domingo, 11 de outubro de 2026

A geografia instável das correntes

 



Crescemos assim 

dentro da sílaba húmida das falésias.

 

Às vezes 

éramos apenas uma inclinação da luz 

sobre o dorso esquecido das marés.

 

O sal atravessava-nos 

como uma língua anterior à boca 

como um rumor de conchas a aprender o peso da noite.

 

Debaixo das pedras 

dormiam aves sem céu. 

Debaixo das aves 

dormia o vento.

E o vento sonhava com a forma indecisa da água.

 

Crescemos assim. 

Fragmento dentro de fragmento 

espuma dentro da espuma 

até o horizonte se tornar uma ferida transparente.

 

Não conhecíamos portos.

Trazíamos nas mãos apenas a geografia instável das correntes.

Nem barcos. Nem velas.

 

Apenas essa obstinação do ar 

a conduzir-nos para o interior das distâncias.

 

E quando o mar nos chamava 

já não era o mar.

Era a pedra 

lentamente 

a recordar-se do vento.




         BL

         11.10.26 








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