Tanto quiseste
que o querer deixou de ser verbo
e tornou-se substância. Uma matéria primeira
anterior ao corpo
quando o tempo ainda não sabia dizer-se.
Quiseste ser poeta
mas nesse gesto nasceste antes da própria língua
como se o mundo esperasse
que o teu olhar
lhe desse forma.
Quiseste ser palavra
e a palavra
ao reconhecer-te
abriu um espaço entre o que existe
e o que insiste em existir.
As raízes do teu sangue pediam tinta
eram linhas de força
tentativas de tocar o invisível
com a fragilidade de um gesto humano.
E no delírio do verso principal
onde a imagística se descola da temporalidade
o poema converte‑se no próprio olhar.
Uma máquina que não gera imagens
mas o princípio que as antecede.
Porque
aos poetas
não nascem miradouros no olhar.
Aos poetas
nasce o próprio olhar.
E o mundo
ao deixar‑se atravessar por ele
descobre que também pode ser poema.
BL
05.08.26