quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Inconsequências do lume





O lume que deixaste
à beira do poema

ainda procura
o corpo que o sonhou.

Há cinzas que guardam
o eco das gaivotas

como se cada asa soubesse
traduzir
o relâmpago.

Um trinado
distante
atravessa o silêncio
e instala-se no intervalo
entre duas mãos que não sabiam ser eternidade.

As giestas
verdes de espanto
inclinam-se para o que não se vê.

Um sopro
talvez
ou a memória de uma luz que não se apaga.




BL
12.08.26





terça-feira, 11 de agosto de 2026

Luz oblíqua

 



Às vezes

a dor encosta-se ao voo interrompido

de pássaros que perderam o mapa das estações.


Lado a lado

desatamos os nós da noite

e deixamos que as vozes se tornem claridade

mesmo quando a inquietação nos atravessa.


As palavras arrastam um brilho clandestino

na dobra inquieta do silêncio.


Nas paredes

o lume hesita.

Um traço

talvez

ou a vibração de uma luz que não se fixa.


A linha do tempo inclina-se

imprevisível

como se procurasse o gesto que a inventou.


E quando o horizonte nos toca

mesmo que de leve

sabemos que a carícia é também promessa.

A de continuar a conceber a luz

onde o mundo insiste em ser penumbra.



BL

11.08.26







quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Origem


 



Tanto quiseste

que o querer deixou de ser verbo

e tornou-se substância. Uma matéria primeira

anterior ao corpo

quando o tempo ainda não sabia dizer-se.


Quiseste ser poeta

mas nesse gesto nasceste antes da própria língua

como se o mundo esperasse

que o teu olhar 

lhe desse forma.


Quiseste ser palavra

e a palavra

ao reconhecer-te

abriu um espaço entre o que existe

e o que insiste em existir.


As raízes do teu sangue pediam tinta

eram linhas de força

tentativas de tocar o invisível

com a fragilidade de um gesto humano.


E no delírio do verso principal

onde a imagística se descola da temporalidade

o poema converte‑se no próprio olhar.

Uma máquina que não gera imagens

mas o princípio que as antecede.


Porque

aos poetas

não nascem miradouros no olhar.


Aos poetas

nasce o próprio olhar.


E o mundo

ao deixar‑se atravessar por ele

descobre que também pode ser poema.




BL

05.08.26









terça-feira, 4 de agosto de 2026

Cruzamentos de luz






Há gestos que não precisam

de voz

para serem escutados.


Basta que alguém os reconheça 

e

nesse instante

tornam-se presença.


Como quem pousa um pensamento

na palma da tua mão.



BL

04.08.26






Há sempre outro poema à espera





Se no teu verso o mundo hesita

eu venho ser o passo seguinte

um sopro que se encosta ao teu.


Se falas da noite

trago-te o lume.

Se falas de mar

ofereço-te a margem.


Se o teu poema é somente um murmúrio

o meu é a voz

que nasce dentro dele.


Porque a tua palavra abriu o caminho.

E a minha

agora

caminha a teu lado

para te encontrar.



BL

04.08.26








Aura






Há palavras que soam a brisa

não pelo que dizem

mas pelo modo como chegam


como pousam a mão no ombro

e

por um instante

fazem o mundo parar.


Ficam ali

como um resto de luz

que permanece

mesmo depois de o silêncio voltar.



BL

04.08.26










quinta-feira, 30 de julho de 2026

Sementes e janelas





Escreves prata

e o brilho inquieto permanece nas mãos

como um eco daquilo que foge

sempre que tentamos tocá‑lo.


Existem fragmentos que não se deixam recolher.

Correm.

Como se a pele fosse um rio

a descobrir a sua própria direção.


As sombras que inventas não escurecem. Florescem.

São sementes insubmissas ao silêncio

a procurarem janelas onde a primavera ainda respira.


Falas de olhos

onde o tempo se perdeu.


Mas talvez o tempo seja apenas um viajante distraído

que regressa

sempre que a maré o chama.


E

se as estradas são pólen de lua cheia

cada passo é já um astro

a desdobrar horizontes sobre o mar.




BL

30.07.26