Há gestos que não precisam
de voz
para serem escutados.
Basta que alguém os reconheça
e
nesse instante
tornam-se presença.
Como quem pousa um pensamento
na palma da tua mão.
BL
04.08.26
"A minha resistência / à morte do pensamento." Fiama Hasse Pais Brandão
Há gestos que não precisam
de voz
para serem escutados.
Basta que alguém os reconheça
e
nesse instante
tornam-se presença.
Como quem pousa um pensamento
na palma da tua mão.
BL
04.08.26
Se no teu verso o mundo hesita
eu venho ser o passo seguinte
um sopro que se encosta ao teu.
Se falas da noite
trago-te o lume.
Se falas de mar
ofereço-te a margem.
Se o teu poema é somente um murmúrio
o meu é a voz
que nasce dentro dele.
Porque a tua palavra abriu o caminho.
E a minha
agora
caminha a teu lado
para te encontrar.
BL
04.08.26
Há palavras que soam a brisa
não pelo que dizem
mas pelo modo como chegam
como pousam a mão no ombro
e
por um instante
fazem o mundo parar.
Ficam ali
como um resto de luz
que permanece
mesmo depois de o silêncio voltar.
BL
04.08.26
Escreves prata
e eu vejo o brilho inquieto
que fica nas mãos
quando se tenta tocar o que foge.
Há fragmentos que não se recolhem
preferem correr
como se a pele fosse um rio
a aprender a sua própria direção.
As sombras que inventas
não escurecem. Germinam.
São sementes que recusam o silêncio
e procuram janelas
onde a primavera ainda respira.
Falas de olhos
onde o tempo se perdeu
mas talvez o tempo seja apenas
um viajante distraído
que regressa sempre
quando a maré o chama.
E
se as estradas são pólen de lua cheia
então cada passo é já um astro
a abrir horizontes sobre o mar.
BL
30.07.26
Espero pela última chave
aquela que não abre portas
mas acende corredores dentro de mim.
Há fechaduras que não são de ferro.
São de sombra.
E
às vezes
o que falta não é a chave.
É a coragem para chegar à porta.
BL
28.07.26
Existem silêncios que se erguem
como catedrais.
Vastos
vertiginosos
onde a alma se acende em claridade
e cada pensamento encontra o seu altar.
Mas há outros que nos rasgam.
Fendas antigas
onde ecoa apenas o peso do impronunciável
monólogos que nos empurram para dentro de ravinas sem nome.
São silêncios em que o mundo se retrai
os poentes afastam-se
e a noite aprende a falar por nós
com uma voz que não escolhemos.
Ainda assim
caminhamos entre eles.
Entre a luz que nos amplia
e a sombra que nos comprime
sabendo que cada abismo
pode ser também um regresso.
Porque
às vezes
o silêncio fere.
Mas outras vezes
devolve.
E
no seu fundo inesperado
uma claridade pequena insiste em não desaparecer.
BL
21.07.26