terça-feira, 8 de maio de 2018

Refração

Remanesce a história que (de) compões
em silêncio.
Sabem-te palavras desabitadas
que te morrem no interior dos olhos
porque não é o teu
este espaço que guardaste da vida

[ como se fosse a brisa doce do poema. ]

Desenrolas novelos de tempo
enquanto atravessas pedras de ilusão.
Uma e outra vez sacodes o sal em que
envelhece o dia
e atiras um horizonte naufragado
para trás do esquecimento.

Reestruturas labirintos tingidos de memórias
a tua voz dentro delas

a tua alma a escutar a geografia do silêncio

quando existem palavras oblíquas a caírem
dentro da imensidão da página.


Brígida Luz
08.05.18

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Quase nada

Mas leio ainda nos teus olhos
sílabas feitas de renúncias. Como se uma
dor indizível ondeasse sob o vento da tarde.
E falas das sombras. E traças os riscos das solidões
a proclamarem o irremediável.

Sem verdades definitivas
recolhes nos dedos trémulos
os sinais ilusórios
que te chegam do outro lado do espelho.
Sobes à montanha
e reinventas destinos
a casa
a ideia.

Ardem-te mil rostos
em pedacinhos de claridade
a acompanharem-te como sombras.

Mas recusas os vultos e as vozes
num espaço de névoa que deixas
parado no tempo.


Brígida Luz
16.04.18

sexta-feira, 16 de março de 2018

Se ainda nos violinos do vento...





Cobres-me de equações distorcidas
num adeus precoce
às pétalas delicadas
que se enchem de primavera
nas memórias que desenterro e este sol
quase perfeito
me faz passar entre os dedos.
Se ainda nos teus olhos
cintilam os nenúfares das tardes
que vêm de um outro tempo
dissolve o teu silêncio
nos violinos do vento
deixa que a minha mão agarre
a tua
e que o movimento
dos girassóis
te aponte
o caminho de volta
ao horizonte
da nossa rua.





Brígida Luz

domingo, 4 de março de 2018

A parede em ruínas

São pedaços de nós
prolongamento dos nossos passos.
Voam por dentro do tempo
enquanto procuramos um olhar
na voz incerta do regresso dos pássaros.
Acordam nomes e rostos
que nos sagram os lugares e encandeiam
os crepúsculos.
Visão incendiada onde sobrevive
a velha ponte atravessada por enigmas e silêncio
na orla das orquídeas
que vivem no poema.

Brígida Luz
02.03.18

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Na lucidez da noite

Atravessar círculos concêntricos de ventos
e de escuridão.
Escutar a pulsação do silêncio
e a solidão
na oscilação das árvores.

Olham-me paredes em branco
e as ausências sobram-me
nos espaços de formas
arbitrárias

preenchidas por linhas imprecisas
quase indecifráveis.

E ao mesmo tempo
o peso do puzzle a espartilhar o pensamento
a dor acostada ao gesto adormecido no refúgio da noite.

A casa adiada. A pedra inocentemente
perdida na inclinação da vertigem.

Ou na migração das manhãs.

Brígida Luz
11.02.18

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A exaustão pendurada no rosto

Estar na beira do sopro e estender a palavra
para além do tempo.
Entre a superfície lisa do esquecimento
e a resistência da pele
a amaciar a queda. A contornar os extremos
em desequilíbrio.

Outras vozes. A sugerirem poeiras
indefinidas
histórias de que não existem vestígios.

A espessura da memória
para além do tempo.
A materialização do vazio
no silêncio da paisagem. O fôlego improvável.

Como se a exaustão
pendurada no rosto fosse a última
coisa de vida.
Para além do tempo.

Brígida Luz
03.02.18

sábado, 6 de janeiro de 2018

Amor-perfeito

Quero ter-te nos meus braços
e ser o teu silêncio.

E num sopro inaudível
recolher o teu nome imaculado
nas águas limpas que correram.

Quero ser a crença
no coração dos dias que chegam.

Brígida Luz
06.01.18