quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Anterior à pedra




As paredes aprendem a caligrafia das fissuras.

E não desabam.


Perde-se a água.

Perde-se o caminho da água.

Mas uma sede anterior ao rio continua.


E

quando o mundo encerra uma das suas portas

quando o peso inclina os dias

para uma geometria de ruína

não é a esperança que permanece.


Nem a coragem.

Nem sequer o nome.


Apenas

esse grão irredutível

essa matéria sem linguagem

essa espécie de pedra anterior à pedra


que continua a erguer-se

dentro do abismo

sem motivo algum. 




BL

14.10.26





A intimidade da terra




Ninguém vê
o lento trabalho da raiz 
a atravessar a escuridão.


Só a folhagem recebe os aplausos do verão.
Mas é no escuro que a árvore
aprende a paciência.


Passam aves.
Passam nuvens.
Passam nomes que julgávamos eternos.
A árvore fica.


Não vence o tempo.
Mas consente a sua passagem.


Perde folhas.
Perde sombra.
Perde ramos
à geometria dos ventos.


E
ainda assim
todas as primaveras arrisca novamente
a claridade.


E continua.
Ergue para o alto o que encontra em baixo.
Pedra.
Água.
Silêncio.
Abismo.


E transforma tudo
numa linguagem de folhas.


Talvez viver não seja mais do que isto.

Crescer
na direção daquilo que nos excede

enquanto as raízes aprofundam lentamente
a intimidade da terra.


E aceitar
que o vento leia em nós o livro inteiro
página após página

até restar apenas
a transparência dos ramos
escrita sobre o inverno.



BL

14.10.26





domingo, 11 de outubro de 2026

A geografia instável das correntes

 



Crescemos assim 

dentro da sílaba húmida das falésias.

 

Às vezes 

éramos apenas uma inclinação da luz 

sobre o dorso esquecido das marés.

 

O sal atravessava-nos 

como uma língua anterior à boca 

como um rumor de conchas a aprender o peso da noite.

 

Debaixo das pedras 

dormiam aves sem céu. 

Debaixo das aves 

dormia o vento.

E o vento sonhava com a forma indecisa da água.

 

Crescemos assim. 

Fragmento dentro de fragmento 

espuma dentro da espuma 

até o horizonte se tornar uma ferida transparente.

 

Não conhecíamos portos.

Trazíamos nas mãos apenas a geografia instável das correntes.

Nem barcos. Nem velas.

 

Apenas essa obstinação do ar 

a conduzir-nos para o interior das distâncias.

 

E quando o mar nos chamava 

já não era o mar.

Era a pedra 

lentamente 

a recordar-se do vento.




         BL

         11.10.26 








Ninguém transporta memórias



As palavras não nos pertencem.

Atravessam a pele
como aves que transportam no bico
fragmentos de incêndio
e de neblina.

Debaixo das pálpebras
guardamos pequenos estilhaços de horizonte
a luz incompleta das coisas perdidas
a paciência das pedras voltadas para o mar.

E
quando o silêncio regressa
regressa vestido de raízes.

Então percebemos
que ninguém transporta memórias.

São as memórias que nos transportam
através daquilo que fomos

para esse lugar sem mapa
onde a esperança e o desencanto
ainda dormem sob o mesmo rumor de folhas.





BL
11.10.26









quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Inventário

 



Nesta margem dobrada dentro da água
resta uma luz imperfeita
presa ao frio dos ramos.


As horas inclinam-se
sobre o pó das imagens.


Na curva das colinas
apaga-se devagar
uma distância.


Depois da última claridade
as folhas recolhem
os contornos da tarde.


Sobre a terra húmida
o vento desaprende o caminho.


A memória adormece na matéria.




BL

08.10.26





Também o tempo



Nenhuma água conserva o rio.

Nenhuma estrela demora a noite.


Sobre a pedra vazia

esquece-se uma luz

entre as folhas.


Também o tempo

pousa no silêncio.




BL

08.10.26






domingo, 4 de outubro de 2026

O homem que pintou o céu

 

 



O homem subia devagar

com o azul a escorrer dos dedos.


Cada gesto seu era uma pergunta

que o universo respondia em silêncio

como se a luz fosse

um fruto que só amadurece

no silêncio.


O homem tocava o ar

e o ar acendia‑se.

Uma pequena febre de cor

trémula

no limiar das nuvens.


Ninguém sabia o nome do homem.

Mas as aves pousavam nos seus ombros

como se reconhecessem a origem do voo.


Alguns juravam que ele não existia.

Que era só o modo

como o mundo se imaginava a si mesmo.


Mas havia noites

em que uma linha de luz atravessava o escuro

como um pensamento inaugural.


E então compreendíamos.

Não era o céu 

aquilo que ele pintava.

Era o invisível

a tentar aprender a ser mundo.



BL

04.10.26