sábado, 18 de agosto de 2012

... até encontrar a palavra certa...



Tento dizer de um recomeço
de um tempo que não seja de noite
e os olhos não deslizem pelo silêncio
das paredes
e os girassóis de agosto
não sejam pausas
entre a rotina das coisas.

Continuo a olhar para pontos distantes
atravesso o céu e não vislumbro
de mim um rosto
a minha voz ao longe
memórias de mim
feitas de pormenores importantes.

É inútil falar de ecos
de casas a preto e branco
é preferível calar-me
até encontrar a palavra certa.

BL

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Trans-verso


o silêncio
disperso

em movimento opaco
de sílabas átonas

os olhos secos
o olhar vazio
irrefletido espelho
indecifrável rio

segredos
a rasgar a pele
pedras
a verter do peito

sombras
nos dedos

limiar do rosto
pôr do sol e sal
a atravessar o verso.




BL





terça-feira, 14 de agosto de 2012

Húmus



Damo-nos as mãos e a leveza do chão
acende-nos sorrisos novos nos passos.

O tempo solta-se de mim
sentado num qualquer degrau
de uma trajetória inteira
que se assume única e verdadeira.

O rumo é agora o ramo de girassóis
espalhados sobre a mesa
e um mar espelhando luas
fertilizando sóis.

Há uma linha verde que te acena e te segreda quem és
a energia que te aquece
o que te faz partir
as sementes que tens
para lembrar.

 Moldas no teu gesto o movimento certo
em que te permites dizer o que te trouxe
até aqui
e onde eternizar as marés do teu olhar.

Longo é o caminho
longo.

Envolvo-me nas tuas cores
sigo o teu caminhar
corro a teu lado
pássaro
vento
borboleta azul
canção de embalar.

E o rio flutua
suspenso da liquidez da voz
que às vezes foge
às vezes voa.

Nele vagueiam silêncios
entre as pedras polidas que refletem o verde do céu
e nomes de aves soletram a força das ausências.

Nele repousam as lembranças
que atravessam as margens e clareiam as sombras
para reunir a casa
e reconstruir o tempo.

BL




quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O tempo nada sabe de mim


Há uma ponte que me atravessa
uma cidade debruçada sobre o rio
a chamar-me
de dentro das manhãs
onde guardo o tempo.

De nada me serve
correr por entre as nuvens
encerrar todas as dúvidas
e temores
numa lua cheia de olhares de outrora.

O tempo nada sabe de mim
desconhece que eu sou
um silêncio anónimo
a vencer-me neste lado do mar
enquanto a cidade canta
num bailado de luz
escreve a história em paredes subterrâneas
esquece as horas
apaga o tempo
e recolhe nos lábios
as chuvas que caem dos dias
em sussurros de águas memoriais.

BL

domingo, 5 de agosto de 2012

Plano inclinado



Passa por mim uma brisa fria
na beira do fim

e eu deixo-me ficar.

Desconcentram-se as sílabas ditas
param até de inspirar

e eu deixo-me ficar
só.

Escorre o mundo
pela planta dos meus pés
desnuda-me a desimportância das coisas

e eu deixo-me ficar.

Fecham-se os olhos
secos
porque secaram todas as gotas
da água que circulava em mim.

A  pele move-se
desliza
como se quisesse transcender
os limites da memória
em que a obrigo a viver.

E eu
só
deixo-me ficar

no silêncio
do filamento quebrado

dos grãos de areia
onde enterro os dedos.

Escrevo na terra palavras sós
e sinto o ar a  passar entre as unhas
e a minha liberdade.

Pode ser que em cada nova letra
a história comece de novo
a respirar.

E eu consiga então

não me deixar ficar

só.

BL


terça-feira, 31 de julho de 2012

Na meia-voz das palavras



Venho de um tempo feito de longes
de um tempo insuficiente
suspenso no outro lado do mundo
entre raízes de mitos submersos
e a agonia do poente
preso às lágrimas dos versos.

Olhares opacos movem-se atrás de muros
segredados
o chão abre-se em fendas
escorrega sob os meus pés
agarrados ao vento.

Mas os meus dedos calam suavemente a solidão dos ciprestes
guardam docemente os retratos
rasgados no adormecer do sol
e recontam as histórias
que o silêncio das árvores faz descer dos ramos dourados
e sonhar aromas de violetas
na meia-voz das palavras.

BL