quinta-feira, 19 de março de 2026

A botânica dos ombros

 

The Wilds 2022 - Sarah Jarrett





Não deixei pássaros ao abandono.

Cresceram-me folhas nos ombros

quando a borboleta voou de um dente-de-leão.

 

A pele abria-me pequenas janelas de luz

por onde o vento entrava devagar.

Aprendia a tocar um nome esquecido.

 

As raízes chamavam-me pelos pulsos

e cada passo deixava no chão

um eco de pétalas indecisas

metade silêncio

metade voo.

 

Não deixei pássaros ao abandono.

Foram eles que me ensinaram

a guardar o céu nos ossos

e a ouvir o que floresce

no lado secreto das horas.





BL

19.03.26






No lado de dentro

 

FOTO DE JL






No centro imóvel da noite
o corpo secreto
rumina florestas submersas
onde as folhas ardem em silêncio
e cada sombra aprende a vestir o rosto que perdeu.

 

Há um rumor de pedra líquida
a escorrer pelas veias do tempo
como se o mundo respirasse por fendas
e o sonho fosse apenas um animal cego
a procurar o seu nome dentro da terra.

 

E
quando o silêncio desperta
ergue do chão um farol de cinzas vivas
que atravessa o peito do mundo
como um pássaro
a recolher no seu voo
a última máscara do fogo.
 

 

E no fim do labirinto (in)quieto
surge um sopro de luz antiga
a dobrar o horizonte por dentro
como se o mundo fosse um navio vazio
onde a memória acende raízes de vento.





BL
19.03.26











terça-feira, 10 de março de 2026

A respiração do silêncio

 





A luz inclina‑se.

Rasga.

Abandona.

 

Olhos fechados

dentro de olhos fechados.

A suspensão do ouro.

 

Há um rumor de eternidade preso às paredes.

Um sopro que não sei se é meu

ou do tempo que me observa

imóvel

à espera de que eu me desfaça.




BL

10.03.26





 

 

 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

O ofício de desenhar o vento

  



 

 

Todos os nomes aprenderam a flutuar.
Desabitaram o teu rosto.
Pássaros que descobrem
que o céu é maior
do que o ninho.

 

Sobrou o silêncio.
Eco de água pousado na pele

e a memória
onde ainda te procuro

devagar.

 

As palavras
órfãs
deram às mãos o ofício de te desenhar.
Linha a linha
como quem tenta reconstruir o vento.

 

E
no entanto
há um lume que persiste.

Um rumor de marés [por dentro]
como se o teu nome [mesmo ausente]
continuasse a acender o mundo.










BL
05.03.26










sábado, 28 de fevereiro de 2026

Fé de areia

 


Foto de RL




Somos feitos de fendas silenciosas
essas que fingimos não ouvir
enquanto o mundo nos atravessa
como lâminas que aprenderam a ser vento.

Costuramos a pele com promessas gastas
na esperança de que algum fio invisível
nos devolva o contorno
que perdemos entre um gesto e o outro.

Guardamos crenças que mal cabem nas mãos
pequenos rituais de sobrevivência
que inventamos para admitir
que o incurável também pode florescer.

E quem somos?

Somos apenas ecos de água
correndo por dentro de pedras cansadas
à espera de que alguma maré distraída
nos devolva ao mar
de onde nunca deixámos de vir.




BL

28.02.26







domingo, 22 de fevereiro de 2026

Antes do sol


 

Foto de JL



Quando a manhã pousar nos teus ombros 

trarei comigo o rumor das folhas 

que dançam antes de o dia nascer.

 

Falarei da água quieta 

onde a lua se despede devagar 

e do brilho tímido 

que acorda nos telhados.

 

Contar-te-ei do voo lento das andorinhas 

que riscam o céu como promessas 

e do perfume leve 

que a noite esquece no ar.

 

E talvez então percebas 

que tudo o que renasce em ti 

também desperta em mim 

como um segredo que o sol 

ainda não aprendeu a guardar.




BL

22.02.26






sábado, 21 de fevereiro de 2026

Íngreme

 


Foto de JL



Avança sem bússola
um corpo que se adivinha apenas pelo rumor do chão.

 

Procura o intervalo onde a luz se desvia
e ali pousa
como quem aprende a demorar-se no indizível.

 

Sobe degraus que se desfazem
desce outros que nunca terminam
acolhe o silêncio que se esconde nas paredes gastas.

 

Não aceita promessas de passagem
nem o teatro de mãos

prontas a medirem afetos. Prefere o gesto que nasce sem testemunhas
a ternura que não exige troféus.

 

E assim segue.
Entre o quase e o ainda não
entre a sombra que o persegue
e a sombra que o protege.

 

Um itinerário que se inventa a cada passo
imprevisível
como quem aprende a existir

sem pedir licença.




BL

21.02.26