rasgaram-me palavras
destruíram-me significados
e eu seguia
vendada pela neblina
distante da casa
aliso a textura do risco
imobilizo o medo
durmo num canteiro
repleto de ausências
esqueço-me
(de mim)
para me sentir redimida
(de mim)
BL
18.10.26
"A minha resistência / à morte do pensamento." Fiama Hasse Pais Brandão
rasgaram-me palavras
destruíram-me significados
e eu seguia
vendada pela neblina
distante da casa
aliso a textura do risco
imobilizo o medo
durmo num canteiro
repleto de ausências
esqueço-me
(de mim)
para me sentir redimida
(de mim)
BL
18.10.26
A claridade não aprende o regresso.
Quando nasce
já traz consigo a despedida.
E nós
habitamos o instante
ponte de fogo
entre o que ainda não era
e o que deixará de ser.
O tempo não caminha.
É uma chama imóvel
que nos atravessa.
E nós
faíscas breves
acreditamos mover-nos
enquanto desaparecemos.
Talvez existir seja isto.
Ser
uma vez.
BL
16.10.26
As paredes aprendem a caligrafia das fissuras.
E não desabam.
Perde-se a água.
Perde-se o caminho da água.
Mas uma sede anterior ao rio continua.
E
quando o mundo encerra uma das suas portas
quando o peso inclina os dias
para uma geometria de ruína
não é a esperança que permanece.
Nem a coragem.
Nem sequer o nome.
Apenas
esse grão irredutível
essa matéria sem linguagem
essa espécie de pedra anterior à pedra
que continua a erguer-se
dentro do abismo
sem motivo algum.
BL
14.10.26
BL
14.10.26
Crescemos assim
dentro da sílaba húmida das falésias.
Às vezes
éramos apenas uma inclinação da luz
sobre o dorso esquecido das marés.
O sal atravessava-nos
como uma língua anterior à boca
como um rumor de conchas a aprender o peso da noite.
Debaixo das pedras
dormiam aves sem céu.
Debaixo das aves
dormia o vento.
E o vento sonhava com a forma indecisa da água.
Crescemos assim.
Fragmento dentro de fragmento
espuma dentro da espuma
até o horizonte se tornar uma ferida transparente.
Não conhecíamos portos.
Trazíamos nas mãos apenas a geografia instável das correntes.
Nem barcos. Nem velas.
Apenas essa obstinação do ar
a conduzir-nos para o interior das distâncias.
E quando o mar nos chamava
já não era o mar.
Era a pedra
lentamente
a recordar-se do vento.
BL
11.10.26
As palavras não nos pertencem.
Debaixo das pálpebras
guardamos pequenos estilhaços de horizonte
a luz incompleta das coisas perdidas
a paciência das pedras voltadas para o mar.
Nesta margem dobrada dentro da água
resta uma luz imperfeita
presa ao frio dos ramos.
As horas inclinam-se
sobre o pó das imagens.
Na curva das colinas
apaga-se devagar
uma distância.
Depois da última claridade
as folhas recolhem
os contornos da tarde.
Sobre a terra húmida
o vento desaprende o caminho.
A memória adormece na matéria.
BL
08.10.26