Espero pela última chave
aquela que não abre portas
mas acende corredores dentro de mim.
Há fechaduras que não são de ferro.
São de sombra.
E
às vezes
o que falta não é a chave.
É a coragem para chegar à porta.
BL
28.07.26
"A minha resistência / à morte do pensamento." Fiama Hasse Pais Brandão
Espero pela última chave
aquela que não abre portas
mas acende corredores dentro de mim.
Há fechaduras que não são de ferro.
São de sombra.
E
às vezes
o que falta não é a chave.
É a coragem para chegar à porta.
BL
28.07.26
Existem silêncios que se erguem
como catedrais.
Vastos
vertiginosos
onde a alma se acende em claridade
e cada pensamento encontra o seu altar.
Mas há outros que nos rasgam.
Fendas antigas
onde ecoa apenas o peso do impronunciável
monólogos que nos empurram para dentro de ravinas sem nome.
São silêncios em que o mundo se retrai
os poentes afastam-se
e a noite aprende a falar por nós
com uma voz que não escolhemos.
Ainda assim
caminhamos entre eles.
Entre a luz que nos amplia
e a sombra que nos comprime
sabendo que cada abismo
pode ser também um regresso.
Porque
às vezes
o silêncio fere.
Mas outras vezes
devolve.
E
no seu fundo inesperado
uma claridade pequena insiste em não desaparecer.
BL
21.07.26
Pergunto-me quem fui.
E o silêncio abre-se
lento
como se a memória tivesse de atravessar
esta neblina matutina
para encontrar o próprio rosto.
Fico muda
com o tempo a pousar-me nos ombros
sem que eu entenda
se aquilo que ele carrega
será leme
ou armadura.
A resposta cresce
orgânica
num verbo que respira fundo
antes de existir
enroscado na cegueira de um nome
que só sabe conjugar-se em pretéritos imperfeitos.
E há uma baba de presunção
em todos os desígnios.
Uma vontade
de fixar o que escapa
de ordenar o que nunca Se deixou ordenar.
Talvez por isso
permaneço quieta.
Porque ainda não aprendi
a escrever o que fui
no pretérito perfeito
de palavras convergentes.
BL
20.07.26
Olha este silêncio que te guardo no peito
um remanso tecido
de esperas brandas
e o meu abraço.
Olha
há rios de sombra doce
nos meus ombros
e um farol aceso
para o teu passo mais cansado.
E deixo-te um fruto
uma concha de lua
um sopro de brisa
para embalar o que te dói.
Este silêncio
este ninho de instantes
das mais líquidas auroras.
E um gesto e um afago
para que o amanhã
desperte
devagarinho.
BL
17.07.26
O tempo vagaroso
na demorada despedida das mãos.
Tudo o que fica é esse calor que insiste
um ténue eco de pele
a procurar ainda a forma da outra.
Há um silêncio que se estende
o mundo respira devagar
com medo de interromper o instante que se desfaz.
Imóveis
sabemos que partir é sempre um gesto incompleto.
Algo fica preso
no espaço que se abre quando deixamos de tocar.
Um resto de luz a acompanhar o passo
como se a memória das mãos ainda caminhasse connosco.
BL
13.07.26
Há um vulto que atravessa a noite
como quem decifra o silêncio das pedras.
Nada temas.
Um dia saberás desfazer a direção das chuvas
inclinar o vento
com o gesto de um pensamento
abrir o véu onde a valsa das corujas
escreve o destino das sílabas.
Nos becos de neblina
os pássaros traçam mapas invisíveis
para lugares que só existem
quando alguém os sonha.
E tu
que recolhes ecos como quem recolhe sementes
descobrirás que cada sombra
é apenas uma luz que ainda não encontrou horizonte.
BL
11.07.26