quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Mecânica do abandono




Haverá 

talvez 

um avesso 
depois da boca.

 

Não um nome. Nem a sua cinza.

 

Apenas o rumor de qualquer coisa 

que continuou a cair
quando a queda já não tinha onde acontecer.

 

Os mortos conhecem pequenos mecanismos do escuro. 
Engrenagens de pó. Corredores sem espécie. 
Ferragens antigas  
trabalhando dentro da ausência.

 

E nós
distraídos pelo sangue 
chamamos vida 

ao intervalo entre dois esquecimentos.

 

Mas às vezes uma vibração atravessa a matéria. 
Não vem de fora. Não vem de ninguém. 
É o resto dos passos que perderam o corpo 
e continuam.

 

Como se o silêncio procurasse ainda 
uma forma de ruído.




BL

28.10.26






 


 

domingo, 25 de outubro de 2026

A fresta

 



uma borboleta rodeia o silêncio.

não procura flor.

procura a fresta.

e o poema

uma janela fechada sobre o jardim.




BL

25.10.26




A acústica das ruínas

 



Há casas

que continuam depois da parede.

Não inteiras.

Não visíveis.

Somente a sua inclinação 

dentro do silêncio.


A linguagem falhou.

Trocou de sombra.

Ninguém a pronuncia.


Alguma coisa regressa.


Talvez o lugar onde a ausência

aprendeu a ecoar.


Talvez uma música

ou o lugar onde a música abandona os objetos.


E qualquer coisa

muito ao fundo

continua a cair

sem altura.


Toda a ruína

escuta.




BL

25.10.26





sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Os bolsos do vento





tanto céu entre uma coisa e o seu eco

tanto musgo na engrenagem das horas

os bolsos aprenderam a leveza das pedras abandonadas

agora quando o vento muda

inclinam-se

como erva sem compromisso com a direção

ao longe ramos brancos escrevem-se contra as nuvens

e desfazem-se

antes da leitura.





BL

23.10.26





domingo, 18 de outubro de 2026

Redimo-me




rasgaram-me palavras

destruíram-me significados


e eu seguia

vendada pela neblina


distante da casa

aliso a textura do risco

imobilizo o medo


durmo num canteiro

repleto de ausências


esqueço-me

(de mim)

para me sentir redimida

(de mim)




BL

18.10.26




sexta-feira, 16 de outubro de 2026

... uma vez





A claridade não aprende o regresso.

Quando nasce

já traz consigo a despedida.


E nós

habitamos o instante 

ponte de fogo

entre o que ainda não era

e o que deixará de ser.


O tempo não caminha.

É uma chama imóvel

que nos atravessa.


E nós

faíscas breves

acreditamos mover-nos

enquanto desaparecemos.


Talvez existir seja isto.

Ser

uma vez.




BL

16.10.26






quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Anterior à pedra




As paredes aprendem a caligrafia das fissuras.

E não desabam.


Perde-se a água.

Perde-se o caminho da água.

Mas uma sede anterior ao rio continua.


E

quando o mundo encerra uma das suas portas

quando o peso inclina os dias

para uma geometria de ruína

não é a esperança que permanece.


Nem a coragem.

Nem sequer o nome.


Apenas

esse grão irredutível

essa matéria sem linguagem

essa espécie de pedra anterior à pedra


que continua a erguer-se

dentro do abismo

sem motivo algum. 




BL

14.10.26