Pergunto-me quem fui.
E o silêncio abre-se
lento
como se a memória tivesse de atravessar
esta neblina matutina
para encontrar o próprio rosto.
"A minha resistência / à morte do pensamento." Fiama Hasse Pais Brandão
Pergunto-me quem fui.
E o silêncio abre-se
lento
como se a memória tivesse de atravessar
esta neblina matutina
para encontrar o próprio rosto.
Fico muda
com o tempo a pousar-me nos ombros
sem que eu entenda
se aquilo que ele carrega
será leme
ou armadura.
A resposta cresce
orgânica
num verbo que respira fundo
antes de existir
enroscado na cegueira de um nome
que só sabe conjugar-se em pretéritos imperfeitos.
E há uma baba de presunção
em todos os desígnios.
Uma vontade
de fixar o que escapa
de ordenar o que nunca Se deixou ordenar.
Talvez por isso
permaneço quieta.
Porque ainda não aprendi
a escrever o que fui
no pretérito perfeito
de palavras convergentes.
BL
20.07.26
Olha este silêncio que te guardo no peito
um remanso tecido
de esperas brandas
e o meu abraço.
Olha
há rios de sombra doce
nos meus ombros
e um farol aceso
para o teu passo mais cansado.
E deixo-te um fruto
uma concha de lua
um sopro de brisa
para embalar o que te dói.
Este silêncio
este ninho de instantes
das mais líquidas auroras.
E um gesto e um afago
para que o amanhã
desperte
devagarinho.
BL
17.07.26
O tempo vagaroso
na demorada despedida das mãos.
Tudo o que fica é esse calor que insiste
um ténue eco de pele
a procurar ainda a forma da outra.
Há um silêncio que se estende
o mundo respira devagar
com medo de interromper o instante que se desfaz.
Imóveis
sabemos que partir é sempre um gesto incompleto.
Algo fica preso
no espaço que se abre quando deixamos de tocar.
Um resto de luz a acompanhar o passo
como se a memória das mãos ainda caminhasse connosco.
BL
13.07.26
Há um vulto que atravessa a noite
como quem decifra o silêncio das pedras.
Nada temas.
Um dia saberás desfazer a direção das chuvas
inclinar o vento
com o gesto de um pensamento
abrir o véu onde a valsa das corujas
escreve o destino das sílabas.
Nos becos de neblina
os pássaros traçam mapas invisíveis
para lugares que só existem
quando alguém os sonha.
E tu
que recolhes ecos como quem recolhe sementes
descobrirás que cada sombra
é apenas uma luz que ainda não encontrou horizonte.
BL
11.07.26
Há um pássaro que pousa sempre no mesmo ramo
quando penso em ti.
Não canta.
Inclina a cabeça
escutando o que falta.
O vento sopra-me um gesto que reconheço.
Quase impercetível
como o cuidado que deixavas
nas coisas pequenas.
E um fio invisível atravessa-me o peito
estende-se em direção ao céu.
É uma raiz suspensa
a crescer ao contrário
a procurar-te no alto.
Existe um murmúrio
na pulsação da primeira estrela de cada noite.
Pronuncia o meu nome
sem voz
como se o tivesses guardado num lugar
onde só eu escuto.
A saudade é uma jarra partida
que continua a guardar água.
Não sei como
não sei porquê
mas cada gota que não cai
é a tua mão
ainda a segurar.
E eu caminho assim
entre sinais que o mundo inventa
para que eu não te perca
porque és o abrigo mais antigo
que o meu coração
conhece.
BL
07.07.26
Árvores despidas transitam entre o sangue
e o nevoeiro.
E eu pergunto-me como se sossegam estes olhos
sem navio.
Sobrevive um caminho para o mar
e aí recolho os verbos
que pairam
ainda
sobre a espuma das marés.
Relembram
[ os verbos ]
os nomes de coisas transitórias
breves aparições
ecos de vozes livres
indomáveis
como um sopro silábico de probabilidades
sem pontuação.
BL
03.07.26
Quando o voo é ausência
e memória.
Cai no poema o som aflito
do restolho ofegante.
Um eco mordido pelo medo da página onde o início
é regresso.
Queimo fotografias guardadas
no interior do olhar
agarro com as duas mãos as portas do futuro.
E deixo que o vento me redesenhe os contornos
e em cada sopro invento a palavra
que ainda não encontrou o corpo onde pousar.
BL
30.06.26