domingo, 8 de outubro de 2017

De ti sei agora muito pouco

De ti sei agora
muito pouco. Sei a tarde mansa
a rua ferida de ausência soluçada

e a minha mente presa
a horizontes de ternura.

Junto aos meus olhos
palavras arrastadas
perguntas por fazer e a distância
imutável da tua voz que

[ ao acaso ]

se quisesse entranhar pela raiz das coisas
que transitam entre o sangue e as memórias.

Sobrevivem os verbos que relembram
entendimentos ou a geografia da claridade. Pousam-me
no presente
vivem-me por dentro

e

por momentos
vestem-me de tempos

como quem me despe da saudade.

Brígida Luz
08.10.17

sábado, 7 de outubro de 2017

Na transparência das águas

Cinjo-me ao rio que flui
fundo e claro
pelos meandros da minha infância.

Regresso ao açude e às pedras
macias e lisas

como se fossem o tempo a deslizar
na transparência das águas.

E os ecos a flutuarem.

Na superfície líquida
as fantasias do primeiro amor.

Nesse tempo
todo o corpo podia ser composto
de silêncio. Nos olhos
nasciam horizontes limpos

e as vozes eram imaculadas
porque ainda não existiam manchas

no meu vocabulário.

E a minha verdade era toda aquela
em que os meus olhos largos
sabiam acreditar.

Brígida Luz
07.10.17

sábado, 30 de setembro de 2017

A palidez de um tempo irrecuperável


Acena-me de novo
aquele olhar que suspendi no tempo.

Nada me resgatará das palavras omissas
eu sei
hoje sei

de asas que envelhecem.

Mas deixa-me reajustar a palavra e reinventar
o tempo

deixa-me seguir o verso
ainda que seja um murmúrio de água que me pousa nas mãos

ou o nada que resta dentro dos nomes em que me desdobrei.

Sobro-me num corpo translúcido
perfil de árvore
a guardar silêncios debaixo da pele.

O tempo a ser

às vezes
uma luz fragmentada
frágil
por dentro do silêncio.


Recolho a flor
na cicatrização da luz
num mundo atravessado por portas fechadas
e espaços em branco.

E as sílabas a serem interrompidas no interior do olhar.

Irreversivelmente.



Brígida Luz
30.09.17

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Há coisas que não são assim mesmo

26.09.17 – 3ª feira

Estou muito triste. As coisas acontecem sem qualquer previsibilidade. Caem dentro de um dia de sol ou afundam-se em lama, ou lodo, descontroladamente. Nada assenta em sentimentos alicerçados, profundos, genuínos. Nada acontece assim, porque é mesmo assim. Agora pode ser a claridade e, num voltar de costas, tudo pode ser um dilúvio de frases impensáveis. Muito menos, pronunciáveis. Nunca sei onde está a verdade. Lembro-me de que foi sempre assim. Mas eu fui-me esquecendo de que foi sempre assim.
Estou muito triste, porque, hoje, ouvi frases impensáveis. Impronunciáveis. Especialmente uma frase. Que me causou vertigens. Que me nauseou. Porque sinto que esse pensamento não foi somente um sopro. De fora para dentro. Porque sinto que esse pensamento lhe inunda todas as veias, até o vomitar, sórdido, imundo, repugnante. As palavras caem no chão e abrem fendas irreparáveis. Existem coisas que não se podem consertar. Existem coisas demasiado degradadas. Em breve não passarão de escombros.
E tanto céu azul ficará sepultado sob os escombros!
Tenho tanto medo!

BL