terça-feira, 21 de setembro de 2021

Refúgio de setembro

 


 Um ruído rouco desarrumou o silêncio

congelado da rua.


Mas tu hoje não vieste. O dia alongou-se

na irremediável obrigação de existir. Cumpriu-se

o calendário das ausências


aquilo que sobra dos instantes de fogo

ou dos lugares do vento que rodeiam o teu nome.


Aquilo que sobra dentro do silêncio rouco

onde se vai dissolvendo a voz liquefeita dos pássaros.



BL

domingo, 19 de setembro de 2021

Madrugada

 


Existe uma penumbra líquida

a derramar-se sobre todas as coisas. Tudo me diz de um

caminho de silêncio inevitável

viagem de sangue que antecede a vertigem

da noite.


BL

19.09.21






terça-feira, 7 de setembro de 2021

Até um dia...

 


Quero agradecer a todos aqueles que leram os meus textos e me deixaram as suas apreciações e simpatia.

Direi que vou fazer apenas um intervalo. Não sei se será longo, muito longo. Ainda não sei. De qualquer modo, deixo aqui a minha gratidão e um abraço de até sempre.

Sejam muito felizes.


BL







sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Um tempo abstrato


 


Há uma invisível roupagem de verão

labirintos de folhagens novas

indefinidos porvires

num tempo abstrato

que se entranha

e me acorda sentires.


Não o questiono

nem lhe pergunto de onde vem.


Será uma voz, um eco, um corpo

o voo de um pássaro

que ateia mistérios

no meu rosto.



BL







sábado, 7 de agosto de 2021

Manhãs ávidas de limpidez

 

Nessas manhãs ávidas de limpidez percorro a sabedoria das árvores

e recolho

as vozes pequeninas a que me agarro

e entrego às raízes renascidas do meu corpo.


Como fumo espartilhado

acenam-me sílabas brancas de uma infância a despedir-se

formas nítidas que o tempo não fechou.

Existem nomes e ecos de horas longínquas

que chegam e se distribuem no cenário em frente à casa.


E deste silêncio quieto e doce

rolam súbitas pedras

solitárias

o vento vertiginoso para

e a manhã alonga-se

sem asas proféticas.


BL

05.08.21






quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Fragmentos

 



Talvez este espaço não me pertença

e seja apenas um lapso da minha existência


desconheço o avesso cego do instante que permanece


há rios titubeando nas cinzas

dias que me sufocam na boca e deambulam

no medo de se sentirem movimento


será que o caminho se tornou memória

ou nele apenas me sinto pó?


a pausa acontece

estilhaçada em fragmentos que se procuram no vento

antes de serem menos que um crepúsculo

espoliado de inventário.


BL






segunda-feira, 26 de julho de 2021

Fragilidades

 


Sou tão pouco

agora.

Vejo olhares que passam por mim

como quem lamenta o fardo da terra árida.


Todas as árvores que plantei

estão cobertas de flores.

Aparo-lhes os ramos secos

só eu e o meu reflexo diluído


muitas vezes inapta

na solitária tarefa de nelas recortar

o ângulo mais perfeito do amor.


BL