terça-feira, 12 de outubro de 2021

De que cor está o teu coração?

 



A personagem caiu por terra. Rodopiou

sobre a folha seca de um

guião vazio. Pouco a pouco

fechou os sorrisos

que o mito alimentava. Murcharam os ramos

e a pequena ave abandonou o ninho. Não sei

se algum voo frágil ainda a retém.


Mas vi-a reencontrar o olhar verde

do seu chão

e sei

_ contou-me_

que  agora

é maternal e.terno

o gesto claro e limpo

que pinta de amarelo o seu coração.



BL

12.10.21






quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Superfície esférica

 


Um lugar a tecer os dias que

ainda persistem.

Ruído

ausência

memória.

A esperança a dissolver-se num qualquer vento

que orienta a noite.

Dor subterrânea da pele.


A palavra como abrigo fugaz das coordenadas

da alma.

O outono na brevidade da folha

terra de silêncio a acender verbos

a arquitetar as coisas feitas de pequenos nadas.


E o dia quase a desistir do estranho sonho de ser

árvore

cada dia a ser o ramo que cai

em cima da sombra que me amarra o chão.


BL






terça-feira, 21 de setembro de 2021

Refúgio de setembro

 


 Um ruído rouco desarrumou o silêncio

congelado da rua.


Mas tu hoje não vieste. O dia alongou-se

na irremediável obrigação de existir. Cumpriu-se

o calendário das ausências


aquilo que sobra dos instantes de fogo

ou dos lugares do vento que rodeiam o teu nome.


Aquilo que sobra dentro do silêncio rouco

onde se vai dissolvendo a voz liquefeita dos pássaros.



BL

domingo, 19 de setembro de 2021

Madrugada

 


Existe uma penumbra líquida

a derramar-se sobre todas as coisas. Tudo me diz de um

caminho de silêncio inevitável

viagem de sangue que antecede a vertigem

da noite.


BL

19.09.21






sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Um tempo abstrato


 


Há uma invisível roupagem de verão

labirintos de folhagens novas

indefinidos porvires

num tempo abstrato

que se entranha

e me acorda sentires.


Não o questiono

nem lhe pergunto de onde vem.


Será uma voz, um eco, um corpo

o voo de um pássaro

que ateia mistérios

no meu rosto.



BL







sábado, 7 de agosto de 2021

Manhãs ávidas de limpidez

 

Nessas manhãs ávidas de limpidez percorro a sabedoria das árvores

e recolho

as vozes pequeninas a que me agarro

e entrego às raízes renascidas do meu corpo.


Como fumo espartilhado

acenam-me sílabas brancas de uma infância a despedir-se

formas nítidas que o tempo não fechou.

Existem nomes e ecos de horas longínquas

que chegam e se distribuem no cenário em frente à casa.


E deste silêncio quieto e doce

rolam súbitas pedras

solitárias

o vento vertiginoso para

e a manhã alonga-se

sem asas proféticas.


BL

05.08.21






quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Fragmentos

 



Talvez este espaço não me pertença

e seja apenas um lapso da minha existência


desconheço o avesso cego do instante que permanece


há rios titubeando nas cinzas

dias que me sufocam na boca e deambulam

no medo de se sentirem movimento


será que o caminho se tornou memória

ou nele apenas me sinto pó?


a pausa acontece

estilhaçada em fragmentos que se procuram no vento

antes de serem menos que um crepúsculo

espoliado de inventário.


BL