domingo, 11 de junho de 2017

Desdobrável

Pintura de Bridget Bate Tichenor


Acumulo tempo em que não sou. “Temos de valorizar o que temos” _ dizem-me. Mas aquilo que tenho não é aquilo que sou. Não sou uma mulher de Fé. Não tenho à minha espera um paraíso recheado de compensações. Não. Tenho o aqui e o agora. Porque sou cada vez menos aquilo que sou. Desdobrável. Por fora. Lá dentro acumulo tempo. Sei da minha pequenez. Do meu lugar pequenino. Sei de um mundo maior. Sei de milhões de criaturas que não têm. Que não são. Sei do poderio dos donos do mundo. E dos seres pequeninos. Como eu. Às vezes, não passo de uma pequena ave que do ninho tombou. Sou a fragilidade do que não posso, do que não sei. Sou a desilusão do que me é retirado. Do que me faz dobrar mais e mais para dentro de mim. Onde acumulo tempo. E silêncio. E constelações de estrelas cadentes. Sei da fome. Sei da guerra. Sei do meu lugar pequenino. Onde acumulo o tempo. Em que não sou.

BL
11.06.17

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