A luz inclina‑se.
Rasga.
Abandona.
Olhos fechados
dentro de olhos fechados.
A suspensão do ouro.
Há um rumor de eternidade preso às paredes.
Um sopro que não sei se é meu
ou do tempo que me observa
imóvel
à espera de que eu me desfaça.
BL
10.03.26
"A minha resistência / à morte do pensamento." Fiama Hasse Pais Brandão
A luz inclina‑se.
Rasga.
Abandona.
Olhos fechados
dentro de olhos fechados.
A suspensão do ouro.
Há um rumor de eternidade preso às paredes.
Um sopro que não sei se é meu
ou do tempo que me observa
imóvel
à espera de que eu me desfaça.
BL
10.03.26
e a memória
onde ainda te procuro
devagar.
Foto de RL
Somos feitos de fendas silenciosas
essas que fingimos não ouvir
enquanto o mundo nos atravessa
como lâminas que aprenderam a ser vento.
Costuramos a pele com promessas gastas
na esperança de que algum fio invisível
nos devolva o contorno
que perdemos entre um gesto e o outro.
Guardamos crenças que mal cabem nas mãos
pequenos rituais de sobrevivência
que inventamos para admitir
que o incurável também pode florescer.
E quem somos?
Somos apenas ecos de água
correndo por dentro de pedras cansadas
à espera de que alguma maré distraída
nos devolva ao mar
de onde nunca deixámos de vir.
BL
28.02.26
Foto de JL
Quando a manhã pousar nos teus ombros
trarei comigo o rumor das folhas
que dançam antes de o dia nascer.
Falarei da água quieta
onde a lua se despede devagar
e do brilho tímido
que acorda nos telhados.
Contar-te-ei do voo lento das andorinhas
que riscam o céu como promessas
e do perfume leve
que a noite esquece no ar.
E talvez então percebas
que tudo o que renasce em ti
também desperta em mim
como um segredo que o sol
ainda não aprendeu a guardar.
BL
22.02.26
Avança sem bússola
um corpo que se adivinha apenas pelo rumor do chão.
Procura o intervalo onde a luz se desvia
e ali pousa
como quem aprende a demorar-se no indizível.
Sobe degraus que se desfazem
desce outros que nunca terminam
acolhe o silêncio que se esconde nas paredes gastas.
Não aceita promessas de passagem
nem o teatro de mãos
prontas a medirem afetos. Prefere o gesto que nasce sem
testemunhas
a ternura que não exige troféus.
E assim segue.
Entre o quase e o ainda não
entre a sombra que o persegue
e a sombra que o protege.
Um itinerário que se inventa a cada passo
imprevisível
como quem aprende a existir
sem pedir licença.
BL
21.02.26
um risco de carvão
a tremer
no papel gasto.
Há quem o leia como mapa.
Ou quem o escute como vento.
Mas ele é somente
este gesto breve
de quem tenta acender um rumo
com a cinza que lhe sobra.
Para o que ainda resta
de quem o escreve.
BL
17.02.26
Neste texto gasto
existe um mapa desenhado a carvão.
Relato da viagem
que fiz com as mãos vazias
seguindo o rasto de um barco
que partiu antes de mim.
Ainda que nenhum barco regresse.
BL
16.02.26