terça-feira, 3 de novembro de 2026

O último interior

 




 

entro.

encontro cadeiras ocupadas por versões minhas 

que nunca chegaram a acontecer.

nenhuma fala.

da boca de cada uma cresce uma raiz de escuro.

depois.

muito depois.

alguém apaga o último interior.

e resta 

sobre a mesa do nada

uma sílaba partida

ainda húmida da eternidade que não conseguiu 

atravessar o mundo.




BL

03.11.26




 



Um lugar onde as vidas cabem





 

Há quem atravesse a noite contando estrelas. 

Eu aprendi a contar ausências.

Uma ave sem espécie pousa na nervura do ar.  

Não canta. Inclina o mundo.

Foi então que as tuas mãos 

distraídas da matéria

abriram uma clareira onde o impossível respirava.

Desde esse dia 

a água esqueceu o seu nome 

as pedras passaram a sonhar raízes 

e os relógios deixaram cair migalhas de eternidade.

Não sei se era milagre. 

As fadas

talvez lhe chamassem casa.

Eu apenas vi 

um poema crescer para lá do corpo 

e uma vida 

depois outra 

caberem inteiras 

na sombra de uma sílaba.




BL

03.11.26



 


sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Errância






Queria apenas a claridade que dormia atrás do teu nome.

Entrei pela sombra das grutas
onde os deuses desaprendiam a altura
e os violinos deixavam cair a última ave da madrugada.

Trazia nos bolsos algumas luzes com defeito
um mapa riscado pela água
e essa sede.

Quando disse amo-te
já o crepúsculo mastigava lentamente a voz.

Mas houve ainda um breve incêndio
a atravessar a cinza das estrelas.

E talvez o amor seja só isto.

Uma algibeira acesa
na direção da noite.



BL

30.10.26





quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Depois dos relógios




Depois vieram os relógios.

Vieram as portas que se fecham por dentro.

Vieram as vozes habituadas ao peso e os mapas que esqueceram o assombro.

Mas

às vezes

quando a noite deposita uma pequena fogueira sobre a face das casas

alguma coisa regressa.

A forma antiga de escutar.

Então o coração reconhece uma claridade sem idade

um lugar que nunca abandonou verdadeiramente.

E caminha para ele.

Sem pressa.

Como quem regressa a uma casa

que apenas sobrevive na inclinação da memória.

O caminho não tem nome.

Há ramos movendo-se dentro da sombra.

Há uma luz dispersa entre as pedras.

Há o rumor de qualquer coisa viva respirando sob as ruínas.

Então

entre os escombros do tempo

encontra um pequeno animal de luz

a dormir.





BL

29.10.26




quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Mecânica do abandono




Haverá 

talvez 

um avesso 
depois da boca.

 

Não um nome. Nem a sua cinza.

 

Apenas o rumor de qualquer coisa 

que continuou a cair
quando a queda já não tinha onde acontecer.

 

Os mortos conhecem pequenos mecanismos do escuro. 
Engrenagens de pó. Corredores sem espécie. 
Ferragens antigas  
trabalhando dentro da ausência.

 

E nós
distraídos pelo sangue 
chamamos vida 

ao intervalo entre dois esquecimentos.

 

Mas às vezes uma vibração atravessa a matéria. 
Não vem de fora. Não vem de ninguém. 
É o resto dos passos que perderam o corpo 
e continuam.

 

Como se o silêncio procurasse ainda 
uma forma de ruído.




BL

28.10.26






 


 

domingo, 25 de outubro de 2026

A fresta

 




uma borboleta rodeia o silêncio.

não procura flor.

procura a fresta.

o poema

essa janela encerrada.

do outro lado

o jardim desaprende as rosas.

apenas o vento entra e sai

com o rosto de ninguém.







BL

25.10.26




A acústica das ruínas

 



Há casas

que continuam depois da parede.

Não inteiras.

Não visíveis.

Somente a sua inclinação 

dentro do silêncio.


A linguagem falhou.

Trocou de sombra.

Ninguém a pronuncia.


Alguma coisa regressa.


Talvez o lugar onde a ausência

aprendeu a ecoar.


Talvez uma música

ou o lugar onde a música abandona os objetos.


E qualquer coisa

muito ao fundo

continua a cair

sem altura.


Toda a ruína

escuta.




BL

25.10.26