sexta-feira, 3 de julho de 2026

Ecos de vozes livres

 






Árvores despidas transitam entre o sangue

e o nevoeiro.

E eu pergunto-me como se sossegam estes olhos

sem navio.

 

Sobrevive um caminho para o mar

e aí recolho os verbos

que pairam

ainda

sobre a espuma das marés.

 

Relembram

[ os verbos ]

os nomes de coisas transitórias

breves aparições

ecos de vozes livres

indomáveis

como um sopro silábico de probabilidades

sem pontuação.




BL

03.07.26






terça-feira, 30 de junho de 2026

Quando o voo é ausência

 





Quando o voo é ausência

e memória.

Cai no poema o som aflito

do restolho ofegante.

Um eco mordido pelo medo da página onde o início

é regresso.

Queimo fotografias guardadas

no interior do olhar

agarro com as duas mãos as portas do futuro.

E deixo que o vento me redesenhe os contornos

e em cada sopro invento a palavra

que ainda não encontrou o corpo onde pousar.



BL

30.06.26




segunda-feira, 29 de junho de 2026

Nas margens da metáfora

 





Quantas vezes morremos

no paradoxo de palavras onde nos abrigamos.

 

Às vezes

renascemos

clandestinos

no intervalo ínfimo entre duas sílabas

que não ousámos dizer.

 

Talvez a morte seja

um desvanecer

l e n t o

 

nas margens da metáfora.

Um regressar

ao barro primordial

onde todas as imagens se confundem.

 

E

no instante em que tudo

parece ruir

poderá uma palavra pequena abrir

uma fenda mínima no escuro

e deixar entrar um

                               eco

 

para que o corpo permaneça inteiro

a arrastar

para __________________________________longe

a voz das cinzas.




BL

29.06.26




sábado, 27 de junho de 2026

Um sopro de claridade

 





Há um corpo que se move

devagar.

Uma pausa

como se estivesse a meio

de uma respiração.

 

O ritmo de um início

que não começa

 

um passo que ainda

não pousou.

 

Há um gesto

quase fenda

uma porta entreaberta.

Textura rarefeita

 

um passo invisível

antes do primeiro.

 

Há qualquer coisa simples

uma espécie de claridade.

 

Ou uma espécie de segredo

daqueles que só o verão entende.

 

Há um silêncio

a ressoar.

Um sopro de um lugar anterior

um fragmento do que poderia ser.

 

Um fio do infinito

a continuar a mover-se

sem ruído.




BL

27.06.26





sábado, 20 de junho de 2026

E

 





E

de repente

surpreende-me a distância.

 

Recortes que fabriquei no interior

de uma cegueira húmida

 

como se

no lado de fora da chuva

existissem probabilidades de veludo

na pele do verão.




BL

20.06.26





sábado, 13 de junho de 2026

O nome da água

 






As tuas palavras
ergueram um quarto de neblina
e eu entro descalça
para não acordar o pó.

 

No centro
um bibelô partido
brilha

como se guardasse
o último resto de sol.

 

Há fantasmas que passam.
Não assombram.
Medem o silêncio

palmo a palmo
com as mãos abertas.

 

As pedras que viraste
ainda respiram.

Debaixo delas
um fio de água
procura o seu próprio nome.

 

E quando escondeste
as interrogações
num lugar onde a sílaba
não ousa entrar

o espaço abriu‑se
numa dobra invisível


e ali ficou suspenso
o que não precisa
de resposta.




BL

13.06.26




sexta-feira, 12 de junho de 2026

A fio nu

 





O ruído nasce em círculos
metal líquido
a tentar escrever o mundo
com mãos trémulas.

 

No centro do redemoinho
a paz é um pássaro imóvel
um olho que não pisca
um nome que ninguém pronuncia.

 

Entre ambos
um fio invisível

a vibrar.
Se o tocas

ecoa tempestade.
Se o escutas

abre-se um deserto

translúcido.

 

E eu caminho nesse fio
metade faísca
metade silêncio
à procura do instante
em que compreenda que a vida não espera
que eu a entenda
para continuar.






BL

12.06.26





quarta-feira, 8 de abril de 2026

Corpo da distância

 






Desde então

espero pela súbita janela

da insónia

 

para que do fundo do armário

acorde um rio invisível

labirinto de hipóteses

sons avulsos a subirem até mim.

 

Ultrapassa-me a lonjura

concreta e nítida

passa por mim um tempo líquido

a navegar memórias.

 

Fala da erosão da pedra

de metáforas com cheiro a terra

das raízes subterrâneas das estações

da limpidez da eternidade.

 

Tocada pela seiva vagarosa

guardo o corpo da distância

a reconhecer

no escuro

a forma secreta daquilo que permanece.




BL

08.04.26






terça-feira, 7 de abril de 2026

Por cima do teu nome

 





Não entendes o que eles dizem
e eles não param para te escutar.
As suas palavras passam por ti


lâminas cegas
cortam [sem intenção]
ferem [sem saberem.]

 

O abandono instala-se devagar
água fria a fluir nas tuas veias.


Os gestos
os rostos
o próprio ar
deixam de te reconhecer.

 

A raiva cresce onde a voz não chega.
Há um animal fechado
a roer-te o peito por dentro
a pedir saída
a pedir mundo
a pedir que alguém te veja
antes que te desvaneças.

 

E resistes.
Chama frágil
clandestina
que insiste em não morrer.
Um lume que não aquece
ilumina
para que não te percas de ti.

 

E assim segues.
Entre o que te falta
e o que te sobra.
Entre o que te negam
e o que ainda guardas.

 

Um corpo que avança
mesmo quando o caminho
não lhe pertence.

 

Um silêncio que resiste
mesmo quando ninguém
o sabe escutar.




BL

07.04







segunda-feira, 6 de abril de 2026

Corpo à margem

 






Há um lugar onde o mundo não chega
um vão de sombra
onde os nomes se desfazem
antes de tocarem a boca.

 

Ali

o silêncio tem ossos
e range.
A pele aprende a encolher-se
para caber no que lhe negam.

 

As ruas passam ao lado.
Rios que recusam o náufrago.

 

Há rostos que não olham.
Portas
a selarem o ar.

 

Ao fundo da escuridão
cresce um rumor de gente
que desaprendeu o gesto de existir.
Corpos suspensos
como se a vida fosse um corredor
onde nunca se entra.

 

E há um frio
a vir do lugar exato onde o mundo decide
quem fica dentro
e quem se apaga.




BL

06.04.26





domingo, 5 de abril de 2026

A máquina de café pergunta por ti

 





A máquina de café pergunta por ti
no brilho elétrico da madrugada
o vapor sobe como um sinal
um código secreto na luz azulada.

Pergunta por ti tic‑tac
coração mecânico
como se o metal soubesse
o que ficou por dizer.

E eu danço na cozinha
entre sombras e refrões
a saudade entra no compasso
a memória pulsa nos botões.

A máquina insiste
ritmo quente repetido
como se cada gota fosse
um eco do teu passo perdido.

E eu respondo ao som
num sussurro que ninguém ouve
talvez voltes talvez entres
talvez o café volte a ser encontro.

Até lá
ela pergunta por ti
e eu deixo a música levar
o que ainda vibra em mim.




BL

05.04.26










sexta-feira, 3 de abril de 2026

O lugar onde estás

 








A manhã abre-se
devagar
e a luz pousa nos lugares onde estivemos.

 

Presto atenção ao silêncio
à respiração suspensa
num redemoinho de olhares.

 

Há lágrimas que vêm de longe
de outros corpos
de outras tentativas de amar
quando não se pôde.

 

E
ainda assim
a memória insiste em povoar-se
das imagens que escolhemos ver.

 
 
As pedras são apenas pedras
a água apenas água
os ramos apenas ramos
e
no entanto
tudo treme
com a sombra do que sentimos.

 

A claridade levanta-me
desfaz o último resto de noite
e os meus olhos abrem-se
outra vez
para o lugar onde estás.

 

Como se o mundo inteiro
nascesse desse gesto.





BL

03.04.26





sábado, 28 de março de 2026

Pó e pedras

 



Não sem que olhes

mais uma vez

a janela perdida entre escombros.


Os teus olhos a arderem sobre o pó.

Os teus pés rasgados sobre as pedras.

[força quieta

quase sísmica]

 

Diante de ti

a realidade é agora

um mundo envelhecido de silêncio.

 

Não existem metáforas soterradas.

 

À distância

o tempo.

Parado.

 

Não se é criança

quando o tempo

longínquo

parado

desaba

sem aviso

diante de ti.

 

Cresces

quando o mundo te empurra

para dentro de ti.

Quando te fecha uma porta

e te deixa no lado errado.

 

Cresces

quando o mundo te obriga

a ficar de pé

entre ruínas.

 

À espera de que algum fragmento

ainda saiba dizer futuro.





BL

28.03.26






sexta-feira, 27 de março de 2026

Matéria íntima


 









São eles
os restos
e talvez o que deixaste neles
quem regressa
quando a casa se cala.
Arrastam-se pelo chão
animais feridos
farejam-te o pulso
procuram o sal
que esqueceste nos cantos da noite.

 

São eles
os restos
e talvez o que deixaste neles
quem te chama pelo nome
com vozes de ferrugem.
Abrem portas que juraste trancadas
remexem gavetas
onde dormem cartas sem rosto
e espalham pelo corredor
as migalhas do que foste.

 

Aproximam-se
devagar
com a paciência dos que sabem esperar.
Sentam-se à beira do teu corpo
tocam-te o ombro
com dedos de pó e de abandono.
Recolhem
um a um
os pedaços que deixaste cair
em madrugadas
que não voltam.




BL

27.03.26






segunda-feira, 23 de março de 2026

Do mal, o menos

 


 




Do mal o menos
repetia
baixinho
o homem que alimentava pombos
com migalhas de pão seco.

 

As aves vinham
confiantes
como se cada migalha fosse a promessa
de que o mundo
ainda podia ser simples.

 

O homem observava o voo breve
as asas
a riscarem o ar
a escreverem
sem tinta
uma esperança discreta.

 

E
enquanto o pão se desfazia
entre os dedos gastos
o homem pensava que talvez a vida
fosse isso mesmo.

Um gesto pequeno
um cuidado anónimo
um instante de paz
no meio do ruído.

 

Do mal o menos
repetia.

 

E
naquele murmúrio
cabia tudo o que ainda o mantinha de pé.






BL
23.03.26





sábado, 21 de março de 2026

A arte de partir

 





Quem me dera
conseguir
part
ir
sim
assim
sussurro de desapego
rasto breve
de um lugar.

 

Ir
sem o peso
do que fica
sem ecos
do que nunca disse
sem esta âncora
que insiste
em chamar-me
para voltar.

 
Quem me dera
aprender a deixar ir
a abrir a janela
e aceitar o vento
sem medo
do que o vento leva
sem medo
do que lhe sobra.

 

Talvez
um dia
o gesto seja simples.
Dar um passo
respirar
e caber
inteira
no espaço que se abrir.


Quando aprender a [part]ir.




BL

21.03.26





Geometria do intangível

 





No íntimo da luz
a transparência da cor.


Tudo vibra
num silêncio líquido
como se o ar respirasse
por dentro das formas.


Há um rumor de brilho
na superfície do tempo
um sopro
a dissolver fronteiras.


O invisível inclina-se
devagar
para tocar o instante que o revela.

 

A claridade desdobra-se
suave
interminável
numa dança que não procura sentido. Inventa-o
entre aquilo que vemos
e o que somente pressentimos.





BL
21.03.26






 

quinta-feira, 19 de março de 2026

A botânica dos ombros

 

The Wilds 2022 - Sarah Jarrett





Não deixei pássaros ao abandono.

Cresceram-me folhas nos ombros

quando a borboleta voou de um dente-de-leão.

 

A pele abria-me pequenas janelas de luz

por onde o vento entrava devagar.

Aprendia a tocar um nome esquecido.

 

As raízes chamavam-me pelos pulsos

e cada passo deixava no chão

um eco de pétalas indecisas

metade silêncio

metade voo.

 

Não deixei pássaros ao abandono.

Foram eles que me ensinaram

a guardar o céu nos ossos

e a ouvir o que floresce

no lado secreto das horas.





BL

19.03.26






No lado de dentro

 

FOTO DE JL






No centro imóvel da noite
o corpo secreto
rumina florestas submersas
onde as folhas ardem em silêncio
e cada sombra aprende a vestir o rosto que perdeu.

 

Há um rumor de pedra líquida
a escorrer pelas veias do tempo
como se o mundo respirasse por fendas
e o sonho fosse apenas um animal cego
a procurar o seu nome dentro da terra.

 

E
quando o silêncio desperta
ergue do chão um farol de cinzas vivas
que atravessa o peito do mundo
como um pássaro
a recolher no seu voo
a última máscara do fogo.
 

 

E no fim do labirinto (in)quieto
surge um sopro de claridade
a dobrar o horizonte por dentro
como se o mundo fosse um navio vazio
onde a memória acende raízes de vento.





BL
19.03.26











terça-feira, 10 de março de 2026

A respiração do silêncio

 





A luz inclina‑se.

Rasga.

Abandona.

 

Olhos fechados

dentro de olhos fechados.

A suspensão do ouro.

 

Há um rumor de eternidade preso às paredes.

Um sopro que não sei se é meu

ou do tempo que me observa

imóvel

à espera de que eu me desfaça.




BL

10.03.26





 

 

 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

O ofício de desenhar o vento

  



 

 

Todos os nomes aprenderam a flutuar.
Desabitaram o teu rosto.
Pássaros que descobrem
que o céu é maior
do que o ninho.

 

Sobrou o silêncio.
Eco de água pousado na pele

e a memória
onde ainda te procuro

devagar.

 

As palavras
órfãs
deram às mãos o ofício de te desenhar.
Linha a linha
como se tentassem reconstruir o vento.

 

E
no entanto
há um lume que persiste.

Um rumor de marés [por dentro]
como se o teu nome [mesmo ausente]
continuasse a acender o mundo.










BL
05.03.26










sábado, 28 de fevereiro de 2026

Fé de areia

 


Foto de RL




Somos feitos de fendas silenciosas
essas que fingimos não ouvir
enquanto o mundo nos atravessa
como lâminas que aprenderam a ser vento.

Costuramos a pele com promessas gastas
na esperança de que algum fio invisível
nos devolva o contorno
que perdemos entre um gesto e o outro.

Guardamos crenças que mal cabem nas mãos
pequenos rituais de sobrevivência
que inventamos para admitir
que o incurável também pode florescer.

E quem somos?

Somos apenas ecos de água
correndo por dentro de pedras cansadas
à espera de que alguma maré distraída
nos devolva ao mar
de onde nunca deixámos de vir.




BL

28.02.26







domingo, 22 de fevereiro de 2026

Antes do sol


 

Foto de JL



Quando a manhã pousar nos teus ombros 

trarei comigo o rumor das folhas 

que dançam antes de o dia nascer.

 

Falarei da água quieta 

onde a lua se despede devagar 

e do brilho tímido 

que acorda nos telhados.

 

Contar-te-ei do voo lento das andorinhas 

que riscam o céu como promessas 

e do perfume leve 

que a noite esquece no ar.

 

E talvez então percebas 

que tudo o que renasce em ti 

também desperta em mim 

como um segredo que o sol 

ainda não aprendeu a guardar.




BL

22.02.26






sábado, 21 de fevereiro de 2026

Íngreme

 


Foto de JL



Avança sem bússola
um corpo que se adivinha apenas pelo rumor do chão.

 

Procura o intervalo onde a luz se desvia
e ali pousa
como quem aprende a demorar-se no indizível.

 

Sobe degraus que se desfazem
desce outros que nunca terminam
acolhe o silêncio que se esconde nas paredes gastas.

 

Não aceita promessas de passagem
nem o teatro de mãos

prontas a medirem afetos. Prefere o gesto que nasce sem testemunhas
a ternura que não exige troféus.

 

E assim segue.
Entre o quase e o ainda não
entre a sombra que o persegue
e a sombra que o protege.

 

Um itinerário que se inventa a cada passo
imprevisível
como quem aprende a existir

sem pedir licença.




BL

21.02.26





terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Poema

 








Um poema pode ser isso. Coisa que se apaga
enquanto indica o caminho

um risco de carvão
a tremer

no papel gasto.

 

Há quem o leia como mapa.
Ou quem o escute como vento.
Mas ele é somente

este gesto breve
de quem tenta acender um rumo
com a cinza que lhe sobra.

 

E
no entanto
mesmo a desfazer-se
mesmo a perder o contorno
ele aponta.

Para o que ainda resta
de quem o escreve.





BL

17.02.26