quinta-feira, 8 de abril de 2021

Procura nos lábios a maciez da palavra



 

Suspende a voz

porque não sabe o movimento

que pode ousar.


Procura nos lábios a maciez da palavra

mas tropeça num espaço

onde as consoantes resistem e cegam

a fluidez do gesto e das certezas escorregadias

nos entretantos.


Pouco a pouco percebe

que já não existe o tempo de

ajustar o olhar ao som multiplicado

do virar das páginas.


Para

quase sempre

antes que as palavras já não sejam

as dela

e o céu da boca se incendeie

na semente circular da dúvida circunstancial.


BL

08.04.21

domingo, 28 de março de 2021

Íntima.mente



 

Dentro de mim um caminho

entre as árvores e um aroma

de alfazema.

Nas mãos

um tempo de esperança fugaz

a tecer um desvio à beira

de abismos que passam em dias de musgo.

Na orla do rio

o verde da seiva

a moldar no peito

a luz

onde se abrigam lugares

de ventos generosos.


 28.03.25

BL

quarta-feira, 24 de março de 2021

Uma herança de sol


 

Esquece-se de existir

e

árvore vagarosa

recolhe

dorida

os equívocos que das tempestades advêm.


Desenha o seu nome nos pilares da casa

e neles

escreve poemas que lhe permitem cozinhar

nos dias

uns pedaços de luz

ou o tempo chuvoso

das horas.


Habitua a vida

ao sorriso da melancolia


abre a porta

ao silêncio da rua

e caminha no interior da primavera.


Dá a volta ao mundo

e volta para dentro

num regresso em desalinho.


Em voz baixinha

resta-lhe semear uma herança de sol

e reter as cores voláteis à superfície dos olhos.


 24.03.21

BL



segunda-feira, 15 de março de 2021

A geografia do vento

 




Escrevo.

As tuas palavras descem em silêncio

refúgio navegável

a planar como aves que não morrem. Os olhos

inteiros

nus como alma que nos abraça

o sorriso derramado na pele

música

luz.


E eu a atravessar um corpo em fuga

um tempo forrado de silêncio.

Tropeço em medos

acuso-me de sílabas transgressoras.


Decomponho os instantes

no avesso de todos os vendavais

diluídos numa aguarela de foz sem nascente.


Escrevo.

Escrevo-me

num tempo de pretéritos.

Em que não existe a ponte de regresso

à iluminada geografia do vento.


14.03.21

BL



sexta-feira, 5 de março de 2021

A mecânica das coisas




Saiu igual como num dia de sempre

noite de insónia

os olhos em nada

a vida sem remédio

apagada.


A portada da janela entreaberta

na penumbra o espaço sem contornos

a multiplicação de sons de longe

o zumbido da ilusão

de outras páginas.


Empurra os gestos do regresso

sabe de cor a porta a chave

as luzes a mecânica das coisas.

Decalcadas.


Silêncio.

A voz não cambaleava.


Saiu só. Às voltas. Às voltas.

Sem nada. Mais.


BL

05.03.21



domingo, 28 de fevereiro de 2021

Neste lugar de silêncio


 



O chão é agora uma progressão

de passos vertiginosos

ecos errantes de asas e árvores

cenário de esquecimentos fragmentados.


Mas da semântica de um rosto resgato

memórias de luz e de sombras

caminhos de um tempo solar em que os nomes

se encontraram.


Neste lugar de silêncio as mãos sonham ainda marés

que atravessam esquinas de pontes maiores


transpondo distâncias cumpridas

de renúncias.

Chamamentos adiados que sempre

se souberam.


BL

28.02.21


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Debruçamos a casa sobre o rio


 

Debruçamos a casa sobre o rio

e dói o ar a cada inspiração

quando

ao fundo

todas as coisas atravessam a noite.


Estendemos as mãos e traçamos nomes

na superfície das águas


onde agarramos os olhos

para nos podermos enganar.


Por aqui

morrem os poetas e escrevemos nos rostos

o tempo que somos.


Entardecemos em forma de rocha

pulsamos em palavras inocentes

e doces que nos sobem aos olhos

feitas de coração.


Recolhemo-nos em lugares circunscritos

ao ventre transversal que geme

no degelo dos dias.


BL

10.02.21