Naquele tempo
prevalecia uma voz
rouca
e uns olhos
azuis‑relâmpago
que atravessavam a sala
como quem rasga
um véu antigo
a deixarem no ar
um cheiro a chuva
e promessas
que ninguém ousava nomear.
As palavras vinham
lentas
carregadas de uma fadiga antiga
e de um lume secreto
a tremer
para nascer.
E eu
sentada à beira
do silêncio
aprendia a escutar
o que não se dizia
como quem recolhe
migalhas de luz
num chão
que desaprendeu o sol.
Havia noites
em que a voz falhava.
[ azuis-relâmpago ]
continuavam a incendiar
o escuro
como se soubessem
que a memória
é feita de clarões breves
e não de eternidades.
BL
09.02.26