terça-feira, 20 de junho de 2023

Rios submersos

 




Dentro de mim voam os silêncios

do tempo em que abria as mãos

e estendia os dias

nas águas claras do sol nascente


abraçava-me o horizonte

no céu de manhãs infinitas

deitadas em véus de espumas ardentes

delírios de verão


desnudam-me ecos de vozes interditas

que transbordaram

de rios submersos em sombras de um destino vão


suspendo na mudez de um grito

a erosão das palavras vestidas de emoção

e retoco no espelho

a verdade da ilusão.


BL

18.01.10









domingo, 18 de junho de 2023

Areias de outro tempo

 



Renascem as palavras

no abraço eterno do azul do vento

erguido de um mar de pirilampos

que nos cantam as areias de outro tempo.


Quanto de mim se espraia

no verde

da tua melodia.


Bebemos o esplendor da alvorada

contudo o sol não é meu

e o poente

é sempre

no avesso do meu horizonte.


BL

30.04.10





(In)quietude






O mundo acordou fechado

dentro de um corpo que se ajeita

atrás da sombra desfeita

e as mãos

libertas

num indefinível harmónio

de palavras

silenciadas


sementes antigas

sob as linhas da pele

ecos traídos de inquieta poesia

que teria sido


infinito o tempo 

em que arrasto o dia

na memória fria de relógios tensos

sobreviventes no quarto decrescente

de um redemoinho 

imóvel 

perfidamente.



BL
01.08.10





sexta-feira, 16 de junho de 2023

Cresceram girassóis dentro dos meus olhos





Arrasto comigo um silêncio d’água

náufraga de memórias distorcidas

inclementes

que desenham palavras ilegítimas

e atiram pedras desesperadas

contra os ténues fios de luz

pendurados neste sábado.


As horas morrem na fragilidade das paredes

e eu mergulhada numa nuvem solitária

à procura de um tempo ancorado num arco-íris

sem saber como renascer

deste redemoinho que me dilui

em círculos de desilusão.


Sinto saudade das sementes que lancei à terra

dos campos de girassóis que cresceram dentro dos meus olhos

quando o tempo ainda não existia

do repouso dos silêncios

de um mar de luz e de mel

a entrar pela janela.


BL

19.11.11








Não-tempo

 


 


Ainda me procuro naquele silêncio arrastado

que o vento levanta. Mas os meus olhos estão gastos

deles sobram apenas as raízes

e a luminosidade baça

que atravessa a vidraça

e arredonda o vazio da sala

repleta

de uma fumaça em dó maior

a pontilhar os móveis

que (no fundo) já lá não estão

também eles querem ser

desmemória.


Então invento um refúgio

num chão

feito de um não-tempo branco


[ onde também eu perdi a cor ]


e de portas trancadas por dentro

que me asfixiam

na dor.


E naquele silêncio arrastado que o vento levanta

há ecos de passos

que passam sem passar

e fogem fogem fogem

e deixam uma voz

que na brisa me avisa


_ Antes ser pó

esquecimento e cansaço

no meu descompasso

do que ser laço lembrança

veludo ou aço

na árvore em que não sou

nem folha nem sombra da vossa história.




BL
08.02.12







A dor do poema






Lá fora

num céu desabitado

o voo desajeitado de um pássaro ferido

na voz acesa do vento

na linha agreste do sonho rasgado.


Fogem árvores nuas

no sentido inverso ao do tempo

e na margem da alma

que o frio intenso consome

as horas

lentas

choram laços invisíveis

são folhas mortas a gemer desalentos

ecos inquietos

pedras

rios dispersos

onde as palavras perderam a cor

o silêncio magoa

o poema é dor.


BL

10.02.12

 


 

Os barcos chamam por mim

 




Os barcos chamam por mim

e eu poiso a cabeça 

sobre o equilíbrio dos dedos

a traçar ruas de acácias dentro do silêncio.

Lá fora a noite chora

entra pela janela

e deita-se nas sílabas invisíveis

que povoam a pele da casa.

O tempo demora

e há mapas cansados

por decifrar

a sobreviver

no entardecer do meu olhar.

Os barcos chamam por mim

o silêncio chora

as acácias voam

no rosto do vento


e o tempo demora.


BL

29.03.12