o eco das gaivotas
Um trinado
As giestas
"A minha resistência / à morte do pensamento." Fiama Hasse Pais Brandão
Às vezes
a dor encosta-se ao voo interrompido
de pássaros que perderam o mapa das estações.
Lado a lado
desatamos os nós da noite
e deixamos que as vozes se tornem claridade
mesmo quando a inquietação nos atravessa.
As palavras arrastam um brilho clandestino
na dobra inquieta do silêncio.
Nas paredes
o lume hesita.
Um traço
talvez
ou a vibração de uma luz que não se fixa.
A linha do tempo inclina-se
imprevisível
como se procurasse o gesto que a inventou.
E quando o horizonte nos toca
mesmo que de leve
sabemos que a carícia é também promessa.
A de continuar a conceber a luz
onde o mundo insiste em ser penumbra.
BL
11.08.26
Tanto quiseste
que o querer deixou de ser verbo
e tornou-se substância. Uma matéria primeira
anterior ao corpo
quando o tempo ainda não sabia dizer-se.
Quiseste ser poeta
mas nesse gesto nasceste antes da própria língua
como se o mundo esperasse
que o teu olhar
lhe desse forma.
Quiseste ser palavra
e a palavra
ao reconhecer-te
abriu um espaço entre o que existe
e o que insiste em existir.
As raízes do teu sangue pediam tinta
eram linhas de força
tentativas de tocar o invisível
com a fragilidade de um gesto humano.
E no delírio do verso principal
onde a imagística se descola da temporalidade
o poema converte‑se no próprio olhar.
Uma máquina que não gera imagens
mas o princípio que as antecede.
Porque
aos poetas
não nascem miradouros no olhar.
Aos poetas
nasce o próprio olhar.
E o mundo
ao deixar‑se atravessar por ele
descobre que também pode ser poema.
BL
05.08.26
Há gestos que não precisam
de voz
para serem escutados.
Basta que alguém os reconheça
e
nesse instante
tornam-se presença.
Como quem pousa um pensamento
na palma da tua mão.
BL
04.08.26
Se no teu verso o mundo hesita
eu venho ser o passo seguinte
um sopro que se encosta ao teu.
Se falas da noite
trago-te o lume.
Se falas de mar
ofereço-te a margem.
Se o teu poema é somente um murmúrio
o meu é a voz
que nasce dentro dele.
Porque a tua palavra abriu o caminho.
E a minha
agora
caminha a teu lado
para te encontrar.
BL
04.08.26
Há palavras que soam a brisa
não pelo que dizem
mas pelo modo como chegam
como pousam a mão no ombro
e
por um instante
fazem o mundo parar.
Ficam ali
como um resto de luz
que permanece
mesmo depois de o silêncio voltar.
BL
04.08.26
Escreves prata
e o brilho inquieto permanece nas mãos
como um eco daquilo que foge
sempre que tentamos tocá‑lo.
Existem fragmentos que não se deixam recolher.
Correm.
Como se a pele fosse um rio
a descobrir a sua própria direção.
As sombras que inventas não escurecem. Florescem.
São sementes insubmissas ao silêncio
a procurarem janelas onde a primavera ainda respira.
Falas de olhos
onde o tempo se perdeu.
Mas talvez o tempo seja apenas um viajante distraído
que regressa
sempre que a maré o chama.
E
se as estradas são pólen de lua cheia
cada passo é já um astro
a desdobrar horizontes sobre o mar.
BL
30.07.26