domingo, 4 de outubro de 2026

O homem que pintou o céu

 

 



O homem subia devagar

com o azul a escorrer dos dedos.


Cada gesto seu era uma pergunta

que o universo respondia em silêncio

como se a luz fosse

um fruto que só amadurece

no silêncio.


O homem tocava o ar

e o ar acendia‑se.

Uma pequena febre de cor

trémula

no limiar das nuvens.


Ninguém sabia o nome do homem.

Mas as aves pousavam nos seus ombros

como se reconhecessem a origem do voo.


Alguns juravam que ele não existia.

Que era só o modo

como o mundo se imaginava a si mesmo.


Mas havia noites

em que uma linha de luz atravessava o escuro

como um pensamento inaugural.


E então compreendíamos.

Não era o céu 

aquilo que ele pintava.

Era o invisível

a tentar aprender a ser mundo.



BL

04.10.26