quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sementes e janelas

 



Escreves prata

e eu vejo o brilho inquieto

que fica nas mãos

quando se tenta tocar o que foge.


Há fragmentos que não se recolhem

preferem correr

como se a pele fosse um rio

a aprender a sua própria direção.


As sombras que inventas

não escurecem. Germinam.

São sementes que recusam o silêncio

e procuram janelas

onde a primavera ainda respira.


Falas de olhos

onde o tempo se perdeu

mas talvez o tempo seja apenas

um viajante distraído

que regressa sempre

quando a maré o chama.


E

se as estradas são pólen de lua cheia

então cada passo é já um astro

a abrir horizontes sobre o mar.




BL

30.07.26








terça-feira, 28 de julho de 2026

Umbral

 



Espero pela última chave

aquela que não abre portas

mas acende corredores dentro de mim.


Há fechaduras que não são de ferro.

São de sombra.


E

às vezes

o que falta não é a chave.

É a coragem para chegar à porta.



BL

28.07.26




terça-feira, 21 de julho de 2026

Entre catedrais e ravinas






 Existem silêncios que se erguem

como catedrais.

Vastos

vertiginosos

onde a alma se acende em claridade

e cada pensamento encontra o seu altar.


Mas há outros que nos rasgam.

Fendas antigas

onde ecoa apenas o peso do impronunciável

monólogos que nos empurram para dentro de ravinas sem nome.


São silêncios em que o mundo se retrai

os poentes afastam-se

e a noite aprende a falar por nós

com uma voz que não escolhemos.


Ainda assim

caminhamos entre eles.


Entre a luz que nos amplia

e a sombra que nos comprime

sabendo que cada abismo

pode ser também um regresso.


Porque

às vezes

o silêncio fere.

Mas outras vezes

devolve.


E

no seu fundo inesperado

uma claridade pequena insiste em não desaparecer.




BL

21.07.26





segunda-feira, 20 de julho de 2026

Em pretérito





Pergunto-me quem fui.


E o silêncio abre-se

lento

como se a memória tivesse de atravessar 

esta neblina matutina

para encontrar o próprio rosto.


Fico muda

com o tempo a pousar-me nos ombros

sem que eu entenda

se aquilo que ele carrega

será leme

ou armadura.


A resposta cresce

orgânica

num verbo que respira fundo

antes de existir


enroscado na cegueira de um nome

que só sabe conjugar-se em pretéritos imperfeitos.


E há uma baba de presunção

em todos os desígnios.

Uma vontade

de fixar o que escapa

de ordenar o que nunca Se deixou ordenar.


Talvez por isso

permaneço quieta.


Porque ainda não aprendi

a escrever o que fui


no pretérito perfeito

de palavras convergentes.



BL

20.07.26








sexta-feira, 17 de julho de 2026

Barco de luzes mansas

 



 

Olha este silêncio que te guardo no peito

um remanso tecido

de esperas brandas

e o meu abraço.

 

Olha

há rios de sombra doce

nos meus ombros

e um farol aceso

para o teu passo mais cansado.

 

E deixo-te um fruto

uma concha de lua

um sopro de brisa

para embalar o que te dói.

 

Este silêncio

este ninho de instantes

das mais líquidas auroras.

 

E um gesto e um afago

para que o amanhã

desperte

devagarinho.





BL

17.07.26




segunda-feira, 13 de julho de 2026

Da pele, o eco

 

 



O tempo vagaroso

na demorada despedida das mãos.

 

Tudo o que fica é esse calor que insiste

um ténue eco de pele

a procurar ainda a forma da outra.

 

Há um silêncio que se estende

o mundo respira devagar

com medo de interromper o instante que se desfaz.

 

Imóveis

sabemos que partir é sempre um gesto incompleto.

Algo fica preso

no espaço que se abre quando deixamos de tocar.

Um resto de luz a acompanhar o passo

como se a memória das mãos ainda caminhasse connosco.



BL

13.07.26