sábado, 14 de janeiro de 2023

Retorno à idade da inocência

 



Crispam-se os rostos

na inquietude das palavras 

que ficam por dizer.


Rodo sobre o meu eixo

e perco-me no emaranhado

das agulhas do tempo,

no desnorte dos sentimentos

ocultos na superfície dos olhares.


Tragam-me de volta

a limpidez das águas

que refletem o azul

da idade de todas as inocências.


Abram as vossas mãos

e recolham os sorrisos e o viço das pétalas

partilhadas pela brisa

que da minha alma quer soprar a desilusão.


Retornem.


Absorvam as harmonias do piano

e dancem comigo as lembranças despertadas

ao ritmo da renovação.







BL
25.10.2009





domingo, 8 de janeiro de 2023

O teu país de silêncios

 


Caminhavas lentamente por entre os anseios

de chegar a casa

e a tua voz fechada chorava o teu país de silêncios.


Recolhes ciclos de espera

ainda não é a hora

tu sabes

de acertares a dança do relógio

pelo inquieto movimento da utopia.


Ainda há portas coladas ao chão

tu sabes

dói a ausência do sol

cá fora

e as sombras soltam-se devagar

do sonho que ainda não sabe o lugar

para onde vai.





BL
2011





domingo, 1 de janeiro de 2023

Resiliência

 


Às vezes

encontra refúgio no calor

da árvore


ensaia voos

sonhos luminosos de ventos

arco-íris.


Levanta do chão

a pedra

e

passo a passo

descobre o tesouro que parece

abrir-se

sob o seu olhar molhado.


Às vezes

desliza em silêncio

fala dentro da sua voz

para seguir o seu caminho.


Mas um erro de partida

dobra-lhe o corpo pequeno

sob o grito da agressão

e

logo a seguir

cai a noite da humilhação.


Dizem-lhe então

despidos de flores

ninguém deu conta

vai devagarinho

durante uns tempos

se eu demorar

não esperes por mim.


 BL

17.12.22










domingo, 20 de novembro de 2022

Ébrios de mar

 




Cantam os rios
ébrios de mar.

Hão de marear
_ digo-lhes eu _

Hão de flutuar
os rios. Erguer-se do silêncio
e partir
no círculo mais alargado
da vertigem.

Hão de olhar para trás
os rios
os dedos hesitantes estendidos para dentro
dos nomes
amarrados às margens.

Olhares que o coração não detém.

Hão de cair
desgovernados
os rios. Como folhas de outono
que sempre se anunciarão banhadas de amanhãs
diante da primavera.

Chegam e partem
as estações

e os rios
perdidos de ébrios
em busca do vento novo que lhes circula
nas palmas das mãos.

Vão marear
os rios.

Hão de voltar
_ digo-te eu _

ébrios de espanto e de encanto e de memórias.



BL

2014







quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Fluindo

 



Fluindo

fruindo


água nítida

inocente

sempre

sempre


e a vida 

vai

por dentro


cristal

da manhã


rasto azul de

aquário

transparente


amor presente 

sempre.




BL

10.11.22









terça-feira, 20 de setembro de 2022

Por esses dias






Chegaste tu

e deste-me a palavra.

Não era para ser assim

porque eu ainda não sabia articular

os meses da primavera. Quando

aprendi a juntar as letras da

primeira palavra

já era demasiado tarde porque

entretanto

caía uma desgastante tempestade

de granizo

que reduziu a cinzas

todas as letras que

por esses dias

já me tinham sido confiscadas.


BL

20.09.22




 

No silêncio que me digo






Digo-me do silêncio das árvores 

de um céu pintado de frutos e de cores que não chegaram

a amanhecer


de navios carregados de monólogos surdos

cúmplices dos sonhos 

e das esperanças

que em cinzas caíram a meus pés

sussurrando vozes perdidas no cais


de esboços e representações

memórias de súplicas

e de soluços

irónicas sedas nos meus areais.


E no silêncio que me digo entendo

a interdita agonia das pétalas

e dos corais


a indefinível distância dos recantos

onde nasci onde morri

e hoje sou

um tudo nada

dentro de mim.




BL

20.12.2010