sexta-feira, 16 de junho de 2023

As rugas da vidraça

 


Estremeço ao aproximar do crepúsculo

a passar

rente aos meus olhos de bruma

há um espasmo líquido

debaixo da pele

um eco

a deixar um rasto de gelo.


Poderia ser então o murmúrio triste

da chuva

uma réstia impura da memória

o entrelaçar dos tempos

da partida

da chegada

as cicatrizes nos dedos

uma silhueta anónima.


Vacilo na viagem

ao interior da lágrima

fendas nas veias

o rasgar da folha

a dor em grito

no cerrar das pálpebras

o dia a soluçar

em gotas de melancolia

a

p

i

n

g

a

r

nas rugas da vidraça.


BL

01.04.12







quarta-feira, 14 de junho de 2023

Guardo silêncios debaixo da pele

 

 



Não me querem bem as palavras

que hoje me queimam os dedos.


O futuro corre atrás de uma porta fechada

e nas veias arde-me um tempo

a sufocar na raiz de um grito.


Morro e renasço em imagens

que choram na frieza de uma tela abandonada

e me segredam hipérboles

entre a claridade e a escuridão.


Assim como quem parte para além do corpo que me guarda

visto-me de sílabas desajustadas

e deixo a alma atrás de um silêncio

que me diz tudo

sem dizer nada. 




BL

 04.08.11










Rascunho




Poderia ser um rascunho


esquecido na janela onde encosto

as chuvas da alma ou balanço as memórias

numa tela sem cor


guardado num reduto interior onde embrulho

o vazio do tempo ou afundo 

a fria dor


extinto no silêncio das águas onde esvoaço

entrelaços ou diluo

desacertos


dissipado nos ramos do vento

planura de espaços onde me faço

eterno movimento


caído numa lágrima onde me cega

a luz que não passa 

e me dói a morte dos pássaros.



BL

12.01.11






terça-feira, 13 de junho de 2023

A luz dos malmequeres

 



Nunca me disseste que partirias

ao romper do dia e que eu ficaria

a conversar com o gelo da noite que acabara de chegar

à procura de nós

e à procura dos nós que já não havia

para simular.


Ficou uma nuvem de chumbo

pendurada no teto

e em mim um abismo de memórias

descompassadas e um silêncio

de ervas daninhas

que

l.e.n.t.a.m.e.n.t.e

me entupia as veias.


E como nunca me disseste

eu não sabia ao certo

que palavras devia transmutar

para que pudesse conjugar a ausência das luas

nesse cinza prematuro.


Mas a pele sentia que

o sopro dos versos desnudaria um muro

onde rasgasse uma fresta e deixasse romper


a luz dos malmequeres

que aos pássaros viesse lembrar

que entretanto amanhecera e que


no poema que se fez manhã

já era primavera.



BL

27.01.11





segunda-feira, 12 de junho de 2023

… ou tão-só um poema

 


E no vento

o que ficou da terra ardida

um coração de neblina

um corpo carregado

de regressos


ou tão-só

o frágil instante das ausências

o indefinível de nós.


Semeio a cor

sob as ardências

vertiginosas do verão


sob os fragmentos de horas circulares


inexoravelmente lentos

inevitavelmente sós.


Recolho na palma da mão

o silêncio gritante das esperas


talvez apenas o voo hesitante

de náufragas sílabas


ou tão-só

a memória de um tempo invisível que parou


inatingível


dentro de nós.





BL

07.07.13







domingo, 21 de maio de 2023

E o teu silêncio a flutuar-me na pele

 






Ao fundo dos teus olhos

a melodia azul

a adivinhar a cor

que se abre na manhã.


Sustenho-me

frágil raiz de onde o teu corpo se alonga


[ prematura ausência ]


Espero-te

num círculo de vozes vagas

e mãos inquietas

despidas de sombra.


Existem tantas perguntas

na seara que se estende

na sede do poema.


Como saberei iludir

os gemidos das memórias?


E o teu silêncio

a flutuar-me na pele.



BL

18.04.2013






sábado, 15 de abril de 2023

Construtora de sonhos

 






Embebo-me de claridade

e construtores de sonhos os meus dedos

tateiam

persistentes

os mares de prata da lua.

A manhã ondeia

e a nudez do céu flutua

em etéreos véus de seda branca.

O tempo vai

o tempo vem

desenha círculos de melancolia

recolhendo aves que o vento fustiga.

Cresce o torpor da neblina

adensa-se a prostração do dia

e de asas defraudadas os meus olhos

vagueiam nos umbrais de um rio

onde definha a fugitiva sombra

de uma sonâmbula

impossibilidade.



BL

02.04.11