O homem subia devagar
com o azul a escorrer dos dedos.
Cada gesto seu era uma pergunta
que o universo respondia em silêncio
como se a luz fosse
um fruto que só amadurece
no silêncio.
O homem tocava o ar
e o ar acendia‑se.
Uma pequena febre de cor
trémula
no limiar das nuvens.
Ninguém sabia o nome do homem.
Mas as aves pousavam nos seus ombros
como se reconhecessem a origem do voo.
Alguns juravam que ele não existia.
Que era só o modo
como o mundo se imaginava a si mesmo.
Mas havia noites
em que uma linha de luz atravessava o escuro
como um pensamento inaugural.
E então compreendíamos.
Não era o céu
aquilo que ele pintava.
Era o invisível
a tentar aprender a ser mundo.
BL
04.10.26