quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Inventário

 



Nesta margem dobrada dentro da água
resta uma luz imperfeita
presa ao frio dos ramos.


As horas inclinam-se
sobre o pó das imagens.


Na curva das colinas
apaga-se devagar
uma distância.


Depois da última claridade
as folhas recolhem
os contornos da tarde.


Sobre a terra húmida
o vento desaprende o caminho.


A memória adormece na matéria.




BL

08.10.26





Também o tempo



Nenhuma água conserva o rio.

Nenhuma estrela demora a noite.


Sobre a pedra vazia

esquece-se uma luz

entre as folhas.


Também o tempo

pousa no silêncio.




BL

08.10.26






domingo, 4 de outubro de 2026

O homem que pintou o céu

 

 



O homem subia devagar

com o azul a escorrer dos dedos.


Cada gesto seu era uma pergunta

que o universo respondia em silêncio

como se a luz fosse

um fruto que só amadurece

no silêncio.


O homem tocava o ar

e o ar acendia‑se.

Uma pequena febre de cor

trémula

no limiar das nuvens.


Ninguém sabia o nome do homem.

Mas as aves pousavam nos seus ombros

como se reconhecessem a origem do voo.


Alguns juravam que ele não existia.

Que era só o modo

como o mundo se imaginava a si mesmo.


Mas havia noites

em que uma linha de luz atravessava o escuro

como um pensamento inaugural.


E então compreendíamos.

Não era o céu 

aquilo que ele pintava.

Era o invisível

a tentar aprender a ser mundo.



BL

04.10.26







domingo, 27 de setembro de 2026

Incompletude





Há também um corpo feito de margens

e de ausência

um corpo que não sabe se é nascente

ou falha tectónica

e que se inclina

para ouvir o que o silêncio não teve coragem de dizer.


Quando a noite encosta o seu rosto

à respiração da terra

o tempo torna-se líquido

uma espécie de febre imóvel

onde cada coisa é só metade do que poderia ter sido. 


Resta uma criança de sal

com a boca cheia de mapas incompletos

a desenhar no ar

o contorno de um maio que nunca aconteceu.






BL

27.09.26





sábado, 26 de setembro de 2026

Desvario da luz

 






Amanhece dentro do corpo
como se a pele
fosse um lugar por acabar

uma superfície onde a luz aprende
a beber o que resta do desamor.


Há sombras que não resistem.

Despem-se
devagar

na humidade breve da memória
e o gesto toca o tempo pela última vez
antes de desaparecer na respiração da matéria.


O vento inclina as árvores
num murmúrio que não se decide
e o vidro guarda a justeza do corpo
como se o contivesse.


O tecto
baixo
respira a compressão dos dias
que não couberam em nós.


Uma coruja branca atravessa a luz.
Asas a desfazerem limites

lembrando que há instantes em que fechar os olhos
é a única forma de sorver
o sofrimento inteiro.


E
ainda assim
algo permanece.
Um resto de urgência
um traço que não aceita morrer
na superfície da manhã.







BL
26.09.26





segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Exílio






Em tudo o que alterei

deixei atrás


títulos e endereços


risquei o esforço

de inventar


aquela que não sou.




BL

14.09.26





sábado, 12 de setembro de 2026

Cinzas






Céu suspenso

grafite.


Pássaros riscam o ar.

Traços sem lugar

medindo o silêncio.


A chuva

fio

oblíquo

carregando cinzas.


E tudo migra

sem destino.




BL

12.09.26