sábado, 26 de setembro de 2026

Desvario da luz

 






Amanhece dentro do corpo
como se a pele
fosse um lugar por acabar

uma superfície onde a luz aprende
a beber o que resta do desamor.


Há sombras que não resistem.

Despem-se
devagar

na humidade breve da memória
e o gesto toca o mundo pela última vez
antes de desaparecer na respiração da matéria.


O vento inclina as árvores
num murmúrio que não se decide
e o vidro guarda a justeza do corpo
como se o contivesse.


O tecto
baixo
respira a compressão dos dias
que não couberam em nós.


Uma coruja branca atravessa a luz.
Asas a desfazerem limites

lembrando que há instantes em que fechar os olhos
é a única forma de sorver
o sofrimento inteiro.


E
ainda assim
algo permanece.
Um resto de urgência
um traço que não aceita morrer
na superfície da manhã.







BL
26.09.26





segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Exílio





Em tudo o que alterei

deixei atrás


títulos e endereços


risquei o esforço

de inventar


aquela que não sou.




BL

14.09.26





sábado, 12 de setembro de 2026

Cinzas





Céu suspenso

grafite.


Pássaros riscam o ar.

Traços sem lugar

medindo o silêncio.


A chuva

fio

oblíquo

carregando cinzas.


E tudo migra

sem destino.




BL

12.09.26












Sem enredo




Sou a página
que se desprende
do teu olhar inclinado

um sopro
a levantar-se
do fundo
onde me lias.


Não tenho capa. Só o gesto de nascer do teu silêncio.



BL

12.09.26






Noite de riscos






Passei uma noite

de sombras


as lâmpadas enterradas

nas paredes.


Apaguei o paraíso

para esquecer

o vendaval de cinzas

no naufrágio do chão.




BL

12.09.26






Linhas tortas





Eu engolia a chuva

de inverno

obedecia

à altura da luz.


Abreviei o tempo

na casa

inventada


lado a lado

com as sílabas.




BL

12.09.26





Distância

 



O quintal habitado

de infância.

Cumpre lonjuras


revive raízes cúmplices

roupa lavada

aprumando domingos.


Ajeito significados

em pensamentos

que não percorro.



BL

12.09.26