quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

pó

 



escavo devagar  
a poeira dos dias  
outrora futuro  
agora relicário de gestos  
 
palavras secas  
ou pedras alinhadas  
corpos desfeitos  
bocas que se abrem em silêncio  
 
memórias desprendidas  
caem como folhas  
na aridez da página  
onde tudo se torna lista  
onde tudo se torna pó  



BL
03.12.25






quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Entre o eco e a noite

 





A noite repousa no vazio.

Só eco e distância.

E o presságio de uma memória 

oculta no sopro das palavras.






BL

27.11.25






sexta-feira, 14 de novembro de 2025

O toque turvo

 





E depois há o toque turvo
onde o ser se desfaz em perguntas.

Cada gesto é só um rasto
numa areia que o vento apaga.

O turvo é o lugar da dúvida
onde o claro nunca se fixa.

O tempo lembra-nos
que tudo é breve
até o próprio instante.

Somos ecos que procuram sentido
sombras que se tocam sem se prenderem.

Um sopro que insiste em existir
mesmo sabendo que se vai perder.

E depois há o toque turvo
como se o universo nos dissesse

não há resposta definitiva
há apenas o silêncio que nos envolve.




BL

14.11.25




quarta-feira, 12 de novembro de 2025

O peso de passos invisíveis

 


 




A memória

ergue-se em muros quebrados


onde o musgo escreve nomes esquecidos.

 

Vozes antigas repousam em pedras que guardam

o peso de passos invisíveis.


[O gesto a parar

a meio do tempo]

 

Entre as fendas

cresce um silêncio denso


feito de pó

e de sombra.


Um silêncio a respirar

como se fosse vivo.

 

Há um espelho partido

reflexos perdidos
onde o passado insiste em permanecer.

 

 

 

 

BL

12.11.25





sábado, 8 de novembro de 2025

Círculos do tempo

 






No centro da memória
um relógio [sem ponteiros]
marca instantes que nunca aconteceram.

 

As vozes do passado ecoam
em espirais
onde cada palavra se desfaz
antes de ser dita.


Um rio de sombras corre
em sentido inverso
e leva consigo os nomes que esquecemos.

 

As raízes do tempo entrelaçam-se
no vazio
a bordarem mapas que ninguém sabe ler.

 

Um silêncio gira lentamente
a esperar por algo
que já foi
mas nunca chegou.





BL
08.11.25









sexta-feira, 7 de novembro de 2025

O tempo fragmentado

 




O tempo fragmentado
escorre por fendas invisíveis
como vidro partido em silêncio.

 

Cada estilhaço guarda um instante
que não regressa
mas continua a arder no escuro.

 

As horas dispersam-se em círculos
perdem o nome
como se nunca tivessem existido.

 

E
no vazio entre os fragmentos
ergue-se uma sombra
imóvel
a observar
sem princípio nem fim.





BL

07.11.25






quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Rasto de seiva

 






Pisamos o silêncio
das folhas caídas

com o hálito a saber
a alecrim
e sombra.

Nos dedos
um relicário de instantes
que se desfazem
como névoa
ao toque do sol.

Há uma ternura
que se esconde
na dobra secreta
do peito
onde o tempo hesita
antes de seguir.

Talvez murmurem
os salgueiros
segredos antigos
aos ventos que passam

e talvez os pássaros
ao rasar o crepúsculo
tragam nas asas
o eco de promessas
não ditas.

Talvez a luz
que dança
na superfície dos lagos
seja o último gesto
dos dias
antes de se perderem
na eternidade.





BL

06.11.25