domingo, 14 de maio de 2017
De dias outros
Podias
sentar-te ao meu lado
num
banco de pedras
ou
de papoilas.
Podias
abrir o portão
branco
e
sentir as raízes a levarem-te
ao
núcleo do universo.
Porque
é maio
e
a magnólia floriu.
Podias
colher a papoila rubra
como
se quisesses entreabrir o tempo
parede
de chuva
e
de silêncio desregrado e múltiplo.
Podias
soprar-me uma palavra breve
ou
então uma sílaba única
como
se quisesses erguer-me o olhar
e
anunciar-te no ventre da terra.
Porque
o tempo é particípio
e
a saudade morde o poema.
BL
14.05.17
quinta-feira, 11 de maio de 2017
Pendular-me(nte)
Este
estado de ser movimento pendular
dentro
da nossa própria existência. Transitar
entre
o silêncio e a harmonia
que
murmura baixinho
como
se quisesse segredar afagos
ou
alguma forma de laços.
O
silêncio a instalar-se ao meu redor
sufocando
medos
ou
a memória de uma longa história de amor.
Este
estado de ser a (in)quietude do tempo
na
noite que permanece.
BL
11.05.17
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Relógio de sol
Embriagada
pelo sonho da flor
pintou
o tempo numa grande tela
em
gotas de sol e de emoção.
Remanescente
a cadência do mar
a
magia do azul
em
eterna mutação.
Em
câmara lenta
[
a desfrutar da espera ]
depois
da brisa
que
lhe acordou memórias
explicar
o silêncio no rosto do mundo
ou
a seiva entranhada em sílabas precárias
que
lhe secam nas mãos.
Sabe
da pele e da luz temporária
albergue
de música a dissolver
a
noite.
Sabe
de um nome que lhe segreda aves
a
lembrarem a brevidade das folhas
e
a semente a envelhecer submissa
à
sede que lhe atravessa
a
cor.
BL
04.05.17
domingo, 23 de abril de 2017
Pousio do tempo
No
grito ou no silêncio
que se estende da palavra ao assombro do momento
imensa
a ondulação do tempo
sem
ontem
sem
amanhã
o
tempo suspenso na fragmentação da luz
espaço
inscrito no nada
ou
nova linha de partida.
O
silêncio
um
traço
ou
um espaço atemporal
e
a sombra a procurar o grito
a
entrar pela luz adentro.
BL
23.04.17
sábado, 1 de abril de 2017
Degraus
Perdeu-se
de vista quando
abandonou
os olhos na direção
da
sabedoria dos deuses.
À
sua volta nomes estranhos
segredavam-lhe
medos. E ela
concha
e tempestade
revolvia
as manhãs na ilusão da luz
enquanto
estendia pontes
e
aprendia a decifrar a linguagem
dos
muros.
A
alma a parar num tempo feito de alvoradas
que
entravam
sem
baterem à porta.
Deixava
que as vozes se alongassem
quando
as horas se pronunciavam mais densas.
Atónita
e deslumbrada
sorveu
de um só trago a inocência de maio
em
intermitências de um
azul envergonhado
e
chuva miudinha
num
dia inteiro vestido de cinzento carregado
em
queda para a trovoada.
Vida sem dias melhores.
Nem palavras a voarem andorinhas.
BL
01.04.17
domingo, 19 de março de 2017
Março
Chegamos
a um tempo curto que se alonga
em
sentido inverso.
Tudo
o que acontece parece
ter
já acontecido
mesmo
o que acontece pela primeira vez.
Os
olhos a recuarem
assombrados
com a voz de março
no
ar que se respira. Amanhã anunciarão a flor
enquanto
o poema se abre
na
inocência dos pássaros.
Antes
da mutilação da metáfora.
BL
18.03.17
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