quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Paradoxos

 





Um inverno a atravessar o texto. Parágrafos vazios
ausência de vogais
a gritar silêncios.

A pele sedenta de espaços de neve branca ou de
papoilas quentes
a redimensionarem a vida.
E deuses pacientes
o coração tranquilo
na marginalidade do verso.

Tudo se reduz ao ruído de vendavais
à sinuosa curva sublinhada pela
dualidade dos caminhos.

BL

sábado, 28 de novembro de 2020

Já não existem janelas

 


A minha rua chove de solidão.

Os rostos partiram

lívidos

e levaram com eles os portões abertos e

os risos das crianças heróis

da fórmula um

em carrinhos de madeira construídos

nos quintais.

Nos muros da minha rua sobe o abandono e

entranham-se odores de podridão.

Já não existem janelas e

neste silêncio vazio de lágrimas

eu já não sei que horas são

e fujo

fujo

sem caminhar.


BL – 28.11.20





sábado, 21 de novembro de 2020

Ao fundo, uma parede em branco


 

Penteavas-me a trança

e metade de mim a ser

a parede em branco

ao fundo dos meus passos vagarosos.



Caminhava para trás

os braços despidos de folhas



estendidos para dentro

dos teus olhos a dizerem vai



que é frágil

e débil

a luz que sobra.



E eu a atravessar a rua antiga

e eu a ser

correndo

a outra metade de mim.



BL

sábado, 14 de novembro de 2020

Pássaro de todas as estações

Foto de J. Luz

 


 

O som do desterro cala-me

a voz


e o silêncio entranhado

nos versos

afia as arestas do pensamento

disperso entre veias de

ventos e de inglória bonança.


As palavras pararam porque

o tempo sucumbiu

no pretérito imperfeito das memórias


e nas praças ateiam-se incêndios

a clamarem a ilusória mutabilidade dos corpos.


Selaram as portas

e os rostos explodem desamores.


Longe

muito longe

transporta novembro o meu olhar de outrora

pássaro de todas as estações.


BL


domingo, 13 de setembro de 2020

Saudade


 

Caminho repartida

por entre longes e metamorfoses do tempo. Envelhecendo

pólen e certezas

ecos das brisas que me sobram

de uma janela que cresceu

voltada para sul.


Desenho nas paredes

os rostos e os fascínios

por onde passa o coração da casa


ou talvez apenas

os sinais prometidos

do gesto circular dos regressos.


No calendário das solidões

o voo migrante das primeiras folhas.


Sigilosamente interrogo o verde breve de setembro.


Raízes de ausências

lugares de ruas desabitadas


retornam vazias

as minhas mãos.



BL

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Na lucidez dos ciclos





Podemos romper paredes
trazer para dentro de casa
um rosto pele de musgo
sob a folhagem de um tempo ambíguo.

Esfregamos as pálpebras
a diluir nas nuvens
o que, na lucidez dos ciclos, poderia ter sido.

Não sei se nas paredes
se desdobram os ecos
ou ponteiros de relógios invisíveis.

As árvores dançam ao fundo da noite
e nem o doce brilho de dezembro
confunde a solidão que as habita.

BL

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Na breve floração dos olhos






Caminho por ruas incertas
dúvidas esparsas
quando na voz dorida dos rios
vejo aproximar-se
a cadente aceitação dos naufrágios.


Fragmento o tempo entre palavras
inábeis
e com elas desenho a diáspora das lágrimas
que me cabem.


Teimosamente espero as primeiras espigas
que pelas íntimas estações hão de chegar


[ na breve floração dos olhos
ou no voo transitório de uma ilusão ]


e em troca me pedem
a indizível harmonia de um silêncio.



BL