segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Azul silêncio

 





Naquele tempo
prevalecia uma voz
rouca

e uns olhos
azuis‑relâmpago

que atravessavam a sala
como quem rasga
um véu antigo

a deixarem no ar
um cheiro a chuva
e promessas
que ninguém ousava nomear.


As palavras vinham
lentas
carregadas de uma fadiga antiga
e de um lume secreto

uma verdade
a tremer
para nascer.

 

E eu
sentada à beira
do silêncio

aprendia a escutar
o que não se dizia

como quem recolhe
migalhas de luz
num chão
que desaprendeu o sol.


Havia noites
em que a voz falhava.


Mas os olhos
[ azuis-relâmpago ]
continuavam a incendiar
o escuro

como se soubessem
que a memória
é feita de clarões breves
e não de eternidades.





BL

09.02.26






domingo, 8 de fevereiro de 2026

Cicatriz de luz

 




relâmpago breve
no centro
do silêncio.

a cor
desaba
como quem revela
um segredo antigo.

o gesto
[ súbito ]
abre fendas
no ar imóvel.

a luz
transfigura
o que resta
de sombra
e deixa
um rasto
que não se explica.

tudo arde
num instante
que não volta
mas permanece
como cicatriz
de claridade.




BL

08.02.26








sábado, 7 de fevereiro de 2026

O instante que arde

 



o tempo
inclina-se
num sopro
de fogo.

há um ponto
[ ínfimo ]
onde tudo
se incendeia.

a pele
da sombra
treme
como se soubesse
o que vem.

o ar
abre-se
num clarão
que não escolhe
testemunhas.

e eu
permaneço
no centro
do lume
a ouvir
o silêncio
arder.





BL
07.02.26















quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Circular

 




Pela vereda
rasguei neblinas
e costurei horizontes

bebi silêncios
e plantei tempestades.

 

Apoiei o rosto no vento
e toquei o sal das dunas

atravessei veias antigas
e deixei memórias à deriva
amanheci na escuridão
e desorientei verões.

 

E
no regresso
o compasso das horas aproxima o ocaso do primeiro lume
como se o sempre e o nunca se tocassem
no rubor de bocas circulares
em combustão contínua.






BL
04.02.26















domingo, 1 de fevereiro de 2026

Geometria da fome

 






Rasgámos o silêncio
como quem acende a pele por dentro
e
no lume breve dos dedos
inventámos margens
onde cabia o mundo.

Entre o sopro e a vertigem
a noite abriu-se em frutos lentos
e cada sombra era um nome
que aprendíamos com a boca.


Desatámos o peso do tempo
numa dança de veias despertas
e o chão
cúmplice
cedeu
à promessa dos nossos passos.


Assim
de gesto em gesto
colhemos o que tremia no ar.


A luz ainda por nascer
e o corpo inteiro
a dizer-se.





BL
01.02.26








sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Espirais de névoa

 




neblina branca 

a dissolver-se 

em espirais 

 

o mundo 

esquece o peso 

por instantes 

 

e tudo o que fica 

é um gesto leve 

a desaparecer






BL

30.01.26








domingo, 18 de janeiro de 2026

Esse milímetro que nos separa

 







Eu sinto-te
antes de te tocar
como quem reconhece o calor de uma chama.


Aproximo-me
devagar
porque cada gesto teu
é um lugar onde eu ainda não estive
e quero aprender o caminho
sem pressa.

 

Somos dois corpos a adivinharem-se
a medirem o pulso um do outro
sem nunca encostarem a pele


como se o toque fosse uma promessa
que se cumpre apenas quando o mundo adormece.

 

E
no entanto
existem momentos
em que quase te alcanço
o milímetro em que cabe quase tudo:
o que não digo
o que tu calas
o que tememos
sem admitir.

 

Se algum dia o espaço ceder
se o milímetro se render
não sei se o universo vai expandir
ou colapsar.

 

Mas sei que [por um instante]
o centro dele vai caber na palma da tua mão
e na minha.





BL

18.01.26