terça-feira, 16 de maio de 2017

Apetecia-me chamar-te para dentro de um abraço

Para te sentires vivo
rasgas a tua pele desamparada
e sangras de solidão.
E a solidão dói.
Saber que atrás de uma rua vazia
virá outra rua vazia.
Que um som de passos
será somente o som dos teus passos.

É provável que num cruzamento
de águas
os teus passos escutem a memória
de um horizonte perdido onde as palavras
tinham a determinação da luz.

Dentro dos teus olhos existe um lugar recôndito
habitado por uma vida inteira.

Apetecia-me chamar-te para dentro
de um abraço
porque sinto que as tuas lágrimas
estão a secar
a deslizar para dentro do teu sorriso.
Queria tanto entender os significados
que estão dentro dessas lágrimas.

Mas o vento é forte e a árvore fustigada.
A palavra desarticula-se num tempo embaciado
de espaços vazios.

E tudo se reduz aos silêncios que nos fazem
cerrar as pálpebras e descair os lábios
numa linha horizontal e ilegível.


BL
21.02.17

domingo, 14 de maio de 2017

Simon and Garfunkel


De dias outros


Podias sentar-te ao meu lado
num banco de pedras
ou de papoilas.

Podias abrir o portão
branco
e sentir as raízes a levarem-te
ao núcleo do universo.

Porque é maio
e a magnólia floriu.

Podias colher a papoila rubra
como se quisesses entreabrir o tempo
parede de chuva
e de silêncio desregrado e múltiplo.

Podias soprar-me uma palavra breve
ou então uma sílaba única
como se quisesses erguer-me o olhar
e anunciar-te no ventre da terra.

Porque o tempo é particípio
e a saudade morde o poema.

BL
14.05.17

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Pendular-me(nte)

Este estado de ser movimento pendular
dentro da nossa própria existência. Transitar
entre o silêncio e a harmonia

que murmura baixinho

como se quisesse segredar afagos
ou alguma forma de laços.

O silêncio a instalar-se ao meu redor
sufocando medos

ou a memória de uma longa história de amor.

Este estado de ser a (in)quietude do tempo
na noite que permanece.

BL
11.05.17

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Relógio de sol

Embriagada pelo sonho da flor
pintou o tempo numa grande tela
em gotas de sol e de emoção.

Remanescente a cadência do mar
a magia do azul
em eterna mutação.

Em câmara lenta

[ a desfrutar da espera ]

depois da brisa
que lhe acordou memórias


explicar o silêncio no rosto do mundo

ou a seiva entranhada em sílabas precárias
que lhe secam nas mãos.

Sabe da pele e da luz temporária
albergue de música a dissolver
a noite.

Sabe de um nome que lhe segreda aves
a lembrarem a brevidade das folhas

e a semente a envelhecer submissa
à sede que lhe atravessa
a cor.

BL
04.05.17

domingo, 23 de abril de 2017

Pousio do tempo

No grito ou no silêncio
que se estende da palavra ao assombro do momento

imensa a ondulação do tempo
sem ontem
sem amanhã

o tempo suspenso na fragmentação da luz
espaço inscrito no nada

ou nova linha de partida.

O silêncio
um traço

ou um espaço atemporal

e a sombra a procurar o grito
a entrar pela luz adentro.




BL
23.04.17

sábado, 1 de abril de 2017

Degraus

Perdeu-se de vista quando
abandonou os olhos na direção
da sabedoria dos deuses.

À sua volta nomes estranhos
segredavam-lhe medos. E ela
concha e tempestade
revolvia as manhãs na ilusão da luz

enquanto estendia pontes
e aprendia a decifrar a linguagem
dos muros.

A alma a parar num tempo feito de alvoradas
que entravam
sem baterem à porta.

Deixava que as vozes se alongassem
quando as horas se pronunciavam mais densas.

Atónita e deslumbrada
sorveu de um só trago a inocência de maio

em intermitências de um azul envergonhado
e chuva miudinha

num dia inteiro vestido de cinzento carregado
em queda para a trovoada.

Vida sem dias melhores. Nem palavras a voarem andorinhas.


BL
01.04.17