domingo, 11 de outubro de 2026

A geografia instável das correntes

 



Crescemos assim 

dentro da sílaba húmida das falésias.

 

Às vezes 

éramos apenas uma inclinação da luz 

sobre o dorso esquecido das marés.

 

O sal atravessava-nos 

como uma língua anterior à boca 

como um rumor de conchas a aprender o peso da noite.

 

Debaixo das pedras 

dormiam aves sem céu. 

Debaixo das aves 

dormia o vento.

E o vento sonhava com a forma indecisa da água.

 

Crescemos assim. 

Fragmento dentro de fragmento 

espuma dentro da espuma 

até o horizonte se tornar uma ferida transparente.

 

Não conhecíamos portos.

Trazíamos nas mãos apenas a geografia instável das correntes.

Nem barcos. Nem velas.

 

Apenas essa obstinação do ar 

a conduzir-nos para o interior das distâncias.

 

E quando o mar nos chamava 

já não era o mar.

Era a pedra 

lentamente 

a recordar-se do vento.




         BL

         11.10.26 








Ninguém transporta memórias



As palavras não nos pertencem.

Apenas atravessam a pele
como aves que transportam no bico
fragmentos de incêndio e de neblina.

Debaixo das pálpebras
guardamos pequenos estilhaços de horizonte
a luz incompleta das coisas perdidas
a paciência das pedras voltadas para o mar.

E quando o silêncio regressa
regressa vestido de raízes.

Então percebemos
que ninguém transporta memórias.

São as memórias que nos transportam
através daquilo que fomos

para esse lugar sem mapa
onde a esperança e o desencanto
ainda dormem sob o mesmo rumor de folhas.





BL
11.10.26









quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Inventário

 



Nesta margem dobrada dentro da água
resta uma luz imperfeita
presa ao frio dos ramos.


As horas inclinam-se
sobre o pó das imagens.


Na curva das colinas
apaga-se devagar
uma distância.


Depois da última claridade
as folhas recolhem
os contornos da tarde.


Sobre a terra húmida
o vento desaprende o caminho.


A memória adormece na matéria.




BL

08.10.26





Também o tempo



Nenhuma água conserva o rio.

Nenhuma estrela demora a noite.


Sobre a pedra vazia

esquece-se uma luz

entre as folhas.


Também o tempo

pousa no silêncio.




BL

08.10.26






domingo, 4 de outubro de 2026

O homem que pintou o céu

 

 



O homem subia devagar

com o azul a escorrer dos dedos.


Cada gesto seu era uma pergunta

que o universo respondia em silêncio

como se a luz fosse

um fruto que só amadurece

no silêncio.


O homem tocava o ar

e o ar acendia‑se.

Uma pequena febre de cor

trémula

no limiar das nuvens.


Ninguém sabia o nome do homem.

Mas as aves pousavam nos seus ombros

como se reconhecessem a origem do voo.


Alguns juravam que ele não existia.

Que era só o modo

como o mundo se imaginava a si mesmo.


Mas havia noites

em que uma linha de luz atravessava o escuro

como um pensamento inaugural.


E então compreendíamos.

Não era o céu 

aquilo que ele pintava.

Era o invisível

a tentar aprender a ser mundo.



BL

04.10.26







domingo, 27 de setembro de 2026

Incompletude





Há também um corpo feito de margens

e de ausência

um corpo que não sabe se é nascente

ou falha tectónica

e que se inclina

para ouvir o que o silêncio não teve coragem de dizer.


Quando a noite encosta o seu rosto

à respiração da terra

o tempo torna-se líquido

uma espécie de febre imóvel

onde cada coisa é só metade do que poderia ter sido. 


Resta uma criança de sal

com a boca cheia de mapas incompletos

a desenhar no ar

o contorno de um maio que nunca aconteceu.






BL

27.09.26





sábado, 26 de setembro de 2026

Desvario da luz

 






Amanhece dentro do corpo
como se a pele
fosse um lugar por acabar

uma superfície onde a luz aprende
a beber o que resta do desamor.


Há sombras que não resistem.

Despem-se
devagar

na humidade breve da memória
e o gesto toca o tempo pela última vez
antes de desaparecer na respiração da matéria.


O vento inclina as árvores
num murmúrio que não se decide
e o vidro guarda a justeza do corpo
como se o contivesse.


O tecto
baixo
respira a compressão dos dias
que não couberam em nós.


Uma coruja branca atravessa a luz.
Asas a desfazerem limites

lembrando que há instantes em que fechar os olhos
é a única forma de sorver
o sofrimento inteiro.


E
ainda assim
algo permanece.
Um resto de urgência
um traço que não aceita morrer
na superfície da manhã.







BL
26.09.26