quinta-feira, 24 de junho de 2021

E a poesia?

 


Sei que não tens os olhos

nas minhas palavras.

Engano a realidade e aceito o silêncio

sorrio-me e explico-me que a vida

é assim mesmo

que existem atores mudos que vivem para dentro

ensimesmados.


E a poesia?


Sei que existe

sei que acontece


vislumbro-lhe o percurso

a atravessar a dúvida

pé ante pé


no ventre onde a palavra cresce


num tempo em que a vida ou estala

ou esquece.


BL

23.06.21







terça-feira, 22 de junho de 2021

Andrajos


 



Colho os frutos do chão

a carne já está oca

e sob o sangue do sol

levo-os à boca.


E no rio que em mim corre

deserdado e desnudo

mato as dores e a fome

beijo o céu e a terra

em andrajos de fogo

e de selva.


E entre os meus leitos submersos

enterro sem mapa

o meu gesto

de ser pássaro.


BL


terça-feira, 15 de junho de 2021

Somente mar

Foto de JL

 

Redemoinhos de vento isolam

as tristezas de verão

ignoram os olhares mortiços

e as pedras solitárias.


Imagino-te distante e presente

no lado de lá deste tempo que passa.


E um sonho me assombra

e me arrasta


sem caminho a seguir

somente mar

e ilha


mar

e mar.



14.06.21

BL


quarta-feira, 2 de junho de 2021

E o tempo fugia

 



Às vezes adiantava o passo

e fugia

sem se dar tempo

sem saber o espaço para onde ia.


Soletrava o amor

abandonava-se à sorte

iludia-se de horizontes e de palavras sonhadas.


Cega e oculta na mágoa que

a consumia

passava por si

esvoaçava

para um mar de promessas acenadas.


Acostava-se à voz

[ ou vertigem ]

e a sua pele estremecia.


Era a pedra a arder

dentro do grito que o vento mordia.


BL

02.06.21


segunda-feira, 24 de maio de 2021

Ardem silêncios

 


Pouco a pouco apercebes-te

de que apenas sustentas o olhar num calendário

inexato e impalpável.


Refletes na calçada passos solitários

que tingem a tarde de um vento inquieto

e semeias promessas audazes


como sonhos que adormecem sob o peso

do esquecimento

ao fim do dia.


Nos teus olhos dispersos vivem palavras

que gemem os teus silêncios insondáveis ou o sinuoso cansaço

da vida. Talvez nunca desvendem a verdade

das partículas que tu és.

Talvez sejam verbos redentores que esvoaçam na praça

a gritarem sombras a quem passa.


Antes de regressarem ao coração da noite.


24.05.21

BL



sexta-feira, 14 de maio de 2021

Algures entre um voo desamparado



 


Inscrevo os olhos no círculo do tempo

e amaino os ventos

que confundem as palavras.


Desenho auroras de risos claros

como rotas de mel 

sobre as fendas que crescem na verdade dos rostos.


Ouso encher de borboletas incertas

os bolsos vazios do poema


algures entre um  voo desamparado

e o coração fértil

que me prende à terra.


Mas são de sal e silêncio os barcos

que me estendem as mãos.


No outono do mar sou a sede melancólica

e indizível 

um ocaso entediado


no movimento anónimo do corpo.


Corpo anoitecido de sombras e naufrágios

canto de esperas desajeitadas

no dorso noturno das águas plácidas

que me navegam.


BL






domingo, 25 de abril de 2021

Na reinvenção da voz

 


A ventania tolhe a memória

recolhida na linha do arvoredo. Mas as minhas mãos errantes

disfarçam marasmos entorpecidos

enganam fins-de-tarde

dissolvidos no inverno do olhar.


Sorvem o livre movimento das ervas

de onde se ergue a lonjura do tempo

e horizontes antigos abrem-me no corpo

a brevidade do sonho

ou do esquecimento.


Como um silêncio antigo

à procura da sílaba exata na dança dos pássaros

refaço a voz na reinvenção das horas


e vou inscrevendo o crepúsculo e ramos

despidos

nas raízes dos afetos

que me prendem

ao azul inicial da palavra.


BL

01.02.14