segunda-feira, 21 de abril de 2025

Tinham o queijo e os moldes

 










Fiapos de luz

trémulos

contidos

trazem-me a infância de filas sem fim

uniformes rígidos

passos contados

espera por tudo

e por nada.



Narizes afiados

sob panos escuros

pendiam

imponentes

sombras inquisidoras.



Sorrisos enviesados lançavam metamorfoses ao vento

escorrendo por corredores estreitos

em cada saída uma lâmina.



Tinham o queijo e os moldes

receitas de ferro e de fogo.

Regiam ritmos inaudíveis

e

corre corre corre gritavam vozes.



Mas eu tropecei.



Fiquei para trás.







BL

21.04.25






domingo, 20 de abril de 2025

Em direção à madrugada

 







Um silêncio noturno habita

formas ainda sem nome

carrega horizontes em dobras de

mel e granito.

Ao fundo

fragmentos do passado

raízes que descansam em sombras de pó.

Entre nuvens e sorrisos

uma janela cansada

e a árvore caça-sonhos a correr

em direção à madrugada.

Não há mar que a aparte do vento

à espera de que o poema se mostre

por dentro.





BL

20.04.25






sábado, 19 de abril de 2025

Nos intervalos das horas

 








Conduzo os meus passos

num curso de horas sem voz

ecos do silêncio

de um tempo que não me pertence

[ que nunca escolhi

e me persegue ]



As sombras arrastam-se

no ventre do vento que murmura a partida

[ refazem-se numa brisa antiga ]

escondo nas palavras as arestas

de uma luz esquecida.



Sobra um fogo que persiste

um brilho discreto à margem dos dias

um lampejo rebelde que ousa ainda respirar.



Os céus pesam de ausência

e a noite desenrola-se sem promessas.



E escrevo. Sílabas de asas trémulas

onde sou inteira

[ por detrás dos dias imóveis ]

tecendo nos intervalos das horas

um mapa de regresso à pele que me envolveu.













BL

19.04.25










sexta-feira, 18 de abril de 2025

O que foi acerto e o que foi deserto


 








Nas minhas memórias me vou encontrando

nos ecos suaves de um verso brando

onde as águas do tempo

em fluxo incerto

revelam o que foi acerto

e o que foi deserto.



Às vezes

sou sombra

sem sentido

vagueio perdida

longe do abrigo

reflexo distorcido de uma crença antiga

que já foi porto

e agora

é névoa amiga.



Deslizo em silêncio

passo sem ruído

entre o sonho e o real

sigo decidida

e na curva do tempo onde tudo se alinha

encontro em mim mesma

a luz que caminha.






BL

18.04.25







terça-feira, 15 de abril de 2025

Batente de porta

 






A solidão que repousa nos olhos

este vazio tão antigo

tão magro

uma linha de água a arrastar-se no tempo.



O tempo

impassível

a moldar o silêncio.

Rotas de dor e de coragem

latentes.



E o passado a sussurrar

vozes persistentes.



Fui sonho

e batente de porta



às vezes punho cerrado

às vezes coração disfarçado.



Avisos amarelos de disrupção da alma

este oceano inquieto

ondas que afagam e ferem

esta dança lenta entre sombras e luzes

a dissolver-se

sem nunca partir.





BL

15.04.25









segunda-feira, 14 de abril de 2025

Sombras de um poeta


 








Todas as casas têm raízes

que não quebram.

Afundam-se

órfãs

na pele do silêncio

como se fossem sombras de um poeta

[desses que sangram versos sobre as pedras

a desenharem asas onde há ruínas

cantando por aqueles que são esquecidos

os que perdem os nomes

e a caligrafia pálida do tempo.





Todas as casas respiram o vazio.

Ecoam

mudas

na noite aberta



enquanto o amor

com olhos fechados

tateia a ausência

e dissolve o fogo nas veias.



Todas as casas escrevem sem mãos.

Gravam

cegas

histórias sobre o vento

por não saberem caminhar sozinhas

por não lembrarem a cor dos passos perdidos

[só a loucura do poeta é memória sobrevivente da vida inteira:

mas de olhos cerrados

quanto é real?






BL

02.04.25










sexta-feira, 11 de abril de 2025

Fora do tempo



 



Os dias desdobram-se entre espirais

de cinza e de luz.

Nas árvores brotam segredos


[fora do tempo]


e os ventos atravessam ecos

de vozes indecifráveis.


Procuro-me num espelho quebrado

entre fragmentos que distorcem memórias

palavras fluem como rios sem destino

que vêm de terras que nunca vi.


A pele do mundo rasga-se em silêncios.

A luz dança

crua

inquieta

no cansaço das estrelas.


O vazio aproxima-se

tranquilo

como um lago a consumir a margem

sem pressa.


Sou um nome sem pátria

presa ao tempo

a desenhar flores nas páginas do amanhã

a procurar raízes onde o chão já se dissolveu

a tentar lembrar aquilo

que nunca esqueci.


Sou um nome que observa os passos da solidão

um nome que pertence ao instante infinito

e aos desertos que florescem

dentro de mim.






BL

11.04.25