quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

As margens nuas do meu rio

Chegam as neblinas
sem palavras e a brancura

derrama-se na manhã, convoca a melancolia
dispersa em cristais de pureza.

Sou viajante no vento
a rasgar o fecundo silêncio

que descortina o sentido de cumes e declives
entre a luz primordial
e teias de solidão.

Sorvo de um só trago
o afeto doce e quente de pensamentos

que ficaram cravados nos tempos por onde passei.

Neles me circundei de verdades e medos

e nos atalhos que entre eles nasceram
agora escrevo
as marcas de um sonho

que nos olhos transportou o desespero
e nos lábios ancorou um verde frio

e por pudor recuou
nas margens nuas do meu rio.


Brígida Luz

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Digo-te de nós

Digo-te ainda
de um tempo feito de luas transparentes
e anseios de abril


de um mar exato de águas repousadas
que me abrigava
na claridade dos teus silêncios


digo-te da sede
que em mim bebia o fogo das alvoradas
e acordava rituais
de sementes inebriantes.


Digo-te de mim

de olhos que ardem rios de sal
que não secaram o bastante
para respirar


da ilusão que afaga as incertezas
de uma rocha poente
e inventa remendos flutuantes
em margens transbordantes e desertas.

                      
Digo-me
a mim
de um tempo paciente
incompleto
em aberto    sem memória.



Brígida Luz

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Urgência




Esta manhã é uma claridade cinzenta. Talvez por isso
sejam cinzentas
ou mesmo invisíveis
as sílabas que sobram
da ausência da voz.


Nos olhos
um insondável cenário de argila
a urgência de um afago do tempo
com o sabor transparente das palavras.


Tudo o que resta
são ecos exaustos das águas estáticas
de um mar desarticulado
onde reúnes a travessia do mundo
nessa densidade dispersa no centro de ti.


Mas p’ra lá das margens do corpo
existe ainda algum sol
entre o pousio das marés.


Na libertação do silêncio
quando as memórias tocarem as coisas simples
em que tu e eu éramos apenas nós os dois.


Brígida Luz

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A luz fragmentada



Os olhos a falarem. Em ecos
de um verde quente
a lavarem o fundo das águas
a levarem o lodo
que decompõe
a estrada.
Nos lábios
a luz.
Em reflexos intermitentes
de visões não prescritas.
A luz
e os braços atados ao corpo
num movimento inerte
de almas presas.
A luz
e um silêncio sem norte
a habitar os corpos.
A luz
e as mãos a perderem de vista
os significados das palavras
dentro de um tempo em que
exangue
o silêncio chora.


Brígida Luz

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Re.conjugação

Ser um ponto anónimo
no lado de fora.
Sentir as mãos salgadas
à espera de uma nova ordem ou de um novo
tempo.

Transcender
o peso do silêncio
na germinação da luz que novembro
vai apagando.
Guardar os relógios e inventar sorrisos
onde embrulhar a realidade.
Fingir-me palavra a repousar no peito
no lado de dentro
recolher nos olhos a reciprocidade
dos olhares.

Um dia saberás.

Brígida Luz
22.11.17

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A filigrana dos sonhos



Penso em ti
à distância da voz
cíclica construção de azuis
aroma perfeito
a inventar promessas
inocentemente sufocadas
por dentro das veias.
Atravesso
a misteriosa filigrana
dos sonhos e apercebo-me
da luz a demandar
infinitos fugidios.
Dir-te-ei dos pássaros indomáveis
moldados nas lembranças.
Escrevo no olhar
ausências e regressos
e, em silêncio, retomo
o invisível gesto de amadurar o tempo
que me nasce dos dedos.

Brígida Luz

sexta-feira, 17 de novembro de 2017