Crescemos assim
dentro da sílaba húmida das falésias.
Às vezes
éramos apenas uma inclinação da luz
sobre o dorso esquecido das marés.
O sal atravessava-nos
como uma língua anterior à boca
como um rumor de conchas a aprender o peso da noite.
Debaixo das pedras
dormiam aves sem céu.
Debaixo das aves
dormia o vento.
E o vento sonhava com a forma indecisa da água.
Crescemos assim.
Fragmento dentro de fragmento
espuma dentro da espuma
até o horizonte se tornar uma ferida transparente.
Não conhecíamos portos.
Trazíamos nas mãos apenas a geografia instável das correntes.
Nem barcos. Nem velas.
Apenas essa obstinação do ar
a conduzir-nos para o interior das distâncias.
E quando o mar nos chamava
já não era o mar.
Era a pedra
lentamente
a recordar-se do vento.
BL
11.10.26
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