terça-feira, 4 de junho de 2019

Ser lugar

Multiplicamos as vozes
num jogo de sombras a desdizerem
a solidão dos dias. Acumulamos enganos
e silêncios instalados

damos a volta à saudade
como se mergulhássemos a vida inteira
no olhar do entardecer.

Vivemos num casulo de pequenos
nadas
os ombros a tocarem o chão
enquanto dobramos a dor para dentro da pele.

E enquanto o lápis nos guia os passos
entre ruídos noturnos

há um ponto que nos chama
à procura de um lugar.

BL

segunda-feira, 3 de junho de 2019

É ainda de dia

Vá, rápido, deixa cair
essa história no chão.
Lê os paradoxos que me doem na cabeça,
é ainda de dia, junta-te a mim,
vamos abrigar-nos na brisa
e deixar o tempo parar.

Vá, rápido, não quero chorar.
A luz é tardia,
temos segredos a procurar,
a nossa música para misturar.

Há lagos a construir,
há pontes para atravessar.

Vá, rápido.
Não quero chorar. Não quero chorar.

BL
03.06.19

terça-feira, 28 de maio de 2019

Por que secaram as buganvílias?



Regresso ao poema com letras
maduras no coração do degelo. Como gestos marcados
pela música do olhar onde o teu
sorriso morava.

Cruzas no teu rosto palavras
indecifráveis
espartilhadas num espaço onde a claridade
se apagou.

Por perto o medo
a morder-te os traços cansados.

Deslizas
impreciso
abandonado de palavras
a impedir o choro e o
silêncio das veias.

A obrigação de resistir. Até à extinção
da cor.

BL – 28.05.19

sábado, 4 de maio de 2019

Na pele gretada das palavras

Cheio de palavras de sol
rumaste ao norte
a preparar a madrugada.

Não deste conta das raízes
a enterrarem o choro
na concha das mãos.

Sobra-me o adeus
nas pontas dos dedos

enquanto uma solidão de chuva
move o fio da vida
e as sílabas do abandono
entre os lábios do poema.

BL
04.05.19

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Do grito ao eco

É o grito em movimento. Uma espiral
de espaços na pulsação do tempo
como passos a desenharem os sobressaltos e as oscilações da vida.
Uma sinfonia a alimentar as palavras guardadas letra a letra
sob a pele adormecida.
Habitada de solidão.
A resistir aos afetos onde arrumas
as personagens do esquecimento. As coisas do esquecimento.

A tua pele adormecida. A desafiar o silêncio
a esculpir as horas como um abrigo
para os teus dias.

O grito em movimento. Em busca da metamorfose
do tempo. A doer na palidez do branco.

BL
21.04.19

segunda-feira, 11 de março de 2019

No corpo da noite


Aqui ando repetindo monólogos
tentativas que caem dos dedos
como quem segue raízes
de sangue no interior do tempo.

Raramente são árvores vestidas de verdes
os monólogos.
Atravessam nomes e lugares de melancolia
ou paredes cobertas de passado.
Às vezes percorrem ruas que vivem intensamente a primavera
ou somente os silêncios que erram pela casa
a desembrulharem a vida
a hibernarem no papel.

BL
10.03.19

quarta-feira, 6 de março de 2019

Por uma vírgula

Suspender o tempo na vírgula
que quebrava o espaço.

Tomar a asa de fogo
incêndio do pensamento

saber-te sonho 
mar que me fosse cais
um punhado de terra que me fosse chão.

Em silêncio calaria a vírgula sem rosto
que separava o tempo.
A circunscrever o lado
mais aceso das reticências...

E as vozes alarmadas do vento
a galgarem as margens

como náufragos a revestirem o tempo
de bebedeiras que
morriam.

06.03.19