domingo, 19 de março de 2017

Março

Chegamos a um tempo curto que se alonga
em sentido inverso.
Tudo o que acontece parece
ter já acontecido

mesmo o que acontece pela primeira vez.
Os olhos a recuarem
assombrados com a voz de março
no ar que se respira. Amanhã anunciarão a flor

enquanto o poema se abre
na inocência dos pássaros.

Antes da mutilação da metáfora.

Brígida luz
18.03.17

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O que já não nos podemos dizer


Atravessar a praça
como quem atravessa um deserto
dentro de nós.

A habituação da voz a inclinar-se
para a foz das reminiscências.

Um livro pousado ao acaso
sobre a mesa

páginas em branco
reféns da mutabilidade das palavras
ou talvez da imobilidade das mãos.

Passaram séculos sobre nós.

Não sei hoje qual a cor
que prevalece nos teus olhos.

Sei a dor
que não esmorece nos meus.

Brígida Luz
14.02.17

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Na imobilidade do olhar

Está doente
o poema. De pálpebras fechadas
convoca a melancolia das nuvens
e fala do silêncio como um refúgio.
Um zumbido de memórias
redemoinho interior
a sonhar-lhe as palavras que expliquem
os pássaros que envelhecem amarrados
à extremidade do poente.
Dói-lhe a palidez do tempo
que atravessa as ruas despidas de pólen.
Na alucinação do sol
prepara-se para o voo da noite
ao lugar onde as veias se fundem
na imobilidade do olhar.


Brígida Luz
21.12.16

sábado, 3 de dezembro de 2016

O monólogo do vento

Inventaste um rosto para apagares
o cansaço que alastra na noite
em teu redor.
Nenhum eco cresce das horas
que acendem um mundo
fora de ti.
Estilhaças o tempo
em sílabas inertes
ínfima constelação de pontos imóveis
paredes nuas de uma casa desabitada.
Onde procuras a tua sombra
ou a voz da inocência onde já não existes.
A noite toca o teu corpo sufocado num silêncio
de pássaros encarcerados.

E eu escrevo o monólogo do vento.
A evocar o teu nome
dobrado sobre a distância imponderável
de um opressivo deserto atravessado de medo.

Brígida Luz
03.12.16

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Por detrás da chuva

Longe de um tempo branco
comprimes o teu corpo de cinza
contra um céu vazio
uma bruma a derramar formas indefinidas
de solidão.
Dentro de ti
paisagens inacessíveis
a atravessarem-te a pele.
Fechas as pálpebras e perdes-te
em imagens
a procurares uma saída.
Estendes a mão para um nome imaginário
e julgas tocar a perfeição
[ a corroer a tua lucidez ]
O silêncio a arder-te sobre os ombros
curvados pelo tempo. Crepuscular e plúmbeo.
Nos teus olhos
a chuva a diluir um gesto de pássaro.
Ou de árvore.
Como se no teu sangue
enterrasses as raízes do esquecimento.

Brígida Luz
24.11.16

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Caiu-te aos pés um poema

Escondias nos bolsos as mãos
nuas
os olhos presos num horizonte
a recuar a recuar até ser

a indefinição de um ponto.
Choviam em teu redor folhas
em branco

aves caídas do vento
a deslocar-se sobre raízes inanimadas.
Numa intermitência das águas

caiu-te aos pés descalços um poema
fulgurante.
Subiste-o
degrau a degrau

e no teu lugar de silêncio

descobriste-lhe as linhas
esguias.

Palavras de vidro a conterem
insignificâncias.
Uma caixa cheia de abstrações.

E tu
de mãos nuas e pés descalços

no teu lugar de silêncio

medes os passos e escreves nomes indecifráveis

no reverso do poema.


Brígida Luz
16.11.16

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

De outros tempos

Um dia hei de talvez
saber explicar o insustentável gesto
em que o longe se desdobra.

Cega-me a lucidez do silêncio
nas entrelinhas das palavras em que
desarrumo os pensamentos
para atravessar o horizonte

[ poema de aves a construírem os ninhos ]

como personagem de um filme
para sempre adiado.

Lugar de paisagens antigas onde a luz
principiava.

Tempo
que já não me cabe nas mãos.

Brígida Luz
07.11.16