uma borboleta rodeia o silêncio.
não procura flor.
procura a fresta.
e o poema
uma janela fechada sobre o jardim.
BL
25.10.26
"A minha resistência / à morte do pensamento." Fiama Hasse Pais Brandão
uma borboleta rodeia o silêncio.
não procura flor.
procura a fresta.
e o poema
uma janela fechada sobre o jardim.
BL
25.10.26
Há casas
que continuam depois da parede.
Não inteiras.
Não visíveis.
Somente a sua inclinação
dentro do silêncio.
A linguagem falhou.
Trocou de sombra.
Ninguém a pronuncia.
Alguma coisa regressa.
Talvez o lugar onde a ausência
aprendeu a ecoar.
Talvez uma música
ou o lugar onde a música abandona os objetos.
E qualquer coisa
muito ao fundo
continua a cair
sem altura.
Toda a ruína
escuta.
BL
25.10.26
tanto céu entre uma coisa e o seu eco
tanto musgo na engrenagem das horas
os bolsos aprenderam a leveza das pedras abandonadas
agora quando o vento muda
inclinam-se
como erva sem compromisso com a direção
ao longe ramos brancos escrevem-se contra as nuvens
e desfazem-se
antes da leitura.
BL
23.10.26
rasgaram-me palavras
destruíram-me significados
e eu seguia
vendada pela neblina
distante da casa
aliso a textura do risco
imobilizo o medo
durmo num canteiro
repleto de ausências
esqueço-me
(de mim)
para me sentir redimida
(de mim)
BL
18.10.26
A claridade não aprende o regresso.
Quando nasce
já traz consigo a despedida.
E nós
habitamos o instante
ponte de fogo
entre o que ainda não era
e o que deixará de ser.
O tempo não caminha.
É uma chama imóvel
que nos atravessa.
E nós
faíscas breves
acreditamos mover-nos
enquanto desaparecemos.
Talvez existir seja isto.
Ser
uma vez.
BL
16.10.26
As paredes aprendem a caligrafia das fissuras.
E não desabam.
Perde-se a água.
Perde-se o caminho da água.
Mas uma sede anterior ao rio continua.
E
quando o mundo encerra uma das suas portas
quando o peso inclina os dias
para uma geometria de ruína
não é a esperança que permanece.
Nem a coragem.
Nem sequer o nome.
Apenas
esse grão irredutível
essa matéria sem linguagem
essa espécie de pedra anterior à pedra
que continua a erguer-se
dentro do abismo
sem motivo algum.
BL
14.10.26
BL
14.10.26