terça-feira, 28 de maio de 2019

Por que secaram as buganvílias?



Regresso ao poema com letras
maduras no coração do degelo. Como gestos marcados
pela música do olhar onde o teu
sorriso morava.

Cruzas no teu rosto palavras
indecifráveis
espartilhadas num espaço onde a claridade
se apagou.

Por perto o medo
a morder-te os traços cansados.

Deslizas
impreciso
abandonado de palavras
a impedir o choro e o
silêncio das veias.

A obrigação de resistir. Até à extinção
da cor.

BL – 28.05.19

sábado, 4 de maio de 2019

Na pele gretada das palavras

Cheio de palavras de sol
rumaste ao norte
a preparar a madrugada.

Não deste conta das raízes
a enterrarem o choro
na concha das mãos.

Sobra-me o adeus
nas pontas dos dedos

enquanto uma solidão de chuva
move o fio da vida
e as sílabas do abandono
entre os lábios do poema.

BL
04.05.19

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Do grito ao eco

É o grito em movimento. Uma espiral
de espaços na pulsação do tempo
como passos a desenharem os sobressaltos e as oscilações da vida.
Uma sinfonia a alimentar as palavras guardadas letra a letra
sob a pele adormecida.
Habitada de solidão.
A resistir aos afetos onde arrumas
as personagens do esquecimento. As coisas do esquecimento.

A tua pele adormecida. A desafiar o silêncio
a esculpir as horas como um abrigo
para os teus dias.

O grito em movimento. Em busca da metamorfose
do tempo. A doer na palidez do branco.

BL
21.04.19

segunda-feira, 11 de março de 2019

No corpo da noite


Aqui ando repetindo monólogos
tentativas que caem dos dedos
como quem segue raízes
de sangue no interior do tempo.

Raramente são árvores vestidas de verdes
os monólogos.
Atravessam nomes e lugares de melancolia
ou paredes cobertas de passado.
Às vezes percorrem ruas que vivem intensamente a primavera
ou somente os silêncios que erram pela casa
a desembrulharem a vida
a hibernarem no papel.

BL
10.03.19

quarta-feira, 6 de março de 2019

Por uma vírgula

Suspender o tempo na vírgula
que quebrava o espaço.

Tomar a asa de fogo
incêndio do pensamento

saber-te sonho 
mar que me fosse cais
um punhado de terra que me fosse chão.

Em silêncio calaria a vírgula sem rosto
que separava o tempo.
A circunscrever o lado
mais aceso das reticências...

E as vozes alarmadas do vento
a galgarem as margens

como náufragos a revestirem o tempo
de bebedeiras que
morriam.

06.03.19

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Uma estrela uma árvore um rio

Ausentes de caminhos
os teus passos atravessam o texto.
O teu rosto
opaco
sedento de palavras cúmplices
que te desenhem planícies que ainda existam.
Dói te o silêncio confuso
que te desarticula o tempo.
Tudo se reduz a um espaço vazio
que se alastra e adensa
e corrói um sussurro sequer
que te traga uma estrela uma árvore um rio.

Há um inverno
que se atravessa no texto.
E os meus olhos embaciam de sal as palavras.

Porque me queima o silêncio
de uma estrela de uma árvore de um rio.

B.
06.01.19

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A tranquila idade dos poentes

E os dias a vaguearem pelas ruas
desertas de um labirinto onírico em constantes
mutações de sombra e luz
onde a esperança se levanta entre o sobressalto
da penumbra.

Dizem-me vozes sensatas que é preciso
que os dias sorriam
e as ruas sejam iluminadas

e que é preciso amar os mil sussurros
mansos que compõem o silêncio.

Um dia saberei talvez sonhar as asas
das gaivotas
ou o diálogo dos poentes de fogo.

Hei-de saber atravessar a luz
onde o teu nome repousa.

B.
11.12.18