quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Origem


 



Tanto quiseste

que o querer deixou de ser verbo

e tornou-se substância. Uma matéria primeira

anterior ao corpo

quando o tempo ainda não sabia dizer-se.


Quiseste ser poeta

mas nesse gesto nasceste antes da própria língua

como se o mundo esperasse

que o teu olhar 

lhe desse forma.


Quiseste ser palavra

e a palavra

ao reconhecer-te

abriu um espaço entre o que existe

e o que insiste em existir.


As raízes do teu sangue pediam tinta

eram linhas de força

tentativas de tocar o invisível

com a fragilidade de um gesto humano.


E no delírio do verso principal

onde a imagística se descola da temporalidade

o poema converte‑se no próprio olhar.

Uma máquina que não gera imagens

mas o princípio que as antecede.


Porque

aos poetas

não nascem miradouros no olhar.


Aos poetas

nasce o próprio olhar.


E o mundo

ao deixar‑se atravessar por ele

descobre que também pode ser poema.




BL

05.08.26









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