terça-feira, 15 de junho de 2021

Somente mar

Foto de JL

 

Redemoinhos de vento isolam

as tristezas de verão

ignoram os olhares mortiços

e as pedras solitárias.


Imagino-te distante e presente

no lado de lá deste tempo que passa.


E um sonho me assombra

e me arrasta


sem caminho a seguir

somente mar

e ilha


mar

e mar.



14.06.21

BL


quarta-feira, 2 de junho de 2021

E o tempo fugia

 



Às vezes adiantava o passo

e fugia

sem se dar tempo

sem saber o espaço para onde ia.


Soletrava o amor

abandonava-se à sorte

iludia-se de horizontes e de palavras sonhadas.


Cega e oculta na mágoa que

a consumia

passava por si

esvoaçava

para um mar de promessas acenadas.


Acostava-se à voz

[ ou vertigem ]

e a sua pele estremecia.


Era a pedra a arder

dentro do grito que o vento mordia.


BL

02.06.21


segunda-feira, 24 de maio de 2021

Ardem silêncios

 


Pouco a pouco apercebes-te

de que apenas sustentas o olhar num calendário

inexato e impalpável.


Refletes na calçada passos solitários

que tingem a tarde de um vento inquieto

e semeias promessas audazes


como sonhos que adormecem sob o peso

do esquecimento

ao fim do dia.


Nos teus olhos dispersos vivem palavras

que gemem os teus silêncios insondáveis ou o sinuoso cansaço

da vida. Talvez nunca desvendem a verdade

das partículas que tu és.

Talvez sejam verbos redentores que esvoaçam na praça

a gritarem sombras a quem passa.


Antes de regressarem ao coração da noite.


24.05.21

BL



sexta-feira, 14 de maio de 2021

Algures entre um voo desamparado



 


Inscrevo os olhos no círculo do tempo

e amaino os ventos

que confundem as palavras.


Desenho auroras de risos claros

como rotas de mel 

sobre as fendas que crescem na verdade dos rostos.


Ouso encher de borboletas incertas

os bolsos vazios do poema


algures entre um  voo desamparado

e o coração fértil

que me prende à terra.


Mas são de sal e silêncio os barcos

que me estendem as mãos.


No outono do mar sou a sede melancólica

e indizível 

um ocaso entediado


no movimento anónimo do corpo.


Corpo anoitecido de sombras e naufrágios

canto de esperas desajeitadas

no dorso noturno das águas plácidas

que me navegam.


BL






domingo, 25 de abril de 2021

Na reinvenção da voz

 


A ventania tolhe a memória

recolhida na linha do arvoredo. Mas as minhas mãos errantes

disfarçam marasmos entorpecidos

enganam fins-de-tarde

dissolvidos no inverno do olhar.


Sorvem o livre movimento das ervas

de onde se ergue a lonjura do tempo

e horizontes antigos abrem-me no corpo

a brevidade do sonho

ou do esquecimento.


Como um silêncio antigo

à procura da sílaba exata na dança dos pássaros

refaço a voz na reinvenção das horas


e vou inscrevendo o crepúsculo e ramos

despidos

nas raízes dos afetos

que me prendem

ao azul inicial da palavra.


BL

01.02.14


sábado, 24 de abril de 2021

Amanhã chegarás mais cedo

 



Amanhã chegarás mais cedo e será quando

a primavera entrar pela janela.

Num instante tudo se sobrepõe à

tempestade de silêncio e

será quando um sonho de palavras

felizes me assombra e me leva embora

:

a tua voz

e a tua ilha no lado de lá

das rugas do mar.


20.04.21

BL


terça-feira, 13 de abril de 2021

Muros



 

A voz do trompete a gemer

na dormência da luz.


Poderá ser o grito da loucura a revolta da

dor

contra a inclemência do caos universal

a trancar o tempo da utopia.


Nos escombros da luz chora o trompete

e a solidão da criança no coração do olhar.


Dir-se-ia uma epifania amarrotada

um silêncio náufrago

cúmplice da salvação sem farol.


E os meus olhos cobertos de sombras devastadas

bloqueados por um mundo em dissonância

procuram um verbo que nos devolva as estradas do mar


e


num lamento de sangue partilhado

evocam fantasmas e demónios

uivos que me consomem

omnipresentes.


BL

13.04.21