domingo, 24 de novembro de 2013

Página em branco




Sobra-lhe uma página em branco e não consegue lembrar-se de alguma vez ter tido, na infância, uma festa de Natal. Tivera, vagamente, uma festa de aniversário, na adolescência, aí pelos treze anos. Vagamente. Vultos, imagens que se perdem por entre espaços da memória, rápidas, traços de faróis a riscarem a noite do tempo.
Uma lâmpada suspensa no teto de madeira projetava uma luz amarelada sobre o tampo de mármore onde a mãe rendilhava a massa dos coscorões. Em cima de um banco, um alguidar com a massa das filhós. Já lhe tinham acrescentado o copo de aguardente, lembra-se desse pormenor, porque na tristeza aveludada dos seus olhos estendia-se uma confusa e vasta margem inclinada a pormenores. Mas não fazia perguntas, raramente estes preparativos lhe despertavam interesse ou curiosidade.
Com a última porção de massa, via a mãe recortar a “boneca”. Depois de frita, terminava a “consoada”, na noite de Natal.
Sobra-lhe uma página em branco. E o tempo parado, dentro da tristeza aveludada dos seus olhos. Retratos, rituais que poderão ter-se repetido, ano após ano, no meio do cheiro a fritos, debaixo daquela luz amarelada. E o silêncio, feito de tempo e de nomes, dentro dos olhos da mãe.
Depois, as doze badaladas, o sino a enrolar os corpos entranhados de dezembro. Os xailes pelas costas, um ou outro casaco, “a missa do galo”. Era já meia-noite, de uma noite de Natal que não refletia o brilho de luzes no silêncio dos rostos nem nos corpos dobrados, depois da canseira de mais um dia de trabalho árduo.
Sobra-lhe uma página em branco. E não consegue lembrar-se de alguma vez se terem sentado à mesa, em família, para uma ceia de Natal. O dia tinha-se movimentado à volta de muito trabalho, e não havia horas certas para comer. Ia-se comendo o que havia, conforme se podia.
Às vezes, adormecia nas escadas. Ligavam um patamar interior à mercearia, onde os pais atendiam os trabalhadores que arrastavam, nas botas enlameadas, os últimos raios de um sol que se punha, por detrás dos campos de cultivo de onde regressavam. Sentava-se no primeiro degrau, rente ao chão da loja e apoiava a cabeça nos braços em almofada, dois degraus acima. Assim adormecia. Só acordava, quando a mãe a chamava, para irem para a cozinha. O ritual dos fritos, na chaminé, dentro do silêncio preenchido pela luz amarelada. E o silêncio, feito de tempo e de nomes, dentro dos olhos da mãe.
Os xailes pelas costas. Os xailes cor-de-muitos-invernos-que-passaram e de todos os sonhos que a cor dos tempos fizera baixar os olhos para o chão. A missa. E depois, havia café. A água ainda a ferver que a mãe deitava em cima das filhós e dos coscorões. Saíam amolecidos, deliciosos, com o açúcar qua a mãe lhes espalhava por cima. Comiam-se os fritos e bebia-se café.
O tempo a deslizar, no lado em festa da memória.
Era já tarde, afinal, compreende-o agora, quando punham os sapatinhos na chaminé. E iam-se deitar.
De todos esses anos de sapatinho na chaminé, lembra-se de uma “prenda no sapatinho” que jamais algum tempo apagará. O véu azul. Aquele véu azul que, a partir desse Natal, passou a ser a estrela que a guiava à missa, todos os santos domingos. Entre tantos véus pretos, entre tantos véus brancos, aquele véu azul-céu era a melhor festa de Natal que o amor do Menino Jesus alguma vez lhe deixara no sapatinho.
O tempo a deslizar, no lado em festa da memória.

Brígida Luz

2 comentários:

  1. Brígida,
    As memórias são um poderoso alimento, sustentáculo do nosso edifício interior.
    Bela narrativa!

    Beijo :)

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  2. Que seria a nossa vida, sem estes registos maravilhosos de tempos idos...!!
    Belo texto Brigida!

    Deixo beijinhos...:)

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