sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Por dentro da espessura da chuva





Nunca sei se é sobretudo o medo
ou o choro da noite
aquilo que sobressalta
os fiapos de luz por onde
indecisa
se vai movendo a madrugada.

Por dentro da espessura
da chuva
a rua
é um tempo de cicatrizes
renúncias humedecidas no chão
de vidas imaginárias
máscaras
mandatárias de histórias
que não são as suas.

Ajusto o corpo aos contornos das palavras. Abrigam-me
algures
nos vidros da janela
e acrescentam ao silêncio
que me sobra
o sonho
[ou desengano
das molduras de afetos
[e de ausências
que me cabem dentro dos dias.

Brígida Luz


4 comentários:

  1. A tua poesia tem sempre versos que me detêm como alguém se detém na presença da arte rara

    "Nunca sei se é sobretudo o medo
    ou o choro da noite
    aquilo que sobressalta"


    "Por dentro da espessura
    da chuva
    a rua
    é um tempo de cicatrizes
    renúncias humedecidas no chão"


    "Ajusto o corpo aos contornos das palavras. Abrigam-me
    algures"


    três exemplos de excelência (profundidade, sublimação) que são irrecusáveis
    e nos projectam para outra dimensão
    A da verdadeira Poesia

    Muito bom

    Bjo.

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  2. Mais um poema belo por excelência. Sublime, profundo até nas entrelinhas...
    Parabéns, por mais esta expressão de criatividade poética...

    Beijinhos e boa semana!!

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