quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Mecânica do abandono




Haverá 

talvez 

um avesso 
depois da boca.

 

Não um nome. Nem a sua cinza.

 

Apenas o rumor de qualquer coisa 

que continuou a cair
quando a queda já não tinha onde acontecer.

 

Os mortos conhecem pequenos mecanismos do escuro. 
Engrenagens de pó. Corredores sem espécie. 
Ferragens antigas  
trabalhando dentro da ausência.

 

E nós
distraídos pelo sangue 
chamamos vida 

ao intervalo entre dois esquecimentos.

 

Mas às vezes uma vibração atravessa a matéria. 
Não vem de fora. Não vem de ninguém. 
É o resto dos passos que perderam o corpo 
e continuam.

 

Como se o silêncio procurasse ainda 
uma forma de ruído.




BL

28.10.26






 


 

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