sábado, 27 de junho de 2026

Um sopro de claridade

 




Há um corpo que se move

devagar.

Uma pausa

como se estivesse a meio

de uma respiração.

 

O ritmo de um início

que não começa

 

um passo que ainda

não pousou.

 

Há um gesto

quase fenda

uma porta entreaberta.

Textura rarefeita

 

um passo invisível

antes do primeiro.

 

Há qualquer coisa simples

uma espécie de claridade.

 

Ou uma espécie de segredo

daqueles que só o verão entende.

 

Há um silêncio

a ressoar.

Um sopro de um lugar anterior

um fragmento do que poderia ser.

 

Um fio do infinito

a continuar a mover-se

sem ruído.




BL

27.06.26





sábado, 20 de junho de 2026

E

 




E

de repente

surpreende-me a distância.

 

Recortes que fabriquei no interior

de uma cegueira húmida

 

como se

no lado de fora da chuva

existissem probabilidades de veludo

na pele do verão.




BL

20.06.26





sábado, 13 de junho de 2026

O nome da água

 






As tuas palavras
ergueram um quarto de neblina
e eu entro descalça
para não acordar o pó.

 

No centro
um bibelô partido
brilha

como se guardasse
o último resto de sol.

 

Há fantasmas que passam.
Não assombram.
Medem o silêncio

palmo a palmo
com as mãos abertas.

 

As pedras que viraste
ainda respiram.

Debaixo delas
um fio de água
procura o seu próprio nome.

 

E quando escondeste
as interrogações
num lugar onde a sílaba
não ousa entrar

o espaço abriu‑se
numa dobra invisível


e ali ficou suspenso
o que não precisa
de resposta.




BL

13.06.26




sexta-feira, 12 de junho de 2026

A fio nu

 




O ruído nasce em círculos
metal líquido
a tentar escrever o mundo
com mãos trémulas.

 

No centro do redemoinho
a paz é um pássaro imóvel
um olho que não pisca
um nome que ninguém pronuncia.

 

Entre ambos
um fio invisível

a vibrar.
Se o tocas

ecoa tempestade.
Se o escutas

abre-se um deserto

translúcido.

 

E eu caminho nesse fio
metade faísca
metade silêncio
à procura do instante
em que compreenda que a vida não espera
que eu a entenda
para continuar.






BL

12.06.26





quarta-feira, 8 de abril de 2026

Corpo da distância

 






Desde então

espero pela súbita janela

da insónia

 

para que do fundo do armário

acorde um rio invisível

labirinto de hipóteses

sons avulsos a subirem até mim.

 

Ultrapassa-me a lonjura

concreta e nítida

passa por mim um tempo líquido

a navegar memórias.

 

Fala da erosão da pedra

de metáforas com cheiro a terra

das raízes subterrâneas das estações

da limpidez da eternidade.

 

Tocada pela seiva vagarosa

guardo o corpo da distância

a reconhecer

no escuro

a forma secreta daquilo que permanece.




BL

08.04.26






terça-feira, 7 de abril de 2026

Por cima do teu nome

 





Não entendes o que eles dizem
e eles não param para te escutar.
As suas palavras passam por ti


lâminas cegas
cortam [sem intenção]
ferem [sem saberem.]

 

O abandono instala-se devagar
água fria a fluir nas tuas veias.


Os gestos
os rostos
o próprio ar
deixam de te reconhecer.

 

A raiva cresce onde a voz não chega.
Há um animal fechado
a roer-te o peito por dentro
a pedir saída
a pedir mundo
a pedir que alguém te veja
antes que te desvaneças.

 

E resistes.
Chama frágil
clandestina
que insiste em não morrer.
Um lume que não aquece
ilumina
para que não te percas de ti.

 

E assim segues.
Entre o que te falta
e o que te sobra.
Entre o que te negam
e o que ainda guardas.

 

Um corpo que avança
mesmo quando o caminho
não lhe pertence.

 

Um silêncio que resiste
mesmo quando ninguém
o sabe escutar.




BL

07.04







segunda-feira, 6 de abril de 2026

Corpo à margem

 






Há um lugar onde o mundo não chega
um vão de sombra
onde os nomes se desfazem
antes de tocarem a boca.

 

Ali

o silêncio tem ossos
e range.
A pele aprende a encolher-se
para caber no que lhe negam.

 

As ruas passam ao lado.
Rios que recusam o náufrago.

 

Há rostos que não olham.
Portas
a selarem o ar.

 

Ao fundo da escuridão
cresce um rumor de gente
que desaprendeu o gesto de existir.
Corpos suspensos
como se a vida fosse um corredor
onde nunca se entra.

 

E há um frio
a vir do lugar exato onde o mundo decide
quem fica dentro
e quem se apaga.




BL

06.04.26