segunda-feira, 20 de julho de 2026

Silêncio em pretérito





Pergunto-me quem fui.


E o silêncio abre-se

lento

como se a memória tivesse de atravessar 

esta neblina matutina

para encontrar o próprio rosto.


Fico muda

com o tempo a pousar-me nos ombros

sem que eu entenda

se aquilo que ele carrega

será leme

ou armadura.


A resposta cresce

orgânica

num verbo que respira fundo

antes de existir


enroscado na cegueira de um nome

que só sabe conjugar-se em pretéritos imperfeitos.


E há uma baba de presunção

em todos os desígnios.

Uma vontade

de fixar o que escapa

de ordenar o que nunca Se deixou ordenar.


Talvez por isso

permaneço quieta.


Porque ainda não aprendi

a escrever o que fui


no pretérito perfeito

de palavras convergentes.



BL

20.07.26








sexta-feira, 17 de julho de 2026

Barco de luzes mansas

 



 

Olha este silêncio que te guardo no peito

um remanso tecido

de esperas brandas

e o meu abraço.

 

Olha

há rios de sombra doce

nos meus ombros

e um farol aceso

para o teu passo mais cansado.

 

E deixo-te um fruto

uma concha de lua

um sopro de brisa

para embalar o que te dói.

 

Este silêncio

este ninho de instantes

das mais líquidas auroras.

 

E um gesto e um afago

para que o amanhã

desperte

devagarinho.





BL

17.07.26




segunda-feira, 13 de julho de 2026

Contra o silêncio

 

 



O tempo vagaroso

na demorada despedida das mãos.

 

Tudo o que fica é esse calor que insiste

um ténue eco de pele

a procurar ainda a forma da outra.

 

Há um silêncio que se estende

o mundo respira devagar

com medo de interromper o instante que se desfaz.

 

Imóveis

sabemos que partir é sempre um gesto incompleto.

Algo fica preso

no espaço que se abre quando deixamos de tocar.

Um resto de luz a acompanhar o passo

como se a memória das mãos ainda caminhasse connosco.



BL

13.07.26







sábado, 11 de julho de 2026

O gesto do vento

 






Há um vulto que atravessa a noite

como quem decifra o silêncio das pedras.

Nada temas.

 

Um dia saberás desfazer a direção das chuvas

inclinar o vento

com o gesto de um pensamento

 

abrir o véu onde a valsa das corujas

escreve o destino das sílabas.

 

Nos becos de neblina

os pássaros traçam mapas invisíveis

para lugares que só existem

quando alguém os sonha.

 

E tu

que recolhes ecos como quem recolhe sementes

descobrirás que cada sombra

é apenas uma luz que ainda não encontrou horizonte.




BL

11.07.26


terça-feira, 7 de julho de 2026

A tua voz

 





Há um pássaro que pousa sempre no mesmo ramo

quando penso em ti.

 

Não canta.

Inclina a cabeça

escutando o que falta.

 

O vento sopra-me um gesto que reconheço.

Quase impercetível

como o cuidado que deixavas

nas coisas pequenas.

 

E um fio invisível atravessa-me o peito

estende-se em direção ao céu.

É uma raiz suspensa

a crescer ao contrário

a procurar-te no alto.

 

Existe um murmúrio

na pulsação da primeira estrela de cada noite.

 

Pronuncia o meu nome

sem voz

 

como se o tivesses guardado num lugar

onde só eu escuto.

 

A saudade é uma jarra partida

que continua a guardar água.

Não sei como

não sei porquê

 

mas cada gota que não cai

é a tua mão

ainda a segurar.

 

E eu caminho assim

entre sinais que o mundo inventa

para que eu não te perca

 

porque és o abrigo mais antigo

que o meu coração conhece.




BL

07.07.26




sexta-feira, 3 de julho de 2026

Ecos de vozes livres

 






Árvores despidas transitam entre o sangue

e o nevoeiro.

E eu pergunto-me como se sossegam estes olhos

sem navio.

 

Sobrevive um caminho para o mar

e aí recolho os verbos

que pairam

ainda

sobre a espuma das marés.

 

Relembram

[ os verbos ]

os nomes de coisas transitórias

breves aparições

ecos de vozes livres

indomáveis

como um sopro silábico de probabilidades

sem pontuação.




BL

03.07.26






terça-feira, 30 de junho de 2026

Quando o voo é ausência

 





Quando o voo é ausência

e memória.

Cai no poema o som aflito

do restolho ofegante.

Um eco mordido pelo medo da página onde o início

é regresso.

Queimo fotografias guardadas

no interior do olhar

agarro com as duas mãos as portas do futuro.

E deixo que o vento me redesenhe os contornos

e em cada sopro invento a palavra

que ainda não encontrou o corpo onde pousar.



BL

30.06.26