Ninguém vê
o lento trabalho da raiz
a atravessar a escuridão.
Só a folhagem recebe os aplausos do verão.
Mas é no escuro que a árvore
aprende a paciência.
Passam aves.
Passam nuvens.
Passam nomes que julgávamos eternos.
A árvore fica.
Não vence o tempo.
Mas consente a sua passagem.
Perde folhas.
Perde sombra.
Perde ramos
à geometria dos ventos.
E
ainda assim
todas as primaveras arrisca novamente
a claridade.
E continua.
Ergue para o alto o que encontra em baixo.
Pedra.
Água.
Silêncio.
Abismo.
E transforma tudo
numa linguagem de folhas.
Talvez viver não seja mais do que isto.
Crescer
na direção daquilo que nos excede
enquanto as raízes aprofundam lentamente
a intimidade da terra.
E aceitar
que o vento leia em nós o livro inteiro
página após página
até restar apenas
a transparência dos ramos
escrita sobre o inverno.