segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Manifesto de ser






Não me venham com silêncio.
Eu sou barulho.
Sou trovão preso na garganta
sou incêndio que não se apaga.
 
A solidão tentou domar-me
pôs-me coleira
chamou-me fraca.

Mas eu mordi a mão
que me alimentava com migalhas de afeto.
 
Não sou ausência.
Sou excesso.
De pensamento
de desejo
de tudo o que não cabe em ninguém.
 
O mundo quis-me quieta
curvada
vazia.

Mas eu sou tempestade.
E tempestade não pede licença.
 
Se é para estar só
que seja com fúria.
Que o eco do meu grito
faça tremer os muros
dos limites que nunca me couberam.






BL
11.08.25






sábado, 9 de agosto de 2025

Sem ruído

 




 

Existem dias em que o mundo
se afasta

devagar
como quem não quer ferir.

 

A casa fica maior
os sons mais fundos.
Os ponteiros param
parecem respirar.

 

Não há ninguém.
Mas há tudo o que fui
tudo o que pensei.
Sem falar.

 

A solidão não é falta.
É campo aberto.
Onde a alma se escuta
sem ruído.




BL

09.08.25








sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Atrás do vento

 





Há tardes que me chamam
com vozes de outra época.


Nos cantos da memória
espreitam risos

e passos

que foram apagados

na calçada.

 

O tempo não leva tudo.
Deixa marcas

nos vidros das janelas
reflexos de mim quando ainda

 

corria atrás do vento
e acreditava no calor das promessas.

 

Hoje

guardo em silêncio
esboços preteridos
como quem conserva retratos desbotados.

 

E

mesmo sem saber voltar

ardo em lembranças

que ainda perfumam o ar da tarde.

 



BL

08.08.25



 

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Entre regras e ruínas

 







O poeta não fala.
Constrói silêncios com sílabas feridas
como quem fecha os olhos
para escutar melhor a dor.

 

A gramática arde.
Sangue em combustão recusa sintaxe
desenha no corpo uma oração sem deuses
onde o amor tropeça nas vírgulas
que não se justificam.

 

Nos dicionários
a eternidade corrige-se com lápis gasto.
Os verbos morrem de cansaço
entre definições que não souberam sentir.

 

E o verso?
Talvez seja penitência
uma escada quebrada
entre o coração e a boca.

 

O poeta escreve.
Erra.
Insiste.
Como quem salta do abismo
e espera que a luz venha a tempo de traduzir
a queda em linguagem.

 

Resta o homem
esboço cru
tatuado de metáforas
que não consegue amar sem sangrar.

 

E o poema
esse pequeno exílio
desaprende a nascer
com medo de ser vivido.







BL

07.08.25







quarta-feira, 6 de agosto de 2025

no escuro

 





sou
porque há sombra

 

a luz
revela

 

tu vês
porque me contorno

 

sou silêncio
sem mostrar mais
do que isto

 

segue a sombra
ela estende-se
onde passei

 

procura-me
ali

 



BL

06.08.25





terça-feira, 5 de agosto de 2025

Carta ao vento

  







Hoje

vi-te passar.

 

Tinhas o passo vagaroso

como quem conversa com as pedras.

 

Levaste contigo

o cheiro da manhã

e uma saudade amarrada aos dedos.

 

Não me viste.

Mas deixei-te esta carta

pendurada no ar.

 

Se te tocar no ombro

saberás que há quem te vê

com olhos de árvore.






BL
05.08.25








segunda-feira, 4 de agosto de 2025

ao longe, tu

 





daqui

telhados
ruas que não dormem
árvores que abrigam pessoas
e casas com folhas nos alicerces.

 

caminhas
entre pedras que te escutam.


eu vejo-te.


não sei para onde
mas sei que vais.

 

fico
presa no tempo de que falam
suspensa num céu que me segura
até o dia te devolver ao mundo.

 

quero tocar-te no ombro.
dizer: estou aqui.
mesmo que longe
a muitos abraços de distância
consigo tocar-te.

 

se vieres
levitamos.
subimos.
vemos o mundo em linha aberta.
vemos o fim que parece começo
vemos a rua onde deixaste um passo.

 

e eu?
fico
a ver o trilho que te levou
até desapareceres.





BL

04.08.25