segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Respiração de falésias





Existem presenças que se apagam devagar
como quem limpa o pó de uma memória antiga
sem medo do que fica a brilhar
por baixo.

Haverá sempre algo que nos resguarda da erosão do tempo.


Mesmo quando a cosmética
é apenas um gesto contra o envelhecimento
que insiste em pousar
nas falésias da alma. 


Há um espaço por acabar
um livro que respira nas margens
uma música
que se inclina sob a voz rouca
dos sonhos que ainda não desistiram.

E nesse lugar
entre o que se perdeu
e o que permanece

desce um céu sem nome
uma claridade que desfaz distâncias
como se a loucura fosse apenas
o modo mais íntimo de permanecer viva.





BL
17.08.26









quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Quando nos afastamos de nós




Nesta soleira adormecida das águas

escrevo-te a tarde do poema

as árvores encostadas aos dias

adiados

como se entregasse os olhos

ao voo das palavras.


O vento sacode

as derradeiras sombras

incontidas e vorazes

a desviarem o caminho do sol que nos habita o horizonte.


Escrevo-te

os lugares das gaivotas

na vertigem desencontrada das marés

quando nos afastamos de nós

para mar nenhum.



BL

13.08.26






quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Inconsequências do lume





O lume que deixaste
à beira do poema

ainda procura
o corpo que o sonhou.

Há cinzas que guardam
o eco das gaivotas

como se cada asa soubesse
traduzir
o relâmpago.

Um trinado
distante
atravessa o silêncio
e instala-se no intervalo
entre duas mãos que não souberam ser eternidade.

As giestas
verdes de espanto
inclinam-se para o que não se vê.

Um sopro
talvez
ou a memória de uma luz que não se apaga.




BL
12.08.26





terça-feira, 11 de agosto de 2026

Luz oblíqua

 



Às vezes

a dor encosta-se ao voo interrompido

de pássaros que perderam o mapa das estações.


Lado a lado

desatamos os nós da noite

e deixamos que as vozes se tornem claridade

mesmo quando a inquietação nos atravessa.


As palavras arrastam um brilho clandestino

na dobra inquieta do silêncio.


Nas paredes

o lume hesita.

Um traço

talvez

ou a vibração de uma luz que não se fixa.


A linha do tempo inclina-se

imprevisível

como se procurasse o gesto que a inventou.


E quando o horizonte nos toca

mesmo que de leve

sabemos que a carícia é também promessa.

A de continuar a conceber a luz

onde o mundo insiste em ser penumbra.



BL

11.08.26







quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Origem


 



Tanto quiseste

que o querer deixou de ser verbo

e tornou-se substância. Uma matéria primeira

anterior ao corpo

quando o tempo ainda não sabia dizer-se.


Quiseste ser poeta

mas nesse gesto nasceste antes da própria língua

como se o mundo esperasse

que o teu olhar 

lhe desse forma.


Quiseste ser palavra

e a palavra

ao reconhecer-te

abriu um espaço entre o que existe

e o que insiste em existir.


As raízes do teu sangue pediam tinta

eram linhas de força

tentativas de tocar o invisível

com a fragilidade de um gesto humano.


E no delírio do verso principal

onde a imagística se descola da temporalidade

o poema converte‑se no próprio olhar.

Uma máquina que não gera imagens

mas o princípio que as antecede.


Porque

aos poetas

não nascem miradouros no olhar.


Aos poetas

nasce o próprio olhar.


E o mundo

ao deixar‑se atravessar por ele

descobre que também pode ser poema.




BL

05.08.26









terça-feira, 4 de agosto de 2026

Cruzamentos de luz






Há gestos que não precisam

de voz

para serem escutados.


Basta que alguém os reconheça 

e

nesse instante

tornam-se presença.


Como quem pousa um pensamento

na palma da tua mão.



BL

04.08.26






Há sempre outro poema à espera





Se no teu verso o mundo hesita

eu venho ser o passo seguinte

um sopro que se encosta ao teu.


Se falas da noite

trago-te o lume.

Se falas de mar

ofereço-te a margem.


Se o teu poema é somente um murmúrio

o meu é a voz

que nasce dentro dele.


Porque a tua palavra abriu o caminho.

E a minha

agora

caminha a teu lado

para te encontrar.



BL

04.08.26








Aura






Há palavras que soam a brisa

não pelo que dizem

mas pelo modo como chegam


como pousam a mão no ombro

e

por um instante

fazem o mundo parar.


Ficam ali

como um resto de luz

que permanece

mesmo depois de o silêncio voltar.



BL

04.08.26










quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sementes e janelas





Escreves prata

e o brilho inquieto permanece nas mãos

como um eco daquilo que foge

sempre que tentamos tocá‑lo.


Existem fragmentos que não se deixam recolher.

Correm.

Como se a pele fosse um rio

a descobrir a sua própria direção.


As sombras que inventas não escurecem. Florescem.

São sementes insubmissas ao silêncio

a procurarem janelas onde a primavera ainda respira.


Falas de olhos

onde o tempo se perdeu.


Mas talvez o tempo seja apenas um viajante distraído

que regressa

sempre que a maré o chama.


E

se as estradas são pólen de lua cheia

cada passo é já um astro

a desdobrar horizontes sobre o mar.




BL

30.07.26






terça-feira, 28 de julho de 2026

Umbral

 




Espero pela última chave

aquela que não abre portas

mas acende corredores dentro de mim.


Há fechaduras que não são de ferro.

São de sombra.


E

às vezes

o que falta não é a chave.

É a coragem para chegar à porta.



BL

28.07.26




terça-feira, 21 de julho de 2026

Entre catedrais e ravinas






 Existem silêncios que se erguem

como catedrais.

Vastos

vertiginosos

onde a alma se acende em claridade

e cada pensamento encontra o seu altar.


Mas há outros que nos rasgam.

Fendas antigas

onde ecoa apenas o peso do impronunciável

monólogos que nos empurram para dentro de ravinas sem nome.


São silêncios em que o mundo se retrai

os poentes afastam-se

e a noite aprende a falar por nós

com uma voz que não escolhemos.


Ainda assim

caminhamos entre eles.


Entre a luz que nos amplia

e a sombra que nos comprime

sabendo que cada abismo

pode ser também um regresso.


Porque

às vezes

o silêncio fere.

Mas outras vezes

devolve.


E

no seu fundo inesperado

uma claridade pequena insiste em não desaparecer.




BL

21.07.26





segunda-feira, 20 de julho de 2026

Em pretérito





Pergunto-me quem fui.


E o silêncio abre-se

lento

como se a memória tivesse de atravessar 

esta neblina matutina

para encontrar o próprio rosto.


Fico muda

com o tempo a pousar-me nos ombros

sem que eu entenda

se aquilo que ele carrega

será leme

ou armadura.


A resposta cresce

orgânica

num verbo que respira fundo

antes de existir


enroscado na cegueira de um nome

que só sabe conjugar-se em pretéritos imperfeitos.


E há uma baba de presunção

em todos os desígnios.

Uma vontade

de fixar o que escapa

de ordenar o que nunca Se deixou ordenar.


Talvez por isso

permaneço quieta.


Porque ainda não aprendi

a escrever o que fui


no pretérito perfeito

de palavras convergentes.



BL

20.07.26








sexta-feira, 17 de julho de 2026

Barco de luzes mansas

 



 

Olha este silêncio que te guardo no peito

um remanso tecido

de esperas brandas

e o meu abraço.

 

Olha

há rios de sombra doce

nos meus ombros

e um farol aceso

para o teu passo mais cansado.

 

E deixo-te um fruto

uma concha de lua

um sopro de brisa

para embalar o que te dói.

 

Este silêncio

este ninho de instantes

das mais líquidas auroras.

 

E um gesto e um afago

para que o amanhã

desperte

devagarinho.





BL

17.07.26




segunda-feira, 13 de julho de 2026

Da pele, o eco

 

 



O tempo vagaroso

na demorada despedida das mãos.

 

Tudo o que fica é esse calor que insiste

um ténue eco de pele

a procurar ainda a forma da outra.

 

Há um silêncio que se estende

o mundo respira devagar

com medo de interromper o instante que se desfaz.

 

Imóveis

sabemos que partir é sempre um gesto incompleto.

Algo fica preso

no espaço que se abre quando deixamos de tocar.

Um resto de luz a acompanhar o passo

como se a memória das mãos ainda caminhasse connosco.



BL

13.07.26







sábado, 11 de julho de 2026

O gesto do vento

 






Há um vulto que atravessa a noite

como quem decifra o silêncio das pedras.

Nada temas.

 

Um dia saberás desfazer a direção das chuvas

inclinar o vento

com o gesto de um pensamento

 

abrir o véu onde a valsa das corujas

escreve o destino das sílabas.

 

Nos becos de neblina

os pássaros traçam mapas invisíveis

para lugares que só existem

quando alguém os sonha.

 

E tu

que recolhes ecos como quem recolhe sementes

descobrirás que cada sombra

é apenas uma luz que ainda não encontrou horizonte.




BL

11.07.26


terça-feira, 7 de julho de 2026

A tua voz

 





Há um pássaro que pousa sempre no mesmo ramo

quando penso em ti.

 

Não canta.

Inclina a cabeça

escutando o que falta.

 

O vento sopra-me um gesto que reconheço.

Quase impercetível

como o cuidado que deixavas

nas coisas pequenas.

 

E um fio invisível atravessa-me o peito

estende-se em direção ao céu.

É uma raiz suspensa

a crescer ao contrário

a procurar-te no alto.

 

Existe um murmúrio

na pulsação da primeira estrela de cada noite.

 

Pronuncia o meu nome

sem voz

 

como se o tivesses guardado num lugar

onde só eu escuto.

 

A saudade é uma jarra partida

que continua a guardar água.

Não sei como

não sei porquê

 

mas cada gota que não cai

é a tua mão

ainda a segurar.

 

E eu caminho assim

entre sinais que o mundo inventa

para que eu não te perca

 

porque és o abrigo mais antigo

que o meu coração conhece.




BL

07.07.26




sexta-feira, 3 de julho de 2026

Ecos de vozes livres

 






Árvores despidas transitam entre o sangue

e o nevoeiro.

E eu pergunto-me como se sossegam estes olhos

sem navio.

 

Sobrevive um caminho para o mar

e aí recolho os verbos

que pairam

ainda

sobre a espuma das marés.

 

Relembram

[ os verbos ]

os nomes de coisas transitórias

breves aparições

ecos de vozes livres

indomáveis

como um sopro silábico de probabilidades

sem pontuação.




BL

03.07.26






terça-feira, 30 de junho de 2026

Quando o voo é ausência

 





Quando o voo é ausência

e memória.

Cai no poema o som aflito

do restolho ofegante.

Um eco mordido pelo medo da página onde o início

é regresso.

Queimo fotografias guardadas

no interior do olhar

agarro com as duas mãos as portas do futuro.

E deixo que o vento me redesenhe os contornos

e em cada sopro invento a palavra

que ainda não encontrou o corpo onde pousar.



BL

30.06.26




segunda-feira, 29 de junho de 2026

Nas margens da metáfora

 





Quantas vezes morremos

no paradoxo de palavras onde nos abrigamos.

 

Às vezes

renascemos

clandestinos

no intervalo ínfimo entre duas sílabas

que não ousámos dizer.

 

Talvez a morte seja

um desvanecer

l e n t o

 

nas margens da metáfora.

Um regressar

ao barro primordial

onde todas as imagens se confundem.

 

E

no instante em que tudo

parece ruir

poderá uma palavra pequena abrir

uma fenda mínima no escuro

e deixar entrar um

                               eco

 

para que o corpo permaneça inteiro

a arrastar

para __________________________________longe

a voz das cinzas.




BL

29.06.26




sábado, 27 de junho de 2026

Um sopro de claridade

 





Há um corpo que se move

devagar.

Uma pausa

como se estivesse a meio

de uma respiração.

 

O ritmo de um início

que não começa

 

um passo que ainda

não pousou.

 

Há um gesto

quase fenda

uma porta entreaberta.

Textura rarefeita

 

um passo invisível

antes do primeiro.

 

Há qualquer coisa simples

uma espécie de claridade.

 

Ou uma espécie de segredo

daqueles que só o verão entende.

 

Há um silêncio

a ressoar.

Um sopro de um lugar anterior

um fragmento do que poderia ser.

 

Um fio do infinito

a continuar a mover-se

sem ruído.




BL

27.06.26





sábado, 20 de junho de 2026

E

 





E

de repente

surpreende-me a distância.

 

Recortes que fabriquei no interior

de uma cegueira húmida

 

como se

no lado de fora da chuva

existissem probabilidades de veludo

na pele do verão.




BL

20.06.26





sábado, 13 de junho de 2026

O nome da água

 






As tuas palavras
ergueram um quarto de neblina
e eu entro descalça
para não acordar o pó.

 

No centro
um bibelô partido
brilha

como se guardasse
o último resto de sol.

 

Há fantasmas que passam.
Não assombram.
Medem o silêncio

palmo a palmo
com as mãos abertas.

 

As pedras que viraste
ainda respiram.

Debaixo delas
um fio de água
procura o seu próprio nome.

 

E quando escondeste
as interrogações
num lugar onde a sílaba
não ousa entrar

o espaço abriu‑se
numa dobra invisível


e ali ficou suspenso
o que não precisa
de resposta.




BL

13.06.26