domingo, 10 de janeiro de 2021

Já não sei se há domingo

 


Já tive uma rua inteira

aberta

cheia da luz de domingo

e uma porta deslumbrada

por onde essa luz entrava

completa.


Tinha também um rio

que passava ao pé da porta

de águas mansas e frescas

onde a vida se espelhava

e o meu corpo suspirava

pelo brilho de domingo

das flores

e das borboletas.


E nos meus olhos de mar

sorria a pureza do mundo

cabia um céu de gaivotas


[até deus tinha um lugar]


dentro dos meus olhos de mar

ao domingo.


Já não tenho nada

já não quero nada

já não sei o meu lugar

já não sei se há domingo

nem mesmo se quero o sol

a nascer detrás da noite

a ofuscar o luar

em cada madrugada.



BL

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Ensina-me um mar...


 


Se um dia me vires caída
sob a minha sombra
pergunta à vida
onde escondeu as pedras polidas
que não me deu. Nelas me deitei
regato e em manhãs
de pássaros voei um tempo
que nunca foi meu.

Rasguei no vento passos doridos
e às vezes dói-me
o frio dos rios
em poeiras da alma que o silêncio soprou.

Se um dia me vires caída
sob a minha sombra
acende luas no meu olhar
e nos teus olhos de água
ensina-me a vastidão de um mar
em que das pedras me perca
sem que me perca de mim.

BL

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Paradoxos

 





Um inverno a atravessar o texto. Parágrafos vazios
ausência de vogais
a gritar silêncios.

A pele sedenta de espaços de neve branca ou de
papoilas quentes
a redimensionarem a vida.
E deuses pacientes
o coração tranquilo
na marginalidade do verso.

Tudo se reduz ao ruído de vendavais
à sinuosa curva sublinhada pela
dualidade dos caminhos.

BL

sábado, 28 de novembro de 2020

Já não existem janelas

 


A minha rua chove de solidão.

Os rostos partiram

lívidos

e levaram com eles os portões abertos e

os risos das crianças heróis

da fórmula um

em carrinhos de madeira construídos

nos quintais.

Nos muros da minha rua sobe o abandono e

entranham-se odores de podridão.

Já não existem janelas e

neste silêncio vazio de lágrimas

eu já não sei que horas são

e fujo

fujo

sem caminhar.


BL – 28.11.20





sábado, 21 de novembro de 2020

Ao fundo, uma parede em branco


 

Penteavas-me a trança

e metade de mim a ser

a parede em branco

ao fundo dos meus passos vagarosos.



Caminhava para trás

os braços despidos de folhas



estendidos para dentro

dos teus olhos a dizerem vai



que é frágil

e débil

a luz que sobra.



E eu a atravessar a rua antiga

e eu a ser

correndo

a outra metade de mim.



BL

sábado, 14 de novembro de 2020

Pássaro de todas as estações

Foto de J. Luz

 


 

O som do desterro cala-me

a voz


e o silêncio entranhado

nos versos

afia as arestas do pensamento

disperso entre veias de

ventos e de inglória bonança.


As palavras pararam porque

o tempo sucumbiu

no pretérito imperfeito das memórias


e nas praças ateiam-se incêndios

a clamarem a ilusória mutabilidade dos corpos.


Selaram as portas

e os rostos explodem desamores.


Longe

muito longe

transporta novembro o meu olhar de outrora

pássaro de todas as estações.


BL


domingo, 13 de setembro de 2020

Saudade


 

Caminho repartida

por entre longes e metamorfoses do tempo. Envelhecendo

pólen e certezas

ecos das brisas que me sobram

de uma janela que cresceu

voltada para sul.


Desenho nas paredes

os rostos e os fascínios

por onde passa o coração da casa


ou talvez apenas

os sinais prometidos

do gesto circular dos regressos.


No calendário das solidões

o voo migrante das primeiras folhas.


Sigilosamente interrogo o verde breve de setembro.


Raízes de ausências

lugares de ruas desabitadas


retornam vazias

as minhas mãos.



BL