não têm. Que não são. Sei do poderio dos donos do mundo. E dos seres pequeninos. Como eu. Às vezes, não passo de uma pequena ave que do ninho tombou. Sou a fragilidade do que não posso, do que não sei. Sou a desilusão do que me é retirado. Do que me faz dobrar mais e mais para dentro de mim. Onde acumulo tempo. E silêncio. E constelações de estrelas cadentes. Sei da fome. Sei da guerra. Sei do meu lugar pequenino. Onde acumulo o tempo. Em que não sou.

BL
11.06.17

Apontamentos

A um canto, a arrogância de um deus da obesidade, servido por um exército de peões, irrepreensivelmente submissos e fiéis.


BL
11.06.17

11.06.17




Acariciando o azul, o bailado de uma nuvem. Feita de plumas, pintadas de vento e de verão.

BL

sábado, 10 de junho de 2017

10.06.17 - sábado

Foto de BL
10-06.17 – sábado

Hoje, tudo o que eu precisava era de me sentir “filha”. Ser “filha”. Apenas. A saudade de ser “filha”. De ter a mãe e poder chamá-la. Saber que ao dizer “mãe”, ouviria uma resposta, que poderia ser somente uma sílaba. “Hum!” _ diria a minha mãe. E ela estava ali, comigo, perto de mim. E então eu poderia começar a minha ladainha de desabafos que são só para mães ouvirem, porque não existem outras pessoas que estejam preparadas para isso. Mãe é sangue, é carne viva. É alma, coração, é dor, é amor. Descobre-nos em cada hesitação da voz. Segura entre as dela a nossa mão, cuida de nós. Lê-nos o olhar. E dá-nos o colo, sem hesitar.
Há muitos anos que não sou filha. E “ser filha” era tudo aquilo de que eu hoje precisava.