quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Neste resto de verão

 






Neste resto de verão

a noite adormece

e para surpresa da lua o poema


cresce.


Podia anunciar um beijo

o teu nome

na brisa


sementes que fomos


os dias breves

voláteis

asas efémeras


o espaço que somos.


Foi só mais um dia

inquilino da memória


e


ao fim e ao cabo

o poema cresce

sem contar a história.


Uma história de sol

que em mim

crepitava


quando era nascente


e em ti já penumbra

a poente

declinava.


Esta história

afinal

aqui é uma ilha.


Sombria

e

monótona


a ninguém maravilha.


BL

11.10.23








terça-feira, 3 de outubro de 2023

Parei num tempo carregado de pedras

 







Parei num tempo carregado de pedras

pertenço a lado nenhum

e planto a palavra escorregadia

na lama em que tornei

o chão que piso.


A vida dói

nas sombras que anoitecem as paredes

no sorriso que não tens

nos gestos invisíveis

que enegrecem as entranhas

no até p’ra semana

em que me morre o dia.


Não houve olhos vendados

nem rugidos de ventos mudos

na placenta que foi minha e tua.


Rasga-nos a desordem dos ciclos

e as folhas de silêncios

que sustêm o grito.



BL








sábado, 30 de setembro de 2023

Espiral





Sou vento.

Sou plátanos.


Espirais 

em amarelo,

ocre,

sangue.


Redemoinhos

de castanho

e asfalto.


Turbilhão

de brancos

azuis

e cinza.


Sou ébano,

marfim.


Sou Abel

ou Caim.


Sou guerra,

sou paz.


Sou eu

que

sem saber

não sei de mim.




BL

13.11.1989


quarta-feira, 27 de setembro de 2023

À margem do tempo

 






És talvez o silêncio do poema
a conter-se
ao fundo dos olhos
o reflexo da pedra num espelho convexo
o verso esmagado pela demora
do tempo.

És talvez um eco
um murmúrio do vento
a margem sombria de um regato em viagem
a face traída
do sentimento.

És talvez a minha voz ausente
a imagem esquecida
num hiato
a linguagem fria do presente
o desdém da palavra a gritar invernia
num tempo que morre
seco
dia a dia
hora após hora
lá fora.


BL








terça-feira, 26 de setembro de 2023

Nas tuas palavras








Nas tuas palavras

o lado de dentro

para o que resta de mim.


Olho a janela

e procuro um domingo

as ruas

a luz

                               de um domingo                              

do outro lado

do tempo.


No meu corpo

guardo fotos

tempos sem fim

e é-me difícil respirar

neste tão pouco

que sobra de mim.


Nas tuas palavras

a vontade de ser tempo


o silêncio

da minha crueza


a certeza

de a perder de vista


por detrás da opacidade

da minha lúcida 

insanidade.



BL

01.06.11













quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Janelas de sombras

 







segura para ti o tempo

dizias


e na parede

desenhavas janelas de sombras


guardiãs do teu olhar limpo

e dos sonhos mais puros


memórias de vozes

histórias de silêncios.



BL

13.09.23












sábado, 9 de setembro de 2023

Um vulto

 









Queriam crescer

as flores

entre as pedras

e a terra ressequida.


O céu era azul

o olhar também.


E para lá das pedras

para além da terra-túmulo


caminhava o medo

a procurar


abrigo


num olhar azul

perdido entre escombros

e céu sem horizonte.


Um vulto

nítido

no centro da mira.


E um ponto

vermelho

à espera.


BL

09.09.23