quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Campo de ausência





FOTO DE JL


Claridade em suspensão.

Nada se fixa.

Tudo é fluxo

a atravessar o ar.


Partículas de ti

partículas de mim

sem direção

sem nome.


Tudo é deslocação

num campo sem tempo.


O dia não acontece.

A noite  não se recolhe.

Apenas um brilho imóvel

a oscilar

dentro do vazio.


O que se dá

o que se recebe

movimentos ínfimos

desvios quase invisíveis na matéria clara.


E todos os dias

todos

são o mesmo clarão

contínuo

a tentar permanecer.



BL

02.09.26





sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Cartografia dos sítios do sol








Há sempre flores
que se abrem onde não esperamos
mesmo no quarto onde o corpo aprende a senoite

ou

às vezes

é apenas uma janela
que não sabe fechar
o que sente

nem sabe o nome
das flores.


Então
recolhe as pétalas no enigma do silêncio

legado da permanência de sílabas
adormecidas no fundo de uma lua

até que a rota dos pássaros
saiba explicar
os lugares que abrem para sempre

os sítios do sol
íntima geografia da inocência das manhãs.



BL
21.08.26








terça-feira, 18 de agosto de 2026

Noturno em concha




No sopro que antecede o escuro

uma vertigem de escarpas. E o vento

sem aviso

desce pela espinha

no silêncio que precede o arrepio.


Atravessa-me um fio de sal

trazendo o rumor de plantas que sobrevivem à aridez

e se erguem

obstinadas

sobre o mar

que insiste em não dormir.


Fico à beira das vozes onde o chão

se torna uma promessa frágil

e deixo que a mão

em concha

derrame o que o medo não consegue guardar.


A noite

estendida como um acorde lento

desenha mapas que não conheço.


E enquanto a insónia se aproxima

visto um casaco de constelações

sobre o cansaço das preces

aprendendo devagar a atravessar a escuridão.



BL

18.08.26







segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Respiração de falésias





Existem presenças que se apagam devagar
como quem limpa o pó de uma memória antiga
sem medo do que fica a brilhar
por baixo.

Haverá sempre algo que nos resguarda da erosão do tempo.


Mesmo quando a cosmética
é apenas um gesto contra o envelhecimento
que insiste em pousar
nas falésias da alma. 


Há um espaço por acabar
um livro que respira nas margens
uma música
que se inclina sob a voz rouca
dos sonhos que ainda não desistiram.

E nesse lugar
entre o que se perdeu
e o que permanece

desce um céu sem nome
uma claridade que desfaz distâncias
como se a loucura fosse apenas
o modo mais íntimo de permanecer viva.





BL
17.08.26









quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Quando nos afastamos de nós




Nesta soleira adormecida das águas

escrevo-te a tarde do poema

as árvores encostadas aos dias

adiados

como se entregasse os olhos

ao voo das palavras.


O vento sacode

as derradeiras sombras

incontidas e vorazes

a desviarem o caminho do sol que nos habita o horizonte.


Escrevo-te

os lugares das gaivotas

na vertigem desencontrada das marés

quando nos afastamos de nós

para mar nenhum.



BL

13.08.26






quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Inconsequências do lume





O lume que deixaste
à beira do poema

ainda procura
o corpo que o sonhou.

Há cinzas que guardam
o eco das gaivotas

como se cada asa soubesse
traduzir
o relâmpago.

Um trinado
distante
atravessa o silêncio
e instala-se no intervalo
entre duas mãos que não souberam ser eternidade.

As giestas
verdes de espanto
inclinam-se para o que não se vê.

Um sopro
talvez
ou a memória de uma luz que não se apaga.




BL
12.08.26





terça-feira, 11 de agosto de 2026

Luz oblíqua

 



Às vezes

a dor encosta-se ao voo interrompido

de pássaros que perderam o mapa das estações.


Lado a lado

desatamos os nós da noite

e deixamos que as vozes se tornem claridade

mesmo quando a inquietação nos atravessa.


As palavras arrastam um brilho clandestino

na dobra inquieta do silêncio.


Nas paredes

o lume hesita.

Um traço

talvez

ou a vibração de uma luz que não se fixa.


A linha do tempo inclina-se

imprevisível

como se procurasse o gesto que a inventou.


E quando o horizonte nos toca

mesmo que de leve

sabemos que a carícia é também promessa.

A de continuar a conceber a luz

onde o mundo insiste em ser penumbra.



BL

11.08.26







quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Origem


 



Tanto quiseste

que o querer deixou de ser verbo

e tornou-se substância. Uma matéria primeira

anterior ao corpo

quando o tempo ainda não sabia dizer-se.


Quiseste ser poeta

mas nesse gesto nasceste antes da própria língua

como se o mundo esperasse

que o teu olhar 

lhe desse forma.


Quiseste ser palavra

e a palavra

ao reconhecer-te

abriu um espaço entre o que existe

e o que insiste em existir.


As raízes do teu sangue pediam tinta

eram linhas de força

tentativas de tocar o invisível

com a fragilidade de um gesto humano.


E no delírio do verso principal

onde a imagística se descola da temporalidade

o poema converte‑se no próprio olhar.

Uma máquina que não gera imagens

mas o princípio que as antecede.


Porque

aos poetas

não nascem miradouros no olhar.


Aos poetas

nasce o próprio olhar.


E o mundo

ao deixar‑se atravessar por ele

descobre que também pode ser poema.




BL

05.08.26









terça-feira, 4 de agosto de 2026

Cruzamentos de luz






Há gestos que não precisam

de voz

para serem escutados.


Basta que alguém os reconheça 

e

nesse instante

tornam-se presença.


Como quem pousa um pensamento

na palma da tua mão.



BL

04.08.26






Há sempre outro poema à espera





Se no teu verso o mundo hesita

eu venho ser o passo seguinte

um sopro que se encosta ao teu.


Se falas da noite

trago-te o lume.

Se falas de mar

ofereço-te a margem.


Se o teu poema é somente um murmúrio

o meu é a voz

que nasce dentro dele.


Porque a tua palavra abriu o caminho.

E a minha

agora

caminha a teu lado

para te encontrar.



BL

04.08.26








Aura






Há palavras que soam a brisa

não pelo que dizem

mas pelo modo como chegam


como pousam a mão no ombro

e

por um instante

fazem o mundo parar.


Ficam ali

como um resto de luz

que permanece

mesmo depois de o silêncio voltar.



BL

04.08.26










quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sementes e janelas





Escreves prata

e o brilho inquieto permanece nas mãos

como um eco daquilo que foge

sempre que tentamos tocá‑lo.


Existem fragmentos que não se deixam recolher.

Correm.

Como se a pele fosse um rio

a descobrir a sua própria direção.


As sombras que inventas não escurecem. Florescem.

São sementes insubmissas ao silêncio

a procurarem janelas onde a primavera ainda respira.


Falas de olhos

onde o tempo se perdeu.


Mas talvez o tempo seja apenas um viajante distraído

que regressa

sempre que a maré o chama.


E

se as estradas são pólen de lua cheia

cada passo é já um astro

a desdobrar horizontes sobre o mar.




BL

30.07.26






terça-feira, 28 de julho de 2026

Umbral

 




Espero pela última chave

aquela que não abre portas

mas acende corredores dentro de mim.


Há fechaduras que não são de ferro.

São de sombra.


E

às vezes

o que falta não é a chave.

É a coragem para chegar à porta.



BL

28.07.26




terça-feira, 21 de julho de 2026

Entre catedrais e ravinas






 Existem silêncios que se erguem

como catedrais.

Vastos

vertiginosos

onde a alma se acende em claridade

e cada pensamento encontra o seu altar.


Mas há outros que nos rasgam.

Fendas antigas

onde ecoa apenas o peso do impronunciável

monólogos que nos empurram para dentro de ravinas sem nome.


São silêncios em que o mundo se retrai

os poentes afastam-se

e a noite aprende a falar por nós

com uma voz que não escolhemos.


Ainda assim

caminhamos entre eles.


Entre a luz que nos amplia

e a sombra que nos comprime

sabendo que cada abismo

pode ser também um regresso.


Porque

às vezes

o silêncio fere.

Mas outras vezes

devolve.


E

no seu fundo inesperado

uma claridade pequena insiste em não desaparecer.




BL

21.07.26





segunda-feira, 20 de julho de 2026

Em pretérito





Pergunto-me quem fui.


E o silêncio abre-se

lento

como se a memória tivesse de atravessar 

esta neblina matutina

para encontrar o próprio rosto.


Fico muda

com o tempo a pousar-me nos ombros

sem que eu entenda

se aquilo que ele carrega

será leme

ou armadura.


A resposta cresce

orgânica

num verbo que respira fundo

antes de existir


enroscado na cegueira de um nome

que só sabe conjugar-se em pretéritos imperfeitos.


E há uma baba de presunção

em todos os desígnios.

Uma vontade

de fixar o que escapa

de ordenar o que nunca Se deixou ordenar.


Talvez por isso

permaneço quieta.


Porque ainda não aprendi

a escrever o que fui


no pretérito perfeito

de palavras convergentes.



BL

20.07.26








sexta-feira, 17 de julho de 2026

Barco de luzes mansas

 



 

Olha este silêncio que te guardo no peito

um remanso tecido

de esperas brandas

e o meu abraço.

 

Olha

há rios de sombra doce

nos meus ombros

e um farol aceso

para o teu passo mais cansado.

 

E deixo-te um fruto

uma concha de lua

um sopro de brisa

para embalar o que te dói.

 

Este silêncio

este ninho de instantes

das mais líquidas auroras.

 

E um gesto e um afago

para que o amanhã

desperte

devagarinho.





BL

17.07.26




segunda-feira, 13 de julho de 2026

Da pele, o eco

 

 



O tempo vagaroso

na demorada despedida das mãos.

 

Tudo o que fica é esse calor que insiste

um ténue eco de pele

a procurar ainda a forma da outra.

 

Há um silêncio que se estende

o mundo respira devagar

com medo de interromper o instante que se desfaz.

 

Imóveis

sabemos que partir é sempre um gesto incompleto.

Algo fica preso

no espaço que se abre quando deixamos de tocar.

Um resto de luz a acompanhar o passo

como se a memória das mãos ainda caminhasse connosco.



BL

13.07.26







sábado, 11 de julho de 2026

O gesto do vento

 






Há um vulto que atravessa a noite

como quem decifra o silêncio das pedras.

Nada temas.

 

Um dia saberás desfazer a direção das chuvas

inclinar o vento

com o gesto de um pensamento

 

abrir o véu onde a valsa das corujas

escreve o destino das sílabas.

 

Nos becos de neblina

os pássaros traçam mapas invisíveis

para lugares que só existem

quando alguém os sonha.

 

E tu

que recolhes ecos como quem recolhe sementes

descobrirás que cada sombra

é apenas uma luz que ainda não encontrou horizonte.




BL

11.07.26


terça-feira, 7 de julho de 2026

A tua voz

 





Há um pássaro que pousa sempre no mesmo ramo

quando penso em ti.

 

Não canta.

Inclina a cabeça

escutando o que falta.

 

O vento sopra-me um gesto que reconheço.

Quase impercetível

como o cuidado que deixavas

nas coisas pequenas.

 

E um fio invisível atravessa-me o peito

estende-se em direção ao céu.

É uma raiz suspensa

a crescer ao contrário

a procurar-te no alto.

 

Existe um murmúrio

na pulsação da primeira estrela de cada noite.

 

Pronuncia o meu nome

sem voz

 

como se o tivesses guardado num lugar

onde só eu escuto.

 

A saudade é uma jarra partida

que continua a guardar água.

Não sei como

não sei porquê

 

mas cada gota que não cai

é a tua mão

ainda a segurar.

 

E eu caminho assim

entre sinais que o mundo inventa

para que eu não te perca

 

porque és o abrigo mais antigo

que o meu coração conhece.




BL

07.07.26




sexta-feira, 3 de julho de 2026

Ecos de vozes livres

 






Árvores despidas transitam entre o sangue

e o nevoeiro.

E eu pergunto-me como se sossegam estes olhos

sem navio.

 

Sobrevive um caminho para o mar

e aí recolho os verbos

que pairam

ainda

sobre a espuma das marés.

 

Relembram

[ os verbos ]

os nomes de coisas transitórias

breves aparições

ecos de vozes livres

indomáveis

como um sopro silábico de probabilidades

sem pontuação.




BL

03.07.26






terça-feira, 30 de junho de 2026

Quando o voo é ausência

 





Quando o voo é ausência

e memória.

Cai no poema o som aflito

do restolho ofegante.

Um eco mordido pelo medo da página onde o início

é regresso.

Queimo fotografias guardadas

no interior do olhar

agarro com as duas mãos as portas do futuro.

E deixo que o vento me redesenhe os contornos

e em cada sopro invento a palavra

que ainda não encontrou o corpo onde pousar.



BL

30.06.26