quarta-feira, 8 de abril de 2026

Corpo da distância

 






Desde então

espero pela súbita janela

da insónia

 

para que do fundo do armário

acorde um rio invisível

labirinto de hipóteses

sons avulsos a subirem até mim.

 

Ultrapassa-me a lonjura

concreta e nítida

passa por mim um tempo líquido

a navegar memórias.

 

Fala da erosão da pedra

de metáforas com cheiro a terra

das raízes subterrâneas das estações

da limpidez da eternidade.

 

Tocada pela seiva vagarosa

guardo o corpo da distância

a reconhecer

no escuro

a forma secreta daquilo que permanece.




BL

08.04.26






terça-feira, 7 de abril de 2026

Por cima do teu nome

 





Não entendes o que eles dizem
e eles não param para te escutar.
As suas palavras passam por ti


lâminas cegas
cortam [sem intenção]
ferem [sem saberem.]

 

O abandono instala-se devagar
água fria a fluir nas tuas veias.


Os gestos
os rostos
o próprio ar
deixam de te reconhecer.

 

A raiva cresce onde a voz não chega.
Há um animal fechado
a roer-te o peito por dentro
a pedir saída
a pedir mundo
a pedir que alguém te veja
antes que te desvaneças.

 

E resistes.
Chama frágil
clandestina
que insiste em não morrer.
Um lume que não aquece
ilumina
para que não te percas de ti.

 

E assim segues.
Entre o que te falta
e o que te sobra.
Entre o que te negam
e o que ainda guardas.

 

Um corpo que avança
mesmo quando o caminho
não lhe pertence.

 

Um silêncio que resiste
mesmo quando ninguém
o sabe escutar.




BL

07.04







segunda-feira, 6 de abril de 2026

Corpo à margem

 






Há um lugar onde o mundo não chega
um vão de sombra
onde os nomes se desfazem
antes de tocarem a boca.

 

Ali

o silêncio tem ossos
e range.
A pele aprende a encolher-se
para caber no que lhe negam.

 

As ruas passam ao lado.
Rios que recusam o náufrago.

 

Há rostos que não olham.
Portas
a selarem o ar.

 

Ao fundo da escuridão
cresce um rumor de gente
que desaprendeu o gesto de existir.
Corpos suspensos
como se a vida fosse um corredor
onde nunca se entra.

 

E há um frio
a vir do lugar exato onde o mundo decide
quem fica dentro
e quem se apaga.




BL

06.04.26





domingo, 5 de abril de 2026

A máquina de café pergunta por ti

 





A máquina de café pergunta por ti
no brilho elétrico da madrugada
o vapor sobe como um sinal
um código secreto na luz azulada.

Pergunta por ti tic‑tac
coração mecânico
como se o metal soubesse
o que ficou por dizer.

E eu danço na cozinha
entre sombras e refrões
a saudade entra no compasso
a memória pulsa nos botões.

A máquina insiste
ritmo quente repetido
como se cada gota fosse
um eco do teu passo perdido.

E eu respondo ao som
num sussurro que ninguém ouve
talvez voltes talvez entres
talvez o café volte a ser encontro.

Até lá
ela pergunta por ti
e eu deixo a música levar
o que ainda vibra em mim.




BL

05.04.26










sexta-feira, 3 de abril de 2026

O lugar onde estás

 








A manhã abre-se
devagar
e a luz pousa onde estivemos.

 

Presto atenção ao silêncio
à respiração suspensa
num redemoinho de olhares.

 

Há lágrimas que vêm de longe
de outros corpos
de outras tentativas de amar
quando não se pôde.

 

E
ainda assim
a memória insiste em povoar-se
das imagens que escolhemos ver.

 
 
As pedras são apenas pedras
a água apenas água
os ramos apenas ramos
e
no entanto
tudo treme
com a sombra do que sentimos.

 

A claridade levanta-me
desfaz o último resto de noite
e os meus olhos abrem-se
outra vez
para o lugar onde estás.

 

Como se o mundo inteiro
nascesse desse gesto.





BL

03.04.26