quinta-feira, 20 de março de 2025

Um tempo a moldar o rio

 


Fluem os dias entre margens invisíveis

artesãs de memórias

raízes de um tempo a moldar o rio.


Dança a eternidade no silêncio do horizonte

e

em frágeis instantes

recolhemos sílabas

como folhas caídas

a aceitarem o abraço frio da corrente.


As águas moldam as passadas da rocha

enquanto a corrente carrega sonhos sem corpo

o céu chora sobre a terra

e o reflexo do mundo

torna leve

o peso de existir.





BL

20.03.25







quarta-feira, 19 de março de 2025

Ecos de ti

 




No íntimo segredo da palavra

hei de erguer um templo

de sílabas líquidas

onde ecos de ti desaguam em marés

eternas.



Caminharei

descalça

pelas veias da noite

semearei constelações

nas frestas do silêncio

e abraçarei o lume que deixaste no ar.



Porque tu és o mapa

e a bússola

o ciclo das glicínias a cada primavera

e o fôlego

que move os ventos do poema.   



BL

19.03.25









domingo, 9 de março de 2025

A liquidez da noite

 








As horas amargas aguardam
as árvores de pé

ou os livros que nos 
ensinem letras 
pacientes.

A cumplicidade da terra espalha 
a dor
a chuva risca rotas
de liberdade
o silêncio entrelaça histórias
de sonhos 
e saudade.

Vemos a lentidão da vida
a alastrar
nas linhas das mãos.

As horas deslizam 
com a mesma sapiência
de quem conhece o destino.

É noite.
Entranha-se a liquidez do poema
como folhas na corrente
das águas.

Apenas se ergue
o sussurro dos deuses
para quem os quiser
ouvir.



BL
09.03.25




quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

As letras atravessam o fim da página

 






Abriu-se o barro
à mulher vestida de negro.
E a luz fluiu 
na sua direção.

( Con ) fundiam-se 
o barro e o céu
delineavam-se asas em lâminas de fogo.

Enganava-se a morte
escrevendo em cinzas
poemas de amor com sabor
a pássaros caídos da voz.

Fechou-se o tempo
as letras atravessam o fim da página.

Queimam lentamente
as palavras
na síntese dolorosa de todas as coisas.

Cada vez mais perto
da ilusão dos lábios.






BL
28.01.25







terça-feira, 28 de janeiro de 2025

A pele húmida da solidão

 




De novo a acidez 
da pedra assoma
à superfície das águas.

Adormecera
na contemplação da cor
de um céu a escoar raízes

enquanto os ossos
roídos de dor
escondiam a explosão das veias
a correrem
no sentido de pedaços e sons
de um fundo azul do tempo.

Existe agora
uma renúncia anunciada

extingue-se no olhar
a porta onde
a vida atravessa a pele húmida da solidão.



BL
28.01.25










sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

A lucidez do azul

 




Falaste-me do cansaço da pedra
das escadas de neblina magoada
e triste
da árvore a tombar
lentamente em janelas
de solidão.

Preciso lembrar-te
a sede da pele
a renovação dos pássaros
um fio de luz
em nuvens suspensas da manhã.

Não rasgues os alinhavos
da memória
não apagues os diálogos
do tempo.

Há de um voo pousar no poema
e acertar a lucidez do azul
sobre a cegueira do silêncio.



BL

10.01.25
















quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Adília Lopes

 




" A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença."


 ADÍLIA LOPES (1960-2024)