sábado, 21 de março de 2026

A arte de partir

 




Quem me dera
conseguir
part
ir
sim
assim
sussurro de desapego
rasto breve
de um lugar.

 

Ir
sem o peso
do que fica
sem ecos
do que nunca disse
sem esta âncora
que insiste
em chamar-me
para voltar.

 
Quem me dera
aprender a deixar ir
como quem abre a janela
e aceita o vento
sem medo
do que leva
sem medo
do que sobra.

 

Talvez
um dia
o gesto seja simples.
Dar um passo
respirar
e caber
inteira
no espaço que se abrir.


Quando aprender a partir.




BL

21.03.26





Geometria do intangível

 





No íntimo da luz
a transparência da cor.


Tudo vibra
num silêncio líquido
como se o ar respirasse
por dentro das formas.


Há um rumor de brilho
na superfície do tempo
um sopro
a dissolver fronteiras.


O invisível inclina-se
devagar
para tocar o instante que o revela.

 

A claridade desdobra-se
suave
interminável
numa dança que não procura sentido. Inventa-o
entre aquilo que vemos
e o que somente pressentimos.





BL
21.03.26






 

quinta-feira, 19 de março de 2026

A botânica dos ombros

 

The Wilds 2022 - Sarah Jarrett





Não deixei pássaros ao abandono.

Cresceram-me folhas nos ombros

quando a borboleta voou de um dente-de-leão.

 

A pele abria-me pequenas janelas de luz

por onde o vento entrava devagar.

Aprendia a tocar um nome esquecido.

 

As raízes chamavam-me pelos pulsos

e cada passo deixava no chão

um eco de pétalas indecisas

metade silêncio

metade voo.

 

Não deixei pássaros ao abandono.

Foram eles que me ensinaram

a guardar o céu nos ossos

e a ouvir o que floresce

no lado secreto das horas.





BL

19.03.26






No lado de dentro

 

FOTO DE JL






No centro imóvel da noite
o corpo secreto
rumina florestas submersas
onde as folhas ardem em silêncio
e cada sombra aprende a vestir o rosto que perdeu.

 

Há um rumor de pedra líquida
a escorrer pelas veias do tempo
como se o mundo respirasse por fendas
e o sonho fosse apenas um animal cego
a procurar o seu nome dentro da terra.

 

E
quando o silêncio desperta
ergue do chão um farol de cinzas vivas
que atravessa o peito do mundo
como um pássaro
a recolher no seu voo
a última máscara do fogo.
 

 

E no fim do labirinto (in)quieto
surge um sopro de luz antiga
a dobrar o horizonte por dentro
como se o mundo fosse um navio vazio
onde a memória acende raízes de vento.





BL
19.03.26











terça-feira, 10 de março de 2026

A respiração do silêncio

 





A luz inclina‑se.

Rasga.

Abandona.

 

Olhos fechados

dentro de olhos fechados.

A suspensão do ouro.

 

Há um rumor de eternidade preso às paredes.

Um sopro que não sei se é meu

ou do tempo que me observa

imóvel

à espera de que eu me desfaça.




BL

10.03.26





 

 

 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

O ofício de desenhar o vento

  



 

 

Todos os nomes aprenderam a flutuar.
Desabitaram o teu rosto.
Pássaros que descobrem
que o céu é maior
do que o ninho.

 

Sobrou o silêncio.
Eco de água pousado na pele

e a memória
onde ainda te procuro

devagar.

 

As palavras
órfãs
deram às mãos o ofício de te desenhar.
Linha a linha
como quem tenta reconstruir o vento.

 

E
no entanto
há um lume que persiste.

Um rumor de marés [por dentro]
como se o teu nome [mesmo ausente]
continuasse a acender o mundo.










BL
05.03.26










sábado, 28 de fevereiro de 2026

Fé de areia

 


Foto de RL




Somos feitos de fendas silenciosas
essas que fingimos não ouvir
enquanto o mundo nos atravessa
como lâminas que aprenderam a ser vento.

Costuramos a pele com promessas gastas
na esperança de que algum fio invisível
nos devolva o contorno
que perdemos entre um gesto e o outro.

Guardamos crenças que mal cabem nas mãos
pequenos rituais de sobrevivência
que inventamos para admitir
que o incurável também pode florescer.

E quem somos?

Somos apenas ecos de água
correndo por dentro de pedras cansadas
à espera de que alguma maré distraída
nos devolva ao mar
de onde nunca deixámos de vir.




BL

28.02.26