segunda-feira, 16 de abril de 2018

Quase nada

Mas leio ainda nos teus olhos
sílabas feitas de renúncias. Como se uma
dor indizível ondeasse sob o vento da tarde.
E falas das sombras. E traças os riscos das solidões
a proclamarem o irremediável.

Sem verdades definitivas
recolhes nos dedos trémulos
os sinais ilusórios
que te chegam do outro lado do espelho.
Sobes à montanha
e reinventas destinos
a casa
a ideia.

Ardem-te mil rostos
em pedacinhos de claridade
a acompanharem-te como sombras.

Mas recusas os vultos e as vozes
num espaço de névoa que deixas
parado no tempo.


Brígida Luz
16.04.18

sexta-feira, 16 de março de 2018

Se ainda nos violinos do vento...





Cobres-me de equações distorcidas
num adeus precoce
às pétalas delicadas
que se enchem de primavera
nas memórias que desenterro e este sol
quase perfeito
me faz passar entre os dedos.
Se ainda nos teus olhos
cintilam os nenúfares das tardes
que vêm de um outro tempo
dissolve o teu silêncio
nos violinos do vento
deixa que a minha mão agarre
a tua
e que o movimento
dos girassóis
te aponte
o caminho de volta
ao horizonte
da nossa rua.





Brígida Luz

domingo, 4 de março de 2018

A parede em ruínas

São pedaços de nós
prolongamento dos nossos passos.
Voam por dentro do tempo
enquanto procuramos um olhar
na voz incerta do regresso dos pássaros.
Acordam nomes e rostos
que nos sagram os lugares e encandeiam
os crepúsculos.
Visão incendiada onde sobrevive
a velha ponte atravessada por enigmas e silêncio
na orla das orquídeas
que vivem no poema.

Brígida Luz
02.03.18

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Na lucidez da noite

Atravessar círculos concêntricos de ventos
e de escuridão.
Escutar a pulsação do silêncio
e a solidão
na oscilação das árvores.

Olham-me paredes em branco
e as ausências sobram-me
nos espaços de formas
arbitrárias

preenchidas por linhas imprecisas
quase indecifráveis.

E ao mesmo tempo
o peso do puzzle a espartilhar o pensamento
a dor acostada ao gesto adormecido no refúgio da noite.

A casa adiada. A pedra inocentemente
perdida na inclinação da vertigem.

Ou na migração das manhãs.

Brígida Luz
11.02.18

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A exaustão pendurada no rosto

Estar na beira do sopro e estender a palavra
para além do tempo.
Entre a superfície lisa do esquecimento
e a resistência da pele
a amaciar a queda. A contornar os extremos
em desequilíbrio.

Outras vozes. A sugerirem poeiras
indefinidas
histórias de que não existem vestígios.

A espessura da memória
para além do tempo.
A materialização do vazio
no silêncio da paisagem. O fôlego improvável.

Como se a exaustão
pendurada no rosto fosse a última
coisa de vida.
Para além do tempo.

Brígida Luz
03.02.18

sábado, 6 de janeiro de 2018

Amor-perfeito

Quero ter-te nos meus braços
e ser o teu silêncio.

E num sopro inaudível
recolher o teu nome imaculado
nas águas limpas que correram.

Quero ser a crença
no coração dos dias que chegam.

Brígida Luz
06.01.18

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Probabilidades

Depois podes dizer-me das águas
perfeitas onde a luz
se liberta.
Poderemos amar a flor que se abre
na terra nua

onde os novos significados se revelam.

Repara nas palavras diferentes
que agora são possíveis. Tudo contêm

como uma canção bem guardada em idades
que se perderam.

Seremos aqueles que foram resgatados
de um tempo bravio

de mágoa e de buracos que ocultavam
a sede brutal de um deserto.

Brígida Luz
27.12.17